Blog do Roberto Porto
Gênio das letras e paixão pelo Fogão!

Para que clubes elas torcem?

março 29, 2010 14:30 by rporto
 
 
De nada vai adiantar a instalação de uma UPP na Gávea se as torcedoras do Clube da Beira da Lagoa continuarem a se comportar assim nos estádios. A UPP pode controlar o tráfego dos jogadores em direção aos esconderijos do tráfico. Mas fica a pergunta: quem vai vigiar o comportamento dessas duas torcedoras em pleno Maracanã? Elas vão provocar, isso sim, uma briga de foice no escuro entre os próprios adeptos do Simpaticíssimo. Classificá-las como ‘marias-chuteiras’ é pouco para o espetáculo que já proporcionaram e que, certamente, estão acostumadas a proporcionar em partidas do Clube da Beira da Lagoa. Trata-se de um caso de atentado ao pudor, previsto no Código Penal Brasileiro – embora esse Código Penal esteja mais do que desmoralizado com o correr dos tempos em nosso imenso país.

De qualquer maneira, o flagrante não me assusta. Reflete com precisão cartesiana o comportamento da torcida do Simpaticíssimo nos estádios. Os adeptos do Clube da Beira da Lagoa brigam entre si, caem das arquibancadas, atiram urubus em pleno gramado e, agora, suas torcedoras inauguram uma nova fase. Com os raros policiais que circulam pelo estádio, em breve, muito em breve, elas irão em frente, desnudando-se por inteiras, instalando um alvoroço sem precedentes durante as partidas.

Daqui deste espaço nada posso fazer, a não ser registrar o espetáculo lúbrico por elas proporcionado. Conseqüências? São rigorosamente inimagináveis.

É claro que sei que, com o passar dos tempos, os costumes e comportamentos vão se modificando numa velocidade nunca dantes navegadas. Mas, admito, jamais imaginei que chegassem a tal ponto. Mas como é coisa praticada por adeptas do Clube da Beira da Lagoa, alegres, livres e descompromissadas, chego a compreender pelo menos em parte.

Só espero que – no caso específico delas – não tumultuem ainda mais o comportamento dos torcedores, diante de um espetáculo tão inusitado.

4.6 ponto(s). Avaliado por 20 pessoas

  • Currently 4,599999/5 Stars.
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
Tags:
Categories:
Actions: E-mail | Permalink | Comentários (5) | Comment RSSRSS comment feed

A rotina de derrotar o Vasco da Gama

fevereiro 27, 2010 15:03 by rporto
 
 
Quando o glorioso Botafogo venceu o Clube da Beira da Lagoa (2 a 1), classificando-se para enfrentar o Vasco na final da Taça Guanabara de 2010, tive uma certeza: o Alvinegro será campeão e me presenteará com um bicampeonato na véspera de meu aniversário (22 de fevereiro). Por quê? Simplesmente porque o Botafogo sempre derrota o Vasco em decisões de título. Pode até perder durante a disputa da competição – como ocorre com certa regularidade – mas na final a vitória é mais do que certa. Foi exatamente isso o que aconteceu no Maracanã, domingo, diante de 80 mil pessoas (nem todas pagantes) e o meu amado e querido Botafogo está classificado para decidir mais um título do Campeonato Estadual do Rio.

Dizem, não sei se é verdade, que Roberto Dinamite (botafoguense na infância) sabe disso e vai inaugurar uma placa em São Januário com os seguintes dizeres: ‘É proibido chegar a uma decisão de título contra o Botafogo’.

E Dinamite, que enfrentou a ditadura de Eurico Miranda por anos a fio, depois que virou a casaca está absolutamente correto. A rigor, o Vasco entra de cabeça baixa no momento de decidir títulos contra o clube de General Severiano. Vejam os torcedores o caso de Dodô, se é que ele entrou em campo domingo. Não jogou nada e mal pegou na bola.

Cheio de marra, invicto na Taça Guanabara, tendo goleado o próprio Botafogo durante a competição, o Vasco da Gama entrou de cabeça baixa para enfrentar o Glorioso. Por quê? Porque alguém, na concentração do time de São Januário deve ter alertado os jogadores cruzmaltinos: ‘Em matéria de decisões, perdemos sempre’. O resultado foi o que se viu: Botafogo bicampeão da Taça Guanabara, mesmo tendo um elenco de jogadores que precisa ser reforçado agora para a Taça Rio. Se o adversário fosse o Clube da Beira da Lagoa ou o Tricolor, não teria tanta certeza.

Mas o Vasco, que me perdoem os adeptos da cruz de malta, é mesmo freguês de caderno em finais.

Para mim, que carrego nas costas mais de quatro décadas de jornalismo esportivo, o grande responsável pela vitória de 2 a 0 foi simplesmente Papai Joel Santana, que armou um Botafogo imbatível, desde a partida contra o Urubu de Juanito das Candongas.

