Coluna do Cesar Maia
Memórias de um botafoguense

Nilton Santos: Os Passes Certos! Oscar de Freitas: O Momento do Gol e o Cabeça de Área!

junho 2, 2009 18:24 by cesarmaia
1. Nilton Santos -que aniversariou dia 16 de maio e cumpriu 84 anos- dizia anos atrás, que vitórias no futebol, só ocorrem se os jogadores de um time entenderem que a base do futebol é acertar os passes, a partir dos mais simples. Passes errados devem ser eliminados. Ele dizia que quem acerta 100% dos passes vence o jogo. E dava o exemplo. “Cobrem de mim”, dizia. Essa regra simples é fundamental. A Folha de SP -23 de maio- publicou a estatística dos passes certos desde 2004 no Brasileirão. Nesse ano -em média- foram 76,6%. Em 2005 foram 76,4%, em 2006 foram 80,1%, em 2007 foram 79,2%, em 2008 foram 80,7% e em 2009 nesse inicio de campeonato, foram 82,7%. Nas transmissões pela TV essa estatística é apresentada em cada jogo. Sendo assim dá para avaliar a possibilidade de vitória de cada equipe por essa regra básica. Boa parte dos gols sai por erros da defesa ou da linha média na saída da bola, no passe após o desarme e na distribuição inicial do jogo em seu próprio campo.

2. O irmão do Heleno de Freitas -Oscar de Freitas- que preparou ou indicou por anos, craques ao Botafogo e treinava a escolinha, dizia que uma estatística importante é quanto aos momentos e períodos de ocorrência de gols durante as partidas. Outro dia a Folha de SP, publicou esta estatística para os últimos anos. É uma indicação de riscos maiores nestes períodos, seja por menor aquecimento, por distensão e distração dos jogadores ou por se exigir nesses períodos uma tática especial. Nos primeiros quinze minutos, ocorrem 19% dos gols. Dividamos estes 19% pelos 15 minutos e temos um índice de 1,26 de risco. Na parte final do primeiro tempo -ou 30 minutos finais- ocorrem 22% dos gols ou um índice de risco de 0,73. No segundo tempo nos primeiros 30 minutos ocorrem 26% dos gols. Um indice de risco de 0,86. Nos 15 minutos finais ocorrem 25% dos gols ou um índice de risco de 1,66. E nos acrescímos do juiz ocorrem 8% dos gols. Supondo que em média sejam 3 minutos de acréscimo pelos atrasos, o índice de risco é de 2,66, um índice altíssimo. Dessa forma as atenções devem estar redobradas no inicio das partidas e no final delas, e em especial nos minutos finais e de acréscimo. O treinamento deve incluir -por sinal do capitão- uma indicação de risco e uma tática de jogo nos minutos finais e acréscimos-tanto em caso de se defender ou buscar a vitoria.

3. E por falar em Oscar de Freitas foi ele o inventor do “cabeça de área”. Sua primeira experiência foi com Ronald Alzuguir no Botafogo, na metade da década de 50. O treinamento do cabeça de área, era feito na praia, correndo na areia, nadando e depois,em jogo, dando sempre o primeiro combate ao atacante que recebia a bola, do ponta direita ao ponta esquerda. Para isso o fôlego era fundamental. Daí o treinamento na praia. O segundo foi o juvenil do Botafogo –Luiz Carlos Boquinha que compunha o meio campo com Arlindo, consagrado depois na mais importante seleção olímpica que o Brasil já  organizou. Depois o Brasil todo adotou esta prática. Aliás, o Dunga talvez não saiba de onde veio a posição que jogou e o consagrou.    

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O passe em profundidade do mestre Didi!

maio 26, 2009 08:40 by cesarmaia
Uma outra vez, eu estava no hall dos elevadores do Maracanã, subindo para a Cadeira Especial, e o Didi entra no mesmo elevador. Estava recuperando-se de uma contusão. Pedi um autógrafo a ele, na minha camisa do Botafogo, e tentei ser simpático. Na saída do elevador, lá em cima, não me contive e perguntei: - Seu Didi, posso fazer uma pergunta? Ele respondeu que sim e com calma encostou-se na grade e esperou.

- Todo mundo fica impressionado com seus passes em profundidade e mais ainda à longa distância. A bola sai de seu pé e chega certinha no pé do jogador, que corre para recebê-la.

Lembrei alguns passes para o Garrincha, para o Quarentinha, para o Paulo Valentim.... E completei: - Como é possível o senhor acertar direitinho e às vezes de tão longe,  exatamente no pé do jogador que queria?  O senhor combina com o outro jogador no treino e trocam sinais?

O mestre Didi, já cercado por uns quatro meninos, sorriu e afirmou: - Não é nada disso. É muito mais fácil do que você imagina. A única coisa que lembro a todos do ataque é que o objetivo é o gol e que eles devem estar sempre ou abrindo ou recuando para receber uma bola rolada, ou devem sempre que o lançador estiver com a bola entre as linhas intermediárias do Botafogo e do adversário,  olhar para os zagueiros e correr na direção deles pelo lado dos mesmos.

E completou: - Eu estou sempre olhando os zagueiros adversários. Quando recebo a bola na intermediária levanto a cabeça, vejo o zagueiro que eu quero que a bola o drible, e faço o lançamento só olhando para ele. A bola deve passar acima da cabeça do zagueiro. A reação dele é tentar subir e cabecear. A bola passa por ele e cai na frente, livre entre quem vem de trás e o goleiro.

E finalizou: - Se o atacante não correu no espaço vazio à sua frente, a bola vai mansa para a mão do goleiro ou para a linha de fundo. Se correu, vou deixá-lo na cara do gol. Esse também é o principio para passes em profundidade mais curtos. Se já estou na intermediária do adversário, olho para os zagueiros e empurro o bola rasteira entre dois zagueiros. O nosso atacante tem que vir de trás ou sair de trás dos zagueiros, buscando esses espaços. Lembrem como foi no jogo com a Áustria em 1958 quando empurrei uma bola assim para o gol do Nilton Santos. O segredo dos lançamentos está sempre em olhar para os zagueiros deles e não para quem vai receber.

Saí dali decorando tudo, repetindo e repetindo.

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