Ainda no trabalho, as mensagens no grupo de WhatsApp começavam a bombar, eu ignorava. Os flamenguistas colocavam pilha, já os botafoguenses, tensos, não queriam nem muito papo. E eu também estava nessa. Tentei me manter tranquilo e pensar no jogo apenas na hora que a bola rolasse.

Coitado. Que tática falha.

No caminho de casa mesmo, o frio do ar-condicionado do metrô carioca já deixava os nervos à flor da pele. Continuava não olhando para o celular, companheiro fiel de toda viagem, até que o olhar perdido lê no vagão: “Assentos preferenciais – Lugares destinados a pessoas com deficiência, idosos, gestantes e pessoas com crianças de colo“.

Placa do metrô avisa quais passageiros tem direito aos assentos preferenciais

Merda, que pilha errada! Vai ter lugar destinado para colo nenhum!

O nervosismo estava instalado com sucesso.

Esfomeado, cheguei em casa minutos antes da partida, tinha que fritar um pedaço de frango se quisesse comer.

Não sei o motivo, mas resolvi apostar na tranquilidade novamente. Pensei: “O time joga por um empate, um golzinho pode sair em qualquer hora”. Empurrei um pouco o sofá da sala para frente, fechei todas as portas da casa e decidi ver o jogo sozinho mesmo. Os rituais, praticamente deixados de lado, pararam por aí, nada especial. Nem a camisa do Fogão foi lembrada. Um absurdo, né? Pois é…

Rolou a bola, dois minutos, gol dos caras. Contra! Incrédulo, enquanto ainda passava o replay e escutava a torcida deles cantando, fritei o frango.

Retornei à sala e vi um Colo-Colo fraco, o Botafogo dominava a partida em todos os setores. Isso ao mesmo dava esperança e era agoniante.

Agonia que me sufocou até o relógio ameaçar a virar 30 minutos do segundo tempo. O que fazer naqueles 15 minutos finais? Vários filmes e perguntas passavam pela cabeça: “Que injusto, cara!”, “A torcida não merece isso depois daquela festa”, “E o sócio-torcedor?”, “Como vai ser o restante do ano?”, “E o FOGÃONET?”.

Desolado e sem saber o que fazer, abri a porta da sala sob os olhares da minha mãe e do meu irmão – eles acompanharam meu caminhar calados e atentos, já me conhecem. Entrei no meu quarto, mirei uma gaveta do armário e elegi duas camisas do Botafogo como amuleto. Voltei para o sofá da sala.

Camisas do Botafogo. Uma delas autografada por Túlio Maravilha

As duas camisas eram uma só nas minhas mãos e quase tampavam minha respiração, apenas os olhos seguiam à mostra e vidrados na TV.

Quatro minutos depois, veio o grito, que não conseguia sair completamente: “Foooooooo, Foooooooog, F…!!!”.

O sorriso já ganhava o rosto e transparecia a felicidade da certeza da classificação.

Dormi feliz como há muito tempo não dormia.

Sempre soube que nossa Estrela Solitária se sentia em casa no Chile.

Bandeiras do Chile e do Botafogo com suas estrelas solitárias

E vocês, algum ritual? Alguma história curiosa?
Vamos compartilhar e comemorar!

Saudações alvinegras!