Coluna do Cesar Maia
Memórias de um botafoguense

Manga, um goleiro fundador!

agosto 15, 2009 16:42 by cesarmaia
Não fossem as falhas de Manga na Copa de 1966, batendo roupa em cruzamentos laterais, num jogo dramático onde Portugal derrotou o Brasil; não fossem alguns momentos polêmicos como o bate-boca com João Saldanha sobre suas falhas num jogo contra o Bangu, que terminou com Saldanha dando tiros; ou o inacreditável gol da URSS (2x2), quando ele deu o tiro de meta, a bola bateu na cabeça de Metreveli e entrou, o que não lhe tirou a condição de titular na Copa de 1966; sem isso, certamente Manga poderia ser considerado o melhor goleiro de todos os tempos, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo. Grandes goleiros, pela colocação, capacidade, agilidade, coragem, precisão, grandes defesas, existem muitos, e hoje mesmo são pelo menos uns dez goleiros brasileiros que podem ser incluídos nesta lista internacionalmente.

Mas, quantos goleiros na história do futebol fundaram características que nunca mais mudaram? Quantos introduziram técnicas que nunca mais foram reproduzidas pelo risco que aportavam? Manga foi fundador, criador, revolucionário, e nesse sentido foi único em todos os tempos. Trataremos disso no final.

Manga nasceu em 1937 em Recife e começou com 20 anos no Sport Recife, vindo para o Botafogo em 1959. No Botafogo ficou por 10 anos. Foi para o Nacional de Montevidéu, e conquistou 10 títulos em 6 anos. Novamente consagrado, e comparado pelos uruguaios ao grande Mazurkiewiscz, em 1974 retornou ao Brasil e foi para o Internacional, sendo estrela, no grande time de Figueroa, Falcão, Carpegiani e Waldomiro. Foi campeão pernambucano em 55 e 56, campeão carioca em 61, 62, 67 e 68, tetra-campeão uruguaio em 60, 70,71 e 72, na Libertadores e Mundial de Clubes em 1971, tri-campeão gaúcho em 74,75 e 76 pelo Internacional e campeão brasileiro de 75 e 76, campeão paranaense em 78 e gaúcho pelo Grêmio em 79 e campeão equatoriano em 1981.

Mas vamos aos pontos onde Manga foi fundador, criador e inovador no futebol mundial. Foi o primeiro goleiro do mundo a abandonar as joelheiras, que vinham desde o final do inicio do século 20, mostrando que elas retiravam mobilidade e articulação dos joelhos. Foi o primeiro – e único - goleiro do mundo que quando enfrentava grandes chutadores à distância (como Pepe do Santos), retirava a barreira e mandava abrir, limpar e enfrentava a batida de falta num mano a mano, quase que como um duelo. Foi o primeiro goleiro do mundo a nunca tentar espalmar as bolas se pudesse agarrá-las independente da força com que vinham. Foi o primeiro a usar uma só das mãos (suas grandes mãos), nos cortes de cruzamentos pelo alto, trazendo-a depois de encontro ao peito. Foi o primeiro goleiro que usou mangas curtas. Foi o primeiro goleiro que abaixou o meião e jogou com meias baixas, enroladas. E foi o primeiro goleiro do mundo a entender que seu espaço não era a pequena área, mas toda a grande área e que sua mobilidade – pelo alto e por baixo - o tornava dono da grande área.

Pelos campeonatos que conquistou, pela diversidade de sua carreira, terminando nos EUA como professor, pelas inovações que introduziu no ato de ser goleiro, pelas grandes e históricas defesas que fez, por sua coragem e características de fundador, Manga é certamente o mais importante, maior e melhor goleiro de todos os tempos.

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O drible do Garrincha!

maio 13, 2009 17:38 by cesarmaia
Os dribles do Garrinha antes e durante a Copa de 1958 intrigaram os especialistas. As pernas tortas. Parar na frente do adversário, permitindo a defesa se recompor. Fazer firulas na frente do zagueiro sem conexão com o drible frontal que viria. Uma jogada que se repetia, fintando em direção à linha de fundo e cruzando forte à meia altura. E assim mesmo seus marcadores não conseguiam detê-lo.