Destaques individuais no Botafogo? Poucos. Arriscaria dizer que apenas o goleiro Jefferson e o uruguaio Loco Abreu chamaram a atenção dos torcedores alvinegros. Mas todos os demais, sem uma única e escassa exceção, jogaram com o coração, honrando a camisa da estrela solitária que vestiram. E, agora, as bandeiras do Uruguai (Loco Abreu) e da Argentina (Herrera) integraram-se a mais bela bandeira de um clube de futebol, a do imortal Botafogo de Futebol e Regatas.

Daqui deste espaço que ocupo e que é postado carinhosamente pela amiga Malu Cabral, faço a mais fechada e absoluta questão de agradecer ao Botafogo o antecipado – um dia apenas – presente de aniversário que me deu e que ficará para sempre em minhas lembranças. Agradeço também ao presidente do clube, Maurício Assumpção, pela redenção da instituição que carrega o nome de Botafogo de Futebol e Regatas.

Agora, com o título da Taça Guanabara nas mãos, Maurício poderá botar banca na hora de transacionar com novos patrocinadores e investidores. E (quem sabe?) trazer para o segundo turno reforços para o elenco de Papai Joel Santana. O Botafogo não pode iludir-se com um título conquistado sobre um freguês em decisões.

O Botafogo é imortal e precisa, como nunca, manter suas tradições. E haverá de mantê-las.

Para terminar, aquele abraço a Fábio Ferreira e Loco Abreu pelo antecipado presente que me deram. Eu não poderia curtir um 22 de fevereiro mais feliz.

Obrigado, Botafogo, minha maior e inexcedível paixão imaterial.

(*) Recado de meu irmão Maurício Porto, alvinegro como eu, para o comentarista Jorge Nunes, da Rádio Tupi: “O Botafogo não é um clube cartesiano. Não dê palpites errados...”

5.0 ponto(s). Avaliado por 9 pessoas

  • Currently 5/5 Stars.
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5

Homenagem simples aos 90 anos de Heleno

fevereiro 11, 2010 12:40 by rporto
 
 
De maneira modesta – mas saudosa – faço hoje uma homenagem a Heleno de Freitas, que completaria 90 anos neste dia 12 de fevereiro. Nascido em São João Nepomuceno (MG), em 1920, Heleno, o ‘craque-galã’, morreria aos 39 anos em Barbacena (MG), de sífilis, em 1959.

Tive a sorte de vê-lo jogar duas vezes: uma contra o América, em General Severiano, em 1947, quando ele marcou os três gols alvinegros na vitória por 3 a 2. E mais uma vez, no mesmo ano, em Álvaro Chaves, quando o Glorioso derrotou o Fluminense por 2 a 1 (gols de Geninho e Teixeirinha, de cabeça, na saída do goleiro Robertinho).

Eu era apenas um menino de calças curtas.

Por ter sido a grande figura do jogo, Heleno foi carregado em triunfo pelos torcedores do Botafogo, que o levaram para a frente da social do Tricolor. Heleno, com seu espírito moleque, fingiu que colocava pó-de-arroz no rosto. Os adeptos do Fluminense o provocaram, chamando-o de Gilda (filme americano da época com Rita Hayworth). Foi então que o doutor de Freitas colocou a mão direita entre as pernas e fez uma nova saudação aos que o xingavam. Houve tumulto e meu pai achou melhor me retirar do estadinho.

Foi uma pena. Naquele dia fui testemunha ocular da história do futebol do Rio.

5.0 ponto(s). Avaliado por 6 pessoas

  • Currently 5/5 Stars.
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5

'Botafogo - O Vergonhoso'

janeiro 25, 2010 22:50 by rporto
Justamente no ano em que completa 100 anos da sensacional conquista do Campeonato Carioca de 1910 e que recebeu da imprensa o apelido de ‘O Glorioso’, o Botafogo tomou do Vasco uma surra homérica.

Vestidos com uma camisa ridícula, os jogadores alvinegros foram mais ridículos ainda. E o técnico, à beira do gramado do Engenhão – campo do Botafogo – nada fez para impedir o grotesco espetáculo. E a diretoria, pelo que se soube após a surra, pretende manter esse mesmo grupo que está levando o antigo Glorioso à bancarrota.

Não vou dizer que desisto, que tiro meu time de campo, porque sou profissional do jornalismo. Mas que me dá vontade, isso dá.

A partir de domingo, renegando histórias de heroísmo – como a do zagueiro Dinorah, campeão de 1910 com uma bala no pescoço – vou tratar o clube como ‘Botafogo – O Vergonhoso’. Já perdemos do Vasco por 7 a 0 em 2001, do Flamengo, duas vezes, por 6 a 0 e 6 a 1, e do Fluminense, se a memória não me falha, por 7 a 1 ou 7 a 2.

O que falta para maltratar ainda mais nossa apaixonada torcida?

Nada, rigorosamente nada.

Por isso, meu blog de hoje termina aqui, sem foto, de luto e sem esperanças de dias melhores.

