Se existisse um prêmio para a cobertura mais caótica dos últimos meses, a novela envolvendo Danilo, Botafogo e Palmeiras venceria por unanimidade. O noticiário virou um verdadeiro festival de barrigadas, especulações e certezas que evaporavam em questão de horas. Nem o saudoso Cine Trash, da Band, conseguiu reunir tantos roteiros ruins em tão pouco tempo. Foi uma coleção de chutes errados maior do que a do Endrick na Copa do Mundo. Calma, Endrick, é brincadeira.
Tudo começou quando Danilo pediu para não enfrentar o Corinthians, ainda em maio, para evitar completar o décimo terceiro jogo no Brasileirão. A decisão aconteceu justamente no momento em que o Botafogo atravessava uma enorme turbulência, logo após a eliminação na Copa do Brasil, obrigando o clube a recorrer ainda mais aos garotos da base. Ao mesmo tempo, reacendeu o velho sonho de parte da torcida palmeirense do famoso “o bom filho à casa torna”. A partir dali, a novela ganhou vida própria. O problema é que, no final, quem mais saiu desgastado foi justamente o protagonista.
Vale lembrar de onde Danilo veio. Até o meio do ano passado, estava no Nottingham Forest sem espaço, voltando de uma grave lesão e tentando reencontrar o melhor futebol. O Palmeiras teve a oportunidade de leva-lo de volta e preferiu investir em Andreas Pereira. Quem abriu as portas foi o Botafogo. O clube teve paciência durante meses enquanto o volante recuperava a condição física. Foi vestindo a camisa alvinegra que voltou ao alto nível, virou titular absoluto, conquistou o primeiro jogocomo titular da Seleção Brasileira e garantiu presença na Copa do Mundo. Não foi por acaso.
Só que o futebol mudou. Hoje os departamentos de scoutnão analisam apenas passe, desarme ou capacidade técnica. O comportamento pesa cada vez mais. Como será visto um jogador que se recusa a entrar em campo? Que passou abril e maio evitando divididas como se estivesse gravando comercial de perfume? Ou que publica indiretas nas redes sociais dando a entender que fez um favor ao clube por atuar alguns minutos? Empresários ajudam, claro. Mas Danilo nunca precisou desse tipo de expediente para provar seu talento. O problema é que essas atitudes acabam queimando apenas uma pessoa: ele mesmo.
Enquanto isso, parte da imprensa paulista resolveu transformar a cobertura em entretenimento involuntário. Foram tantas informações desencontradas que, em alguns momentos, parecia que ninguém mais lembrava o significado da palavra apuração. E antes que alguém ache que isso é uma crítica a uma torcida específica, vale deixar claro: caçadores de cliques existem em todas as torcidas.
O curioso é que uma negociação comum entre clubes virou praticamente uma guerra de narrativas. O Palmeiras tentou aproveitar o momento em que o Botafogo estava em caos administrativo e demonstrava disposição para negociar o jogador, mas a história ganhou contornos emocionais. Para a torcida alvinegra, depois de tantas vendas para clubes nacionais, a questão deixou de ser financeira e passou a ser simbólica. Resultado: não havia espaço para desconto.
O Palmeiras passou semanas negociando como aquele amigo no bloco de carnaval tentando comprar latão.
“Três por dez?”
“Não.”
“E no dinheiro?”
“Continua não.”
“Três por doze e fechamos?”
No fim das contas, cada um saiu da novela com uma versão confortável para contar. O Palmeiras pode dizer que tentou até onde considerava possível. O Botafogo mostrou que não venderia apenas porque havia pressão externa e na fase “AssociaSAF” mostrou a imagem de um clube que sabe dizer “não.. Já Danilo… esse foi o único que realmente saiu menor dessa história.
Agora resta esperar pela proposta europeia prometida pelo seu estafe. Só existe um pequeno detalhe: os principais campeonatos do continente ainda vão demorar algumas semanas para começar. Até lá, a melhor vitrine continua sendo o campo. Talento nunca esteve em discussão. O futebol dele continua abrindo portas. Mas reputação também pesa, e essa não se recupera com postagem enigmática nas redes sociais.
Ainda há tempo de transformar essa novela e sair pela porta da frente. Para isso, basta fazer aquilo que o colocou na Seleção Brasileira: entrar em campo, jogar bola e deixar o futebol falar mais alto. A porta pela qual vai sair depende exclusivamente dele. E, sinceramente, Danilo, postagem enigmática não dá assistência nem faz desarme. Vai jogar bola. Porque o Tio Léo você não engana.