Coluna do Cesar Maia
Memórias de um botafoguense

O drible do Garrincha!

maio 13, 2009 17:38 by cesarmaia
Os dribles do Garrinha antes e durante a Copa de 1958 intrigaram os especialistas. As pernas tortas. Parar na frente do adversário, permitindo a defesa se recompor. Fazer firulas na frente do zagueiro sem conexão com o drible frontal que viria. Uma jogada que se repetia, fintando em direção à linha de fundo e cruzando forte à meia altura. E assim mesmo seus marcadores não conseguiam detê-lo.

Uma equipe alemã de cinema foi contratada para filmar Garrinha de todos os ângulos, em todas as situações, de forma que o “científico” futebol alemão pudesse treinar seus pontas direitas copiando-o.  E assim foi. Câmera fazendo tomadas de baixo, do lado, de cima, da frente, de trás, na altura do quadril.... Dezenas e dezenas de horas de filmagem.

Retornaram à Alemanha e fizeram várias edições conjugando planos e movimentos. Depois de tirarem as primeiras conclusões, professores de educação física com graduação em futebol foram vê-lo jogar, no Brasil e na Europa, comparando o que haviam visto em filmes com o que viam ao vivo.

Esperavam um tipo de drible desconcertante e novo. Ou explicar a relação do drible com o gingado. Ou explicar tudo pelas pernas tortas, ambas arqueadas numa mesma direção, o que era quase um problema ortopédico. Os estudos seguiram até que uma comissão mista concluísse os estudos.

A conclusão foi muito diferente do que tinham imaginado. Todo o gingado do Garrinha, as idas e vindas por cima da bola, levando neste movimento seus marcadores para frente e para trás, toda a coreografia do Mané era apenas a mistura de duas coisas: 1) da alegria com que ele jogava futebol e se divertia; 2) dos movimentos que distraíssem a atenção dos marcadores em relação ao momento do drible, que viria sempre perpendicular à linha de fundo, fechando em diagonal depois do zagueiro driblado.

E o mais inacreditável: o drible era simples. Mané não enganava o adversário. Batia na bola por baixo, para esta alcançar pouca altura, exatamente por cima do pé esquerdo do zagueiro, e ia junto com a bola, partindo com uma velocidade inicial maior que um recordista de 100 metros rasos.  Tudo simples. E fecharam o estudo. Não dava para ser ensinada.

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Comentários

maio 15. 2009 11:30

Um ótimo artigo muito esclarecedor da alma do Garrincha. É a primeira vez que leio sobre o privilègio do arranque de um corredor de 100 metros rasos. Parabéns. Sempre apenas se fala da arte de enganar os adversários com seus dribles.

luiz Henrique

maio 15. 2009 13:20

Parabéns, pelo texto; pude ver o Mané, uma vez, ao vivo e o tenho em minha memória, dando seu show nos "João".
Imagine o Mané hoje, enfrentando a zaga do fRamengo....
seria assassinado......

Djalma Bentes

maio 15. 2009 13:52

O artigo traduz de forma simples os magistrais dribles de Garrincha.
Só quem o assistiu consegue acreditar do que era capaz fazer com a bola (e com as pernas) frente ao zagueiro.

Valdir Bazzi

maio 26. 2009 16:04

Lembro-me do Mané treinando, driblando uma cadeira nos treinamentos.sendo sempre gosado pelo Arati.Porque ninguém aceitava servir de esparro,com se dizia na época.Nós tinhamos medo de ficar atrás do gol da séde, nos treinos,por causa dos chutes do
Quarentinha.Lembro-me de um fato muito triste,ocorrido com ele depois de abandonar as chuteiras.A muito custo a pedido de algum botafoguense,foi trabalhar na CEG,como motorista.Por causa de um furto de gasolina lá ocorrido, recebemos uma telefonema de um também policial botafoguense,de que o Quarenta estaria na delegacia sob suspeita e não tendo meios para conseguir um advogado.Como meu irmão o era,fomos a DP.Ele conseguiu a liberação total do Quarenta e felizes de lá saimos,pois,pudemos fazer alguma coisa para quem nos havia dado muita alegria.

adauto guedes

maio 27. 2009 11:05

"Uma equipe alemã de cinema foi contratada para filmar Garrinha de todos os ângulos (...) Dezenas e dezenas de horas de filmagem."

Será que estes filmes ainda existem? Alguém já pesquisou?
Seria um dos acervos mais importantes da história do futebol brasileiro e, particularmente, do Botafogo.

João

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