3.9 ponto(s). Avaliado por 14 pessoas

  • Currently 3,857143/5 Stars.
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
Tags: ,
Categories:
Actions: E-mail | Permalink | Comentários (23) | Comment RSSRSS comment feed

Alguns gringos do Botafogo

janeiro 8, 2010 23:44 by rporto
 
Como minha memória não é de ferro – como costuma dizer sabiamente meu amigo José Inácio Werneck – o primeiro estrangeiro que me vem à cabeça quando escrevo sobre o Botafogo é o do português Rogério Lantres, que jogou com Heleno de Freitas em 1947. Mas Heleno era tão mal humorado em campo que disparava sobre o humilde Rogério toda a sua tradicional raiva após uma jogada errada. E Rogério, agindo com sabedoria, tirou seu time de campo e voltou a Portugal assim que a temporada terminou. Era difícil suportar a doentia ira de Heleno de Freitas.

Pouco depois, chegou ao Botafogo – também por apenas a temporada de 1950 – o zagueiro-central argentino Oscar Basso, apontado por Nílton dos Santos como o melhor companheiro de zaga com quem jogou. Pode ser que Nílton esteja fazendo injustiça com o mineiro Gérson dos Santos (1922-2002), que foi com ele, Nílton, campeão de 1948. Mas a opinião é de Nílton e não pretendo discuti-la.

Pouco depois, em 1952, desembarcou no Rio o hermano Rubem Bravo (meio careca) que tentou dar um mínimo de organização no meio-campo alvinegro mas logo desistiu. Veio então o goleiro argentino Hector Lugano (1955) que não era lá essas coisas. Lugano, por sinal, foi encontrado como mendigo, morando nas pedras da Urca, pelo companheiro Antônio Maria Filho. Levado a um hospital, com tuberculose avançada, Lugano logo morreu (tenho foto dele no time do Botafogo da época).

O próximo gringo a vestir a Gloriosa foi o paraguaio Juan León Cañete, ponteiro-esquerdo, em 1956-1957. Cañete entrou para a história do Botafogo em 1956, ao marcar, contra o Simpaticíssimo, o gol da vitória (1 a 0) que deu por antecipação o título carioca ao Vasco e matou a pretensão do Flamengo de ser tetracampeão carioca.

Curiosamente, Botafogo e Vasco estavam de relações cortadas, por suspeita, por parte do Botafogo, de suborno a jogadores alvinegros na derrota por 3 a 2, pouco antes da partida citada. O injustamente punido foi Robert James Neil, o Bob, interrogado pelo dirigente-policial Brandão Filho, com um revólver em cima de sua mesa.

Depois de Cañete, pelo que me recordo, o próximo gringo foi o argentino Rodolfo Fischer, de 72 a 76. Fischer participou da goleada de 6 a 0 sobre o Flamengo, em 72, mas, segundo fontes seguras de General Severiano, garantiram-me que ele não se dava com Jairzinho, cheio de máscara depois da conquista do tricampeonato mundial do Brasil no México.

Fischer fez as malas e foi mostrar sua categoria de atacante no Vitória da Bahia. Sem contar, recentemente, já no período do Engenhão, a vinda dos bolas murchas Escalada (um cara mais gordo que o Ronalducho) e Zárate, ambos argentinos, que nada jogaram por pouco tempo – mas endoidaram a torcida.

Ia me esquecendo do goleiro uruguaio Castillo, que enganou enquanto pôde.

Agora, sob as bênçãos de Mário Jorge Lobo Zagallo, chegou (foto) o uruguaio El Loco Abreu, outro cismado com a camisa 13, e, logo depois, outro hermano, Gustavo Herrera. Pessoalmente, nada tenho contra uruguaios e argentinos, desde, é óbvio, que estejam vestindo a mais bela camisa do mundo. E vou torcer muito por eles.

Só espero que o boato da vinda de Ronaldinho Gaúcho, em meio à temporada, não se concretize. Ronaldinho hoje não quer nada com a bola e sim se exibir para os espanhóis. Além, é claro, do salário que vai pedir para jogar pelo Glorioso. Vai dar crise com os outros.

(*) Uma historinha para os curiosos. Em 1938, o Vasco (não é só o Botafogo que faz algumas besteiras), contratou o gringo Bernardo Gandulla. Como Gandulla não jogava nunca, ganhou dos torcedores cruzmaltinos o apelido de gandula. Daí a origem do nome dos garotos e rapazes que ficam à margem do campo devolvendo as bolas. 

4.0 ponto(s). Avaliado por 5 pessoas

  • Currently 4/5 Stars.
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
Tags:
Categories:
Actions: E-mail | Permalink | Comentários (22) | Comment RSSRSS comment feed

O guerreiro-artilheiro Paulo Catimba Valentim

janeiro 1, 2010 23:27 by rporto
 
 
Quim Valentim - pai de Paulo Valentim (1932-1984) - não suportou mais as aventuras e desventuras do filho, Paulo Valentim, na zona boêmia de Barra de Piraí e decidiu mudar-se de armas e bagagens para Belo Horizonte. Quim tinha recursos, pois era o todo-poderoso dono da banca de jogo de bicho da cidade e, mais que isso, carregava a fama de ter jogado noAtlético Mineiro, pelo qual fora campeão em 1936, formando um trio final como goleiro Kafunga e o zagueiro Florindo.

