Para começo de conversa, confesso que sou supersticioso, especialmente em relação ao Botafogo. Mas jamais aceitei a história dos 21 anos sem ganhar um título. Se o Glorioso fora campeão em 1968, naquele 21 de junho de 1989 ele estava há 20 exatos anos sem levantar o Campeonato Carioca. Fecharia 21 se perdesse para seu grande rival no Rio. Aí sim, completaria o número que se transformou em cabalístico para os alvinegros. Mas naquela noite de quarta-feira, estava confiante, embora tivesse pela frente a tarefa de editar as páginas de esporte da Tribuna da Imprensa, na Rua do Lavradio.
À tarde, recebi um telefonema do amigo Márcio Guedes, na época comentarista da TV Manchete. Márcio estava pessimista e me disse que estava com vontade de não ir ao jogo. Disse a ele que fosse por dois motivos: primeiro, porque o Botafogo seria campeão; e, segundo, porque estava obrigado a comentar a partida ao lado do narrador Paulo Stein. Creio que Márcio, ainda no Leme, onde mora até hoje, ganhou certo estímulo, tanto é que estava ao microfone quando a decisão começou. Valeu a pena.
Preso ao trabalho – como ocorreu no Brasileiro de 1995 – assisti ao jogo pela televisão na sala do diretor do jornal Hélio Fernandes Filho e deixei com o companheiro Arthur Parahyba (1920-2004) a tarefa de redigir o que estava acontecendo no Maracanã. Ou porque estava trabalhando ou porque tinha um horário rígido para fechar a página, não me recordo de grandes emoções na hora em que Maurício, aproveitando o cruzamento de Mazolinha, marcou o gol de vitória aos 12 minutos do segundo tempo. Creio que achei cedo demais para comemorar a vitória e o título de campeão.
A ficha só foi cair quando cheguei em casa e queria, de todo o jeito, ir a General Severiano comemorar o fim de um jejum tão longo. Mas já era tarde e minha mulher me convenceu a ficar sossegado, assistindo aos teipes pela televisão. Só dias depois, fui a algumas comemorações, uma delas, no domingo seguinte, num bar em Copacabana e outra num restaurante, com os jogadores, em um jantar numa churrascaria. O Botafogo, finalmente, me tirara das costas um peso que carregava há duas décadas e me dera ânimo para que o clube seguisse no caminho das vitórias, como ocorreu em 1990.
Hoje, tanto tempo depois, aquela minha alegria arrefeceu. Não me conformo, de jeito algum, em aceitar a perda, três vezes seguidas, do título carioca para o mesmo Flamengo, em 2007, 2008 e agora em 2009. O Botafogo do meu tempo era mais Botafogo, carregava uma multidão ao Maracanã e rivalizava com o Santos, apontado como o melhor time do Brasil. E não posso me queixar da década de 90, quando o clube mantinha uma equipe forte, vencedora e conquistava novos torcedores.
Serei Botafogo até o apito final de minha vida, nos estádios, na televisão e até pelo rádio. Fui Botafogo até mesmo na segunda divisão, marcando presença no Caio Martins. Mas as três sucessivas derrotas justamente para o Flamengo fizeram com que o ano de 1989 ficasse um pouco escondido no meu coração. Jamais me conformarei com isso. Por quê? Porque o Botafogo, há mais de seis décadas, é o meu maior amor imaterial.
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