Há uma diferença enorme entre sobreviver e viver. E o Botafogo parece ter passado boa parte dos últimos 30 anos sem conseguir distinguir uma coisa da outra.
Sob a gestão do clube social, o Alvinegro se acostumou à sobrevivência. Um décimo lugar aqui, uma luta contra o rebaixamento ali, três quedas para a Série B e os respectivos retornos. Elencos burocráticos, contratações sem ambição e a incômoda sensação de que terminar uma temporada sem grandes sobressaltos já era motivo de comemoração.
A régua foi baixando tanto que permanecer na primeira divisão passou a ser tratado como objetivo. O clube não conseguia olhar para frente porque estava sempre ocupado tentando evitar o próximo desastre.
Nos últimos anos, porém, a torcida experimentou outra maneira de enxergar o clube. Mesmo com erros, decisões questionáveis e problemas que ainda estão longe de ser resolvidos, passou a conviver com uma ambição que parecia esquecida. Aceitou riscos, abraçou projetos, cobrou protagonismo e voltou a acreditar que o Botafogo não nasceu para disputar apenas a própria sobrevivência. Queria títulos, grandes jogadores, noites históricas e um lugar entre os protagonistas do futebol brasileiro e sul-americano.
Fernando Pessoa escreveu que “Navegar é preciso; viver não é preciso”. A frase, além da beleza, oferece uma boa reflexão para o momento do Botafogo. Navegar exige precisão, mapas, cálculos e uma rota bem definida. Viver não. A vida não oferece garantias, exige coragem, decisões e disposição para enfrentar o imprevisto.
O Botafogo dos últimos anos, com todos os seus defeitos, ao menos voltou a entender isso. A grandeza nunca esteve na segurança de terminar uma temporada em décimo lugar. Ela está em ter coragem de buscar aquilo que parece distante, assumir riscos e não aceitar que o passado determine até onde se pode chegar.
Com o clube social novamente no comando, o Botafogo volta a flertar com o rebaixamento. Dentro de campo, a luta é pela permanência. Fora dele, o cenário é de desorganização, incertezas e um extracampo que parece incapaz de oferecer a estabilidade necessária para qualquer projeto esportivo.
É nesse contexto que a torcida deposita suas expectativas na entrada da GDA Luma. Mais do que uma mudança de controle ou a chegada de novos investidores, espera-se uma transformação na maneira de administrar o Botafogo. Uma gestão profissional, conduzida por executivos capacitados, com experiência, autonomia, metas claras e decisões orientadas por critérios técnicos. O futebol precisa deixar de ser refém de interesses políticos, disputas internas e improvisações administrativas.
Qualquer tentativa de preservar o clube social como participante das decisões, ainda que sob o discurso de colaboração, representará um retrocesso. A torcida não espera uma gestão compartilhada entre passado e futuro. Espera mais uma ruptura com práticas que mantiveram o Botafogo por décadas limitado à própria sobrevivência.
O Botafogo não pode passar mais três décadas comemorando a permanência na primeira divisão como se fosse uma conquista. A torcida já experimentou algo diferente, voltou a disputar títulos, a ser respeitada e a ocupar espaços que historicamente lhe pertencem. Quem passou décadas sobrevivendo pode até se acostumar à mediocridade, mas quem descobriu o prazer de viver dificilmente aceitará voltar a apenas existir.
Sobreviver é preciso. Mas o Botafogo merece viver.