Paulo Valentim não queria trocar de cidade mas acabou fazendo sucesso numa partida em Juiz de Fora, atuando pela equipe de Barra de Piraí. Tupi, Sport e Tupinambás fizeram propostas àquele centroavante arisco e corajoso.Mas o clube que finalmente levou o atacante foi mesmo o Atlético Mineiro, noqual Paulo Valentim, em pouco tempo, transformou-se no demolidor das defesas do Vila Nova, Cruzeiro e América. Em Belo Horizonte, Paulo Valentim dormia sob as arquibancadas do velho Estádio de Lourdes, hoje o Diamond Mall. Mas a solidão da concentração empurrou o jovem Paulo Valentim para a boêmia mineira.

Num piscar de olhos, o jovem de Barra do Piraí começou a ficar conhecido na Rua do Comércio (hoje Guaicurus), na Boate Almanara e no ponto efervescente da cidade chamado de Pólo Norte. Foi quando surgiu na vida de Paulo Valentim a figura de uma prostituta pernambucana, baixinha, rechonchuda e que tinha fama de enlouquecer os homens.

Quando Paulo Valentim conheceu Hilda, a mulher que carregava o apelido de Furacão - logicamente pelo seu desempenho sexual - não mais a largou. A juventude e o preparo físico de Paulo Valentim não prejudicavam o seu rendimento nos gramados, masa diretoria do Atlético não se conformava com as noitadas de seu centroavante.

O alvinegro de Belo Horizonte foi campeão de 1955 com Paulo Valentim,mas em 1956, mesmo com todos os gols que marcava, o clube decidiu negociar seu passe com o Botafogo. O dirigente mineiro José Ramos, em entendimento com João Saldanha, conseguiu vender o passe de Paulo Valentim por Cr$ 1milhão, quantia altíssima para um jogador inteiramente desconhecido no futebol carioca.

Em 1955, depois de cometer a loucura de vender os passes de Dino da Costa e Vinícius ao futebol italiano, o Botafogo foi superado pelo Bonsucesso e não pôde disputar o terceiro turno do Campeonato Carioca. No início de 1956, revoltado com o vexame, João Saldanha saiu em campo e decidiu - com autorização do presidente Paulo Azeredo - reestruturar o departamento de futebol do clube.

Além de Didi e Paulo Valentim, João Saldanha negociou as contratações de José Carlos Bauer, do centroavante argentino Alarcón e do ponteiro paraguaio Cañete. Só não pôde promover a volta de Quarentinha (1938-1996) que ainda ficou um ano emprestado ao Bonsucesso.

Mas o Botafogo de 1956, mesmo não sendo campeão, voltou a trilhar o caminho das vitórias e foi o responsável direto pelo tiro de misericórdia no sonho do tetra campeonato do Mais Querido.

No turno, derrotou o rubro-negropor 5 a 0 e, no returno, venceu por 1 a 0, gol de Cañete, dando por antecipação o título da cidade ao Vasco. E Paulo Valentim conquistou aposição de titular para o Campeonato Carioca de 1957.

A partir de sua chegada ao Botafogo, Paulo Valentim passou a viver dias de sucesso. Em 1957 foi o herói da conquista do título alvinegro, marcando nada menos do que cinco gols na vitória de 6 a 2 sobre o Fluminense, diante de 130 mil torcedores que pagaram ingresso. Curiosamente, no time campeão, os artilheiros Paulo Valentim e Quarentinha (que retornara ao Botafogo) mal se falavam e em campo não trocavam passes.

No ano seguinte, mesmo perdendo o super-super campeonato para o Vasco, o Botafogo fez boa figura e Paulo Valentim - que recebera de Garrincha (1933-1983) o apelido de Macaco Sueco -acabou convocado para a Seleção Brasileira que disputaria em Buenos Aires, em 1959, o Campeonato Sul-Americano. E foi na capital argentina que ele transformou-se em herói nacional ao botar os uruguaios para correr e ainda marcar os três gols da vitória brasileira por 3 a 1.

Os argentinos ficaram encantados com a bravura de Paulo Valentim e não sossegaram enquanto o Boca Juniors não comprou seu passe, no início datemporada de 1960.

Antes de seguir para Buenos Aires, Paulo Valentim anunciou aos companheiros de Botafogo que, daquele momento em diante, sua companheira Hilda Furacão seria a senhora Hilda Valentim. Entre os padrinhos do casamento estavam João Saldanha e o mineiro Américo Pampolini, que também se sagrara campeão de 1957.

Dizem que, no sermão ao casal, o padre teria feito referências pouco elogiosas ao passado de Hilda e que Paulo Valentim, irritado, pensara em agredi-lo.

O que é certo é que João Saldanha, ateu de carteirinha, conseguiu acalmar os ânimos e a cerimônia pôde prosseguir. E lá se foi Paulo Valentim para Buenos Aires, casado com Hilda Furacão (foto deles, no apartamento de Buenos Aires), para defender o Boca Juniors, o clube de maior torcida na Argentina.

Lá, Paulo Valentim e Hilda moraram no mesmo prédio de Orlando Peçanha, campeão mundial pelo Brasil em 1958 e preterido para a campanha de 1962 no Chile. E o Boca, de jogadores famosos como Ubaldo Rattin, Marzolini, Orlando Peçanha e Sanfilippo, entre outros, sagrou-se campeão em duas temporadas: 1962 e 1964.

