A gente tem acompanhado o noticiário do Botafogo, principalmente desde 2025, e tem ficado muito apreensivo. É muito difícil ver o que está sendo noticiado sem se preocupar com o futuro do clube. A gente veio de um processo de destruição que durou décadas, e a chegada da SAF foi como um farol.
Foi nesse contexto de busca por um caminho, através do modelo da SAF, que chegou John Textor. E é inegável que o clube melhorou em vários aspectos. A estrutura do Botafogo hoje é muito melhor, tanto do ponto de vista físico (CT, Nilton Santos, escritórios, etc.), quanto na parte administrativa. Setores que não existiam antes foram criados, outros que já existiam foram fortalecidos, e houve um reposicionamento da marca no mercado, atraindo parcerias com empresas globais, por exemplo. A gente viu o projeto Botafogo nascer de uma forma muito promissora.
E os primeiros passos foram, sem dúvida nenhuma, passos responsáveis. O clube progredia numa velocidade boa, mas longe de ser uma velocidade ultra, mega acelerada. Ficava bastante evidente que o projeto estava sendo conduzido com cuidado até ali, eu diria até o final de 2023. Com aquela derrocada na parte final do Brasileirão, me parece que o Textor olhou para o projeto e decidiu acelerar pra valer.
Quais as razões para acelerar tanto? Talvez por ter tido o ego ferido com aquela queda, talvez também por já projetar uma necessidade de fazer dinheiro numa escala muito grande e rápida (por conta dos empréstimos com a Ares, com a Iconic e com todas essas empresas que a gente tem ouvido falar nos últimos anos). O fato é que ele acelerou muito o processo. A alavancagem financeira foi enorme. E, com isso, a gente viu a montagem de um time absolutamente espetacular, que ganhou praticamente tudo o que era possível ganhar.
A gente foi muito feliz. Mas alguns problemas já aconteciam. Quando o Botafogo era alvo de notícias na grande mídia sobre atrasos (seja de parcelas de compra de jogadores, de premiações ou de pendências com empresários), isso sempre foi evidenciado e criticado por mim e por outros companheiros da mídia alvinegra. Mas também sempre houve um foco muito grande na parte positiva, o que julgo ser natural.
O nível de credibilidade que o Textor tinha, pelo cumprimento daquilo que prometia, era muito alto. Só que, infelizmente, de 2025 para cá, ele conseguiu acabar com qualquer credibilidade que tinha com a torcida do Botafogo. E eu diria que também com o mercado, de maneira geral.
Isso é muito triste, porque para além do dinheiro, a gente precisa de credibilidade. Algo que a gente perdeu ao longo de décadas, conforme eu falei no começo, e que vinha sendo resgatado. Esse resgate que fez tão bem para o clube e para a autoestima do torcedor, simplesmente não existe mais.
Hoje, para além da grana, a gente precisa começar a fazer coisas básicas, como prometer algo e cumprir. Prometer algo sem asterisco. Porque hoje as coisas são prometidas e as justificativas até aparecem, o plano de cumprimento da promessa até aparece, mas um ou dois dias depois a gente descobre que faltou falar sobre um detalhe (que quase sempre não é só um detalhe). Normalmente a parte que faltou ser abordada é algo que muda completamente o cenário, e quase sempre para pior.
Então, sim, é muito claro que solucionar o problema do Botafogo passa por injetar dinheiro novo no clube. Isso é inegável. Mas o Botafogo também precisa recuperar a credibilidade com o seu próprio torcedor e com o mundo do futebol. Isso precisa ser, se não o primeiro passo, um dos primeiros passos. Ser honesto, 100% honesto, com quem está do outro lado.
Se o Textor deseja que essa reconstrução não seja feita só por ele e sua equipe, ele precisa trazer o torcedor para o seu lado novamente. Mais uma vez, o torcedor do Botafogo vai ajudar a reerguer o clube. Mas, para isso, ele precisa acreditar em quem deseja estar ao lado dele nessa batalha.