Os dribles do Garrinha antes e durante a Copa de 1958 intrigaram os especialistas. As pernas tortas. Parar na frente do adversário, permitindo a defesa se recompor. Fazer firulas na frente do zagueiro sem conexão com o drible frontal que viria. Uma jogada que se repetia, fintando em direção à linha de fundo e cruzando forte à meia altura. E assim mesmo seus marcadores não conseguiam detê-lo.
Uma equipe alemã de cinema foi contratada para filmar Garrinha de todos os ângulos, em todas as situações, de forma que o “científico” futebol alemão pudesse treinar seus pontas direitas copiando-o. E assim foi. Câmera fazendo tomadas de baixo, do lado, de cima, da frente, de trás, na altura do quadril.... Dezenas e dezenas de horas de filmagem.
Retornaram à Alemanha e fizeram várias edições conjugando planos e movimentos. Depois de tirarem as primeiras conclusões, professores de educação física com graduação em futebol foram vê-lo jogar, no Brasil e na Europa, comparando o que haviam visto em filmes com o que viam ao vivo.
Esperavam um tipo de drible desconcertante e novo. Ou explicar a relação do drible com o gingado. Ou explicar tudo pelas pernas tortas, ambas arqueadas numa mesma direção, o que era quase um problema ortopédico. Os estudos seguiram até que uma comissão mista concluísse os estudos.
A conclusão foi muito diferente do que tinham imaginado. Todo o gingado do Garrinha, as idas e vindas por cima da bola, levando neste movimento seus marcadores para frente e para trás, toda a coreografia do Mané era apenas a mistura de duas coisas: 1) da alegria com que ele jogava futebol e se divertia; 2) dos movimentos que distraíssem a atenção dos marcadores em relação ao momento do drible, que viria sempre perpendicular à linha de fundo, fechando em diagonal depois do zagueiro driblado.
E o mais inacreditável: o drible era simples. Mané não enganava o adversário. Batia na bola por baixo, para esta alcançar pouca altura, exatamente por cima do pé esquerdo do zagueiro, e ia junto com a bola, partindo com uma velocidade inicial maior que um recordista de 100 metros rasos. Tudo simples. E fecharam o estudo. Não dava para ser ensinada.
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