Por que Paulo Valentim, artilheiro dos campeonatos argentinos de 1961, 1962 e 1964, ídolo da torcida do Boca Juniors, veio parar no São Paulo na temporada de 1965? Segundo o repórter Paulo Vinícius Coelho, da ESPN Brasil, Paulo Valentim esteve inscrito pelo tricolor paulista em três temporadas: 1965, 1966 e 1967.

Nos registros do clube do Morumbi seu nome, porém, é apenas uma anotação sem qualquer comentário. De São Paulo, Paulo Valentim – sempre acompanhado de Hilda Furacão – viajou para Toluca, no México, onde os brasileiros passaram a ter enorme cartaz após a conquista da Copa do Mundo de 1970.

Mas beirando os 40 anos, sem fôlego e tresnoitado pelas mesas de pôquer, só lhe restou a opção de trabalhar no cais do porto. Vendo o estado de saúde do marido piorar, consta que Hilda Furacão teria lhe dito que voltaria à velha profissão – a mais antiga do mundo – para que ambos sobrevivessem. Paulo Valentim vetou a pretensão da companheira e eles voltaram ao Brasil.

Parece que Neivaldo Carvalho (1933-2006), eficiente ex-jogador do Botafogo, foi o último contato de Paulo Valentim no Brasil. Pouco antes da Copa do Mundo de 1978, na Argentina, Neivaldo, Cacá, Pampolini, Vavá e muitos ex-jogadores, como Nilton Santos, costumavam bater bola no Caxinguelê, um clube no Horto Florestal do Rio, perto do prédio da Rede Globo.

Por incrível que pareça, dessas peladas participava Ermelindo Matarazzo, que jogou nos aspirantes do Botafogo no final da década de 40. Ao final de uma manhã de muita diversão, Pampolini deu um recado a Neivaldo:

– Tem um cara atrás do gol que quer falar com você...

Neivaldo foi até lá e custou a reconhecer o cidadão. Era Paulo Valentim, que o próprio Pampolini, padrinho do casamento com Hilda Furacão, não reconhecera. Paulo Valentim queria dinheiro para comprar duas passagens para Buenos Aires. Neivaldo apelou então para o milionário Ermelindo Matarazzo. O ex-goleiro fez uma exigência:

– Dinheiro eu não dou. Dou a você, Neivaldo, que fica encarregado de comprar as passagens e entregá-las em mãos, está combinado?

Neivaldo comprou as passagens e as passou a Paulo Valentim, hospedado numa pensão barata no Flamengo. Quando esteve na pensão, Neivaldo não viu Hilda Furacão, mas ficou assustado com a quantidade de malas que tomavam conta do quarto. E ouviu a última frase do velho companheiro de Botafogo:

– Vou morar com a Hilda num apartamento de paredes aveludadas que temos em Buenos Aires...

Seis anos depois, Paulo Valentim estava morto.

5.0 ponto(s). Avaliado por 2 pessoas

  • Currently 5/5 Stars.
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5

Os mortos da 'Batalha de Berna'

dezembro 31, 2009 20:30 by rporto
 
 
A Hungria, sob o regime comunista, chegou em 1954 ao Mundial da Suiça como favorita absoluta para conquistar o título. Campeões olímpicos de 1952, em Helsinque, Finlândia, os húngaros, no ano seguinte, deram um verdadeiro baile na Inglaterra, em Wembley (6 a 3), diante de 100 mil espectadores.

Na revanche, em Budapeste, foi pior: o time dos craques Ferenc Puskas, Sandor Kocsis, Zoltan Czibor e Jozef Bozsik aplicou nos ingleses a histórica goleada de 7 a 1. Fora os húngaros, como forças secundárias, apareciam na Suiça, que jogava em casa, o Uruguai (campeão mundial em 1950), e o Brasil (campeão Pan-Americano de 1952), sob a direção de Zezé Moreyra (1907-1998).

Dos derrotados pelos uruguaios em 1950, Zezé Moreyra praticamente não levou ninguém entre seus jogadores titulares, formando uma equipe com Carlos Castilho, Djalma Santos, Pinheiro e Nílton Santos; Brandãozinho e José Carlos Bauer (remanescente de 50); Julinho Botelho, Didi, Baltazar, Pinga e Rodrigues, que carregava com ele o apelido de Rodrigues Tatu. A Seleção Brasileira estreou goleando o fraquíssimo México por 5 a 0 e, logo depois, empatou em 1 a 1 com a Iugoslávia da época, não tão dividida em vários países como hoje.

Mas a famosa ‘Batalha de Berna’ acabou definida por sorteio para o terceiro jogo. O clima em Macolin, nas cercanias de Lausanne, foi o pior possível quando todos souberam que iriam enfrentar a Hungria. Ainda garoto de colégio, me recordo de ter ouvido no rádio uma frase histórica de Pinheiro a respeito do sorteio:

- É, agora vai ser difícil...Vamos ter que enfrentar os húngrios (sic)...