Uma equipe alemã de cinema foi contratada para filmar Garrinha de todos os ângulos, em todas as situações, de forma que o “científico” futebol alemão pudesse treinar seus pontas direitas copiando-o.  E assim foi. Câmera fazendo tomadas de baixo, do lado, de cima, da frente, de trás, na altura do quadril.... Dezenas e dezenas de horas de filmagem.

Retornaram à Alemanha e fizeram várias edições conjugando planos e movimentos. Depois de tirarem as primeiras conclusões, professores de educação física com graduação em futebol foram vê-lo jogar, no Brasil e na Europa, comparando o que haviam visto em filmes com o que viam ao vivo.

Esperavam um tipo de drible desconcertante e novo. Ou explicar a relação do drible com o gingado. Ou explicar tudo pelas pernas tortas, ambas arqueadas numa mesma direção, o que era quase um problema ortopédico. Os estudos seguiram até que uma comissão mista concluísse os estudos.

A conclusão foi muito diferente do que tinham imaginado. Todo o gingado do Garrinha, as idas e vindas por cima da bola, levando neste movimento seus marcadores para frente e para trás, toda a coreografia do Mané era apenas a mistura de duas coisas: 1) da alegria com que ele jogava futebol e se divertia; 2) dos movimentos que distraíssem a atenção dos marcadores em relação ao momento do drible, que viria sempre perpendicular à linha de fundo, fechando em diagonal depois do zagueiro driblado.

E o mais inacreditável: o drible era simples. Mané não enganava o adversário. Batia na bola por baixo, para esta alcançar pouca altura, exatamente por cima do pé esquerdo do zagueiro, e ia junto com a bola, partindo com uma velocidade inicial maior que um recordista de 100 metros rasos.  Tudo simples. E fecharam o estudo. Não dava para ser ensinada.

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Didi: - O que é um craque?

abril 22, 2009 21:49 by cesarmaia
Ano de 1958: supercampeonato. Botafogo, Vasco e Flamengo terminaram empatados e foram para dois turnos a três. Eu tinha 13 anos e acompanhava os filhos do diretor de futebol do Botafogo, Renato Estelita. O Botafogo foi relançado por Estelita depois de quase 10 anos sem titulo. Entre outros, trouxe o Didi, grande craque que havia jogado no Fluminense. Uma transação milionária, a maior na época.


Os jogadores do Botafogo iam da concentração para a sede de General Severiano. Ali faziam revisão médica e ficavam livres para relaxar. Garrincha preferia atravessar a rua, subir numa árvore com uma fruta e ver a pelada que corria no campo na área onde hoje é o Canecão. Outros paqueravam na porta dando autógrafos e se assanhando com as meninas que passavam por ali ou que iam lá para vê-los de perto.


O único que ficava recluso era DIDI. Ele ia para o andar de cima da sede, sentava numa poltrona, esticava as pernas e ficava meditando, fazendo as suas reflexões. Era exatamente o personagem que Nelson Rodrigues o batizou: Príncipe Etíope de Rancho. Ninguém podia se aproximar do andar de cima. O porteiro pedia: - Silêncio, por favor, que o mestre está relaxando.


Mas eu queria fazer uma perguntinha ao mestre e tinha que passar pelo cerco do porteiro. Fiquei à espreita aguardando que o porteiro fosse atender a algum chamado. Não demorou muito e foi chamado lá perto do vestiário. Foi o suficiente. Subi a escada evitando fazer barulho. E entrei no salão.


Didi olhou para mim e disse: - O que quer, garoto? Eu respondi de pronto: - Seu Didi. Eu queria fazer só uma pergunta. E ele: - Se for rápida faça logo. A pergunta estava na ponta da língua: - Seu Didi, o que é um craque? E a resposta veio de bate-pronto: - Filho,craque é o jogador que de dentro do campo vê o jogo como se estivesse na arquibancada.


Não precisava dizer mais nada. Saí dali com a resposta na cabeça. E nunca mais cansei de perguntar a todos: - O que é um craque? E eu mesmo respondia: - É o jogador que de dentro do campo vê o jogo como se estivesse na arquibancada. Dava um sorriso superior e dizia: - Eu aprendi com o Didi.

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