C.E Sangenetto

Antes de qualquer coisa, o papo que vamos ter hoje aqui nada tem a ver com religião. E sim, com sonhos. Afinal, quem nunca sonhou? Quase todo mundo. Uns sonham toda noite, outros sonham e não lembram, enfim, comecemos. Sou Botafogo e Portela, combinação de muitos alvinegros por aí. Nunca escondi isso de ninguém, principalmente na minha profissão, em que muitos jornalistas preferem ofuscar o time do coração, por exemplo. Acho uma grande bobagem. Ocultar uma paixão não vai te fazer mais ou menos competente. Fui escolhido pela Estrela Solitária e pela Águia de Madureira desde criança, com quatro e oito anos de idade, respectivamente. E isso nunca fez a parcialidade tomar conta de textos ou resenhas de botecos.

Parcialidade. Está aí, um bom gancho para falar sobre um sonho que eu tive. Como bom portelense, cresci escutando sambas e lendo histórias de ícones da história da escola azul e branca, como Paulo, Caetano, Rufino, Candeia, Natal, Monarco, Clara Nunes, Paulinho da Viola, eita, lista interminável (parece até a relação de ídolos do Fogão). Em meados de janeiro, ou seja, um pouco mais de um mês antes do Carnaval, sonhei com a única mulher citada aí em cima: Clara Nunes.

Clara Nunes com a bandeira da Portela no Carnaval de 1981Clara Nunes segura o pavilhão da Portela no Carnaval de 1981 (Foto: Reprodução/Internet)

Carlos Eduardo, você nasceu em 1990, nunca teve ligação nenhuma com a cantora mineira, que morreu precocemente, em 1983, após uma cirurgia de varizes. O elo sempre foi unicamente a Portela, escola do nosso coração, e, no máximo, algumas histórias do passado. Pois bem, era, deixou de ser apenas isso.

Sabe aqueles sonhos que parecem ser o último que você tem antes de acordar? Então, eu estava em um cenário bem louco, como de praxe, dos sonhos. Parecia um camarim, um pouco estreito, porém extenso. As paredes eram brancas e tinham luzes dos dois lados. Ao fundo, uma cadeira com uma mulher sentada de costas, ela não me esperava, nem nada disso, ou pelo menos era o que eu pensava, né? Duas ou três pessoas a cercavam, havia uma conversa entre elas, uma espécie de preparação para alguma coisa. Foi daí que veio, inclusive, a ideia de camarim à cabeça.

Até que chegou o momento que eu esperava e não esperava ao mesmo tempo. A cadeira se virou, o cabelo volumoso e a roupa branca não me fizeram demorar no reconhecimento. Disso eu lembro bem, perguntei a mim mesmo em silêncio: “Clara Nunes? Não, será? Que aleatório. É ela, sim!”. Suas acompanhantes se afastaram um pouco e eu me aproximei, abri um sorriso, que logo foi correspondido. Tivemos uma conversa rápida, negócio de dois minutos, ela parecia ter algo para me contar naquela noite. O papo fluiu e, como disse, não se estendeu. Inconscientemente, já estava ansioso para compartilhar aquela cena com alguém, minha mãe portelense e os melhores amigos. Acordei com o despertador, que parecia estar programado para aquele segundo. Arregalei os olhos, tentei fazer download da conversa e… nada! N-a-d-a! Nada vinha. Bateu aquela agonia. Apenas lembrava da claridade, sem trocadilho, e que era algo prazeroso que acontecia.

Será que Clara tranquilizava um portafoguense que veio ao mundo 7 anos depois de sua despedida dizia que a Portela seria campeã sozinha do Carnaval depois de 47 anos em 2017? Eu não tenho dúvidas disso após estes sete parágrafos.

Clara, você pode chamar o Nilton Santos ou Garrincha para uma próxima conversa?
Será um prazer, ou melhor, nosso imenso prazer.

Clara Nunes e Nilton SantosClara Nunes e Nilton Santos: figuras memoráveis de qualquer portafoguense
(Fotos: Reprodução/Internet)