Poucos sobraram vivos daquela partida disputada sob tensão no Wankdorf Stadium, em Berna. O Brasil, com a equipe alterada, jogou com Castilho (1927-1987), Djalma Santos (1929), Pinheiro (1932) e Nílton Santos (1925); Brandãozinho (1925-2000) e José Carlos Bauer (1925-2000); Julinho (1929-2003); Didi (1928-2001), Índio (1931), Humberto Tozzi (1934-1980) e Maurinho (1933-1995). A Hungria, que venceu por 4 a 2 e eliminou o Brasil, colocou em campo Gyula Grosics (1926), Jeno Buzansky (1925) e Mihaly Lantos (1928-1989); Gyula Lorant (1923-1981), Jozsef Bozsik (1925-1978) e Jozsef Zakarias (1924-1971); Joszef Toth II (1929), Sandor Kocsis (1929-1979), Nandor Hidegkuti (1922-2002), Mihaly Toth (1926-1990) e Zoltan Czibor (1929-1997).

Pelo Brasil, não jogaram Baltazar (1926-1993), Pinga (1924-1996) e Rodrigues Tatu (1925-1988) e, pela Hungria, Ferenc Puskas (1927-2006) e Laszlo Budai II (1928-1983). Os cronistas da época disseram que Baltazar, Pinga e Rodrigues fugiram da raia, com medo da Hungria.

Correu, inclusive, o boato que na concentração de Macolin eles teriam ingerido tubos de pasta de dentes para alegar diarréia no dia da partida. Puskas não pôde jogar pois foi covardemente atingido no tornozelo pelo alemão Liebrich, nas oitavas-de-final, quando a Hungria venceu por 8 a 3. Mancando e poupando-se, Puskas só voltou para disputar a final, que a Alemanha Ocidental venceu por 3 a 2 e conquistou seu primeiro título mundial. A arbitragem do inglês William Ling foi considerada suspeita, pois anulou um gol legítimo de Puskas, no segundo tempo. Em meio à chamada ‘Guerra Fria’, comentou-se na época que a Hungria, país ‘satélite’ da antiga União Soviética, não poderia jamais ser campeã do mundo, pois premiaria o comunismo, vigente em vários países do Leste Europeu.

Ao final de Hungria x Brasil, houve um tumulto generalizado nos vestiários, um ao lado do outro. O Brasil teve Nílton Santos e Humberto expulsos, enquanto a Hungria teve somente Boszik. Daí vem o apelido de ‘A Batalha de Berna’ Dessa verdadeira guerra campal, pelo Brasil restam quatro vivos: Djalma Santos, Pinheiro, Nílton Santos e Índio. Pela Hungria, só sobraram três, Grosics, Buzansky e Toth II. Ambas as seleções tiveram suicidas: Castilho, pelo Brasil, e Kocsis, pela Hungria.

Após o Mundial, Nélson Rodrigues (1912-1980) gozava seu colega de resenha esportiva Armando Nogueira, que vira na Hungria um time imbatível. Quando queria provocar Armando, Nélson dizia simplesmente ‘A Seleção Húngara do Armando Nogueira’, como que insinuando claramente que não havia equipe tão brilhante assim.

(*) Na foto, perfilados, no dia do jogo, cantando o Hino Nacional, estão, da esquerda para a direita, Índio, Didi, Humberto, Maurinho, Djalma Santos, Brandãozinho, Nílton Santos, Pinheiro, Julinho, Castilho, Bauer e o massagista Mário Américo, verdadeiro ‘papagaio de pirata’ nas fotografias do Brasil.

5.0 ponto(s). Avaliado por 1 pessoas

  • Currently 5/5 Stars.
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
Tags:
Categories:
Actions: E-mail | Permalink | Comentários (2) | Comment RSSRSS comment feed

O Glorioso na reta de fazer 100 anos

dezembro 28, 2009 22:21 by rporto
 
 
Fundado a 12 de agosto de 1904, no Largo dos Leões, o Botafogo Footbal Club esperou 48 longos anos para se fundir com o Club de Regatas Botafogo, criado em primeiro de julho de 1894, na Praia de Botafogo. Segundo João Saldanha (1917-1990), essa demora de quase meio século perdurou porque o Regatas – proprietário da estrela solitária, que não é estrela e sim o planeta Vênus – estava repleto de tricolores. Por fim, a oito de dezembro de 1942, como o Regatas andava mal das pernas (ou dos remos) uniu-se ao Football, originando o Botafogo de Futebol e Regatas de hoje, que agora, em 2010, caminha para completar bem vividos (e sofridos) 68 anos de vida.

Mas e os 100 anos do apelido de O Glorioso, como surgiu?

Surgiu em 1910, quando o Botafogo Footbal Club cumpriu uma campanha excepcional no Campeonato Carioca, conquistando o título depois de golear o Fluminense por 6 a 1, a 25 de setembro daquele ano, faltando ainda uma partida a ser cumprida diante do Hadock Lobo, igualmente fuzilado por 11 a 0. O time campeão de 1910 – que recebeu o apelido de O Glorioso – está aí na foto que ilustra este blog: Coggin (os goleiros só usariam camisas diferentes a partir de 1912), Pullen e Dinorah de Assis; agachados, Rolando, Lulu e Lefèvre; e sentados, Emanoel, Abelardo, Décio, Mimi Sodré e Lauro, que tiveram 10 jogos, nove vitórias e uma única derrota.

Mas fica a pergunta: quem apelidou o Botafogo de O Glorioso?

Para Alceu Mendes de Oliveira Castro, que escreveu a bíblia alvinegra ‘O futebol no Botafogo – 1904/1950’, foi a imprensa esportiva da época. Mas ele não cita um autor. O fato é que na década de 40, o compositor (torcedor do América) Lamartine Babo (1904-1963) incorporou o apelido Glorioso no que é hoje o hino oficial do clube – que me arrepia até hoje quando por acaso o ouço – e que a torcida canta nos jogos.

Mas o Botafogo é assim mesmo, cheio de idas e vindas, muitos erros e alguns acertos e até já freqüentou a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Vocês, que me acompanham neste blog alvinegro talvez não saibam, mas o Botafogo é tão imprevisível – e até chegado à loucuras – que, após a fusão e a adoção do mais belo escudo do mundo (eleito por diversas revistas internacionais) decidiu estrear as novas camisas (já com a estrela solitária) num simples treino coletivo no dia 19 de janeiro de 1943. Pode? Pode. No Botafogo tudo pode. Por isso, Augusto Frederico Schmidt disse a Santhiago Dantas (ambos alvinegros) que o Botafogo teria a vocação do erro.

João Saldanha era mais simples. Dizia que o Botafogo é um campo e duas balizas. Com toda a sua experiência no clube, será que João Sem Medo estava errado?

Vamos agora esperar que, neste ano de 2010 que está chegando, o departamento de marketing do clube faça uma grande promoção dos 100 anos do Glorioso. Mas, por favor, não confundam os 100 anos do Glorioso com a data de fundação do clube, que já ultrapassou em muito essa data, e que a 12 de agosto estará fechando 106 anos.

E tenham todos a mais absoluta e convicta das certezas de que João Saldanha, até morrer, sempre teve certa implicância com o Regatas, apesar da bela estrela solitária, do lindo escudo que foi originado da fusão e do belo nome Botafogo de Futebol e Regatas.

O motivo: já disse acima: ele achava que o Regatas estava cheio de tricolores. E chegava a citá-los, mas não estou autorizado a revelar aqui quem era ou não era torcedor do Fluminense. Que vocês, leitores, principalmente os veteranos, tentem descobrir quem era adepto do mais que famoso Pó de Arroz das Laranjeiras.

4.7 ponto(s). Avaliado por 3 pessoas

  • Currently 4,666667/5 Stars.
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
Tags: ,
Categories:
Actions: E-mail | Permalink | Comentários (1) | Comment RSSRSS comment feed

Gigghia, o último vivo da façanha de 50

dezembro 27, 2009 23:12 by rporto
 
 
No último dia de outubro ainda deste ano de 2009, publiquei neste blog a foto do time do Brasil que disputou a final do Mundial de 1950, contra o Uruguai, a 16 de julho daquele ano, no Maracanã. Todos, do goleiro Barbosa ao ponteiro-esquerdo Chico já deixaram este mundo. O último deles foi o zagueiro-central Juvenal Amarijo, que faleceu este ano. O time da decisão era Barbosa, Augusto e Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair Rosa Pinto e o já citado Chico.
Hoje, graças à preciosa ajuda do amigo uruguaio Carlos Daniel Goyen, passo para o lado dos campeões mundiais e publico seus destinos. Na foto, no Maracanã, estão, da esquerda para a direita, de pé (só valem os uniformizados) Obdúlio Varela, Tejera, Gambetta, Máspoli e Rodriguez Andrade; agachados, na mesma ordem, Gigghia, Júlio Perez, Miguez, Schiaffino e Morán (reserva do titular Vidal).

De todos eles, o único ainda vivo, morando em Montevidéu, é o ponteiro-direito Alcides Gigghia (1926), autor do gol da vitória de 2 a 1 dos uruguaios. Os demais, como seus adversários brasileiros, se foram. A saber, Roque Máspoli (1930-1978), Mathias González (1925-1985), Eusébio Tejera (1922-2002), Schubert Gambetta (1920-1991), Obdúlio Varela (1917-1996), Rodríguez Andrade (1927-1985), Julio Perez (1926-2002), Oscar Miguez (1927-2006), Alberto Schiaffino (1925-2002), Rubén Morán (1930-1978) e o técnico Juan Lopez (1908-1983).

Em poucas e resumidas palavras, quase que por ironia do destino, apenas Alcides Gigghia, que enganou Moacir Barbosa na baliza à direita das tribunas do Maracanã, permanece vivo, como que para relembrar para a história do futebol uruguaio, a maior façanha esportiva de seu país e o bicampeonato mundial (1930-1950) que nossos irmãos do Sul ostentam com maior orgulho e paixão.

Nunca é demais lembrar que poucos meses antes, na Copa Rio Branco, Brasil e Uruguai jogaram três vezes seguidas, uma delas no Pacaembu e as duas outras em São Januário. O Brasil perdeu um jogo e venceu os outros dois com a maior dificuldade. Se o técnico Flávio Costa (1906-1999) não aprendeu a lição, quem sou eu – à época um menino de calças curtas – quem vai discutir o assunto?

Só posso lamentar porque a essa altura do campeonato seríamos hexacampeões e livraríamos ligeira vantagem sobre a Itália e Alemanha que já são tetra.

4.5 ponto(s). Avaliado por 2 pessoas

  • Currently 4,5/5 Stars.
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5

As várias faces de João Saldanha

dezembro 25, 2009 11:58 by rporto


João Jobim Alves Saldanha (1917-1990) foi, inegavelmente, um sujeito inteligente. Recentemente, inclusive, virou estátua no Maracanã, com todo merecimento. Mas eu, que convivi com ele na redação do Jornal do Brasil, na Avenida Brasil, 500, nele descobri, somando fatos e conversas particulares, certa incongruência – se é que os leitores deste meu blog me entendem. E essa incongruência o levou a ser demitido da Seleção Brasileira que, nas mãos de Mário Jorge Lobo Zagallo, conquistou o tricampeonato mundial em 1970, no México.

Vejamos dois exemplos típicos – que cheguei a debater com ele na redação. O Botafogo que esmagou o Fluminense por 6 a 2 na final do Campeonato Carioca de 1957, estava teoricamente escalado com Adalberto, Beto, Thomé, Servílio e Nílton Santos; Américo Pampolini e Didi; Garrincha, Édison Praça Mauá, Paulo Catimba Valentim e Quarentinha. Por sinal, Paulo Valentim jogou com a camisa oito porque afirmou que a nove não lhe dava sorte – talvez por isso marcou cinco gols.

Na prática, porém – eu lá estava com meu amigo Roberto Sant’Anna – o time jogou com Adalberto, Beto, Thomé, Servílio e Nílton Santos; Pampolini, Didi, Édison e Quarentinha; Garrincha e Paulo Valentim, ou seja, num 4-4-2 fechadíssimo. E mais: Quarentinha, artilheiro implacável, recebeu a missão de marcar Telê Santana (1931-2006) em cima, não permitindo que o número sete tricolor armasse um único e escasso ataque para Valdo, Escurinho ou Jair Francisco. Estratégia inteligente? Claro. O Fluminense era mais afinado e vencera o Botafogo no turno por 1 a 0, com Didi, de maneira mais do que displicente, chutando um pênalti nas mãos de Carlos Castilho.

Mas e na Seleção Brasileira, tantos anos depois?

João Saldanha escalou o time num 4-2-4. Na foto acima, em 1957, Thomé comanda uma abraço generalizado dos alvinegros na goleada histórica. Na foto abaixo, a cores, estão posados Carlos Alberto Torres, Félix, Djalma Dias, Joel, Wilson Piazza e Rildo; embaixo, agachados, Jairzinho, Gérson, Tostão, Pelé e Edu, ou seja, dois pontas abertos e apenas dois no meio-campo (Piazza e Gérson), às vezes auxiliados por Tostão, que não marcava ninguém. Em poucas e resumidas palavras, como diria Nélson Rodrigues (1912-1980), era um 4-3-3 mais para 4-2-4. Pode?

Em 1970, logo depois da Copa do Mundo, fui ao Chile com a Seleção Brasileira e fiquei temporariamente retido em Buenos Aires à espera de uma escala. Sabem com quem conversei por mais de uma hora? Com o presidente da então CBD João Havelange, também à espera de um avião para Santiago. E Havelange me disse que com aquele esquema de dois pontas abertos (Jair e Edu) e o meio-campo desprotegido o Brasil não iria a lugar nenhum. Daí a demissão de João Saldanha e a chegada de Mário Jorge Lobo Zagallo, com seu tradicional e eficiente (na época) 4-3-3.

O que fez Zagallo? Mudou o time. Montou uma equipe com Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza e Marco Antônio (depois Everaldo); Clodoaldo, Gérson e Rivelino; Jair, Tostão e Pelé. E quando Gérson se machucou, valeu-se da primeira substituição permitida numa Copa do Mundo: colocou Paulo César Lima recuado e avançou um pouco Roberto Rivelino, ou seja, manteve o rígido 4-3-3 que aplicara no Botafogo, com Carlos Roberto, Gérson e Paulo César, mantendo à frente Rogério Ventilador, Jairzinho e Roberto Miranda.

Naquela tarde no Aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, conversando animadamente com João Havelange, me convenci de que o comunismo de João Saldanha nada tivera a ver com sua demissão. E que a chamada ditadura militar não dera qualquer palpite, a não ser o pedido de Emílio Garrastazu Médici (1905-1985) para que desse uma chance a Dadá Maravilha – que, cá entre nós, de Maravilha não tinha nada. A rigor, Dario só fez correr em campo, após a final, tentando carregar a Taça Jules Rimet, infelizmente derretida por bandidos que invadiram a então CBF.
 
 

3.8 ponto(s). Avaliado por 4 pessoas

  • Currently 3,75/5 Stars.
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
Tags:
Categories:
Actions: E-mail | Permalink | Comentários (6) | Comment RSSRSS comment feed