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No Botafogo: Ban is solved. Accountability is not

Leonardo Andrade

Por: Leonardo Andrade

- Atualizado em

No Botafogo: Ban is solved. Accountability is not

Na noite de ontem, finalmente recebemos a notícia de que o transfer ban foi resolvido. Foram quase 40 dias sob uma nuvem espessa, em que o Botafogo viveu mais de suposições do que de certezas, mergulhado numa disputa de bastidores que faria roteiristas de House of Cards ou Succession pedirem moderação no exagero. “Passaram do ponto”, diriam.

O pagamento ao Atlanta e o acordo anunciado por John Textor vieram embalados num tom de dever cumprido, uma continuação do famoso “ban is solved”. Não deveria. O sentimento mais adequado seria constrangimento. Não apenas pelo episódio em si, mas pelo contexto. Tudo isso aconteceu no mesmo dia em que o CEO da SAF deixou o cargo. Coincidências, no futebol e nos negócios, costumam ser apenas distrações narrativas.

Em inglês, há uma palavra difícil de traduzir de forma direta. Accountability. Em linhas gerais, significa assumir responsabilidade, prestar contas, explicar decisões e agir com transparência. E é exatamente isso que tem faltado, e continua faltando, ao Botafogo como um todo na relação com seu maior patrimônio, o torcedor.

Há cerca de sete meses, a crise societária da Eagle se agravou quando a DNCG impôs ao Lyon um regime de austeridade incompatível com o modelo de multiclubes e caixa único de John Textor, levando a Ares, principal credora da operação, a acionar garantias e intervir nas decisões da holding. Com o rebaixamento administrativo do clube francês, a Ares ampliou sua influência, ajudou a colocar Michele Kang no comando do Lyon e passou a conduzir um processo de reorganização que aponta para uma possível venda. Textor reagiu no Brasil, acionando a Justiça para preservar o controle do Botafogo e afastar a influência direta da Ares, o que resultou no fechamento da torneira do caixa único e na interrupção de recursos que provavelmente tinham origem no próprio clube, gerando asfixia financeira imediata.

O que se seguiu foi uma verdadeira guerra de narrativas. E todos, sem exceção, resolveram beber dessa fonte turva. Narrativas substituíram explicações. Versões ocuparam o lugar dos dados.

Um exemplo claro foi o número repetido à exaustão. “A SAF tem R$ 1,5 bilhão em dívidas”. É um número grande, impactante. Mas dívida sem contexto vira arma retórica. São R$ 1,5 bilhão em contas a pagar. Mas quanto há a receber? Qual é a receita recorrente do clube? Qual é o valor dos ativos? Os valores de Danilo, Santi Rodríguez, Montoro e outros estão nessa conta, mas eles também são patrimônio com valor de mercado relevante. Qual é, afinal, a fotografia real?

O que ficou claro foi o estrangulamento de curto prazo, escancarado pelo transfer ban. Mas se o cenário era tão crítico, por que em dezembro não houve uma venda estratégica de ativos para reequilibrar o caixa? Por que a corda foi esticada até arrebentar?

Enquanto isso, o clube social assistiu quase em silêncio. O debate público se resumiu a áudios “vazados” de Montenegro, aparições esporádicas de João Paulo em eventos e um completo apagão de André Silva. Nos bastidores, falava-se abertamente na possibilidade da queda de Textor com o fim da liminar, abrindo espaço para um modelo semelhante ao do Lyon. A Ares assume, o clube é organizado e vende. Mas em quanto tempo venderia? Qual o prazo que a Ares daria suportando a estrutura?

Vale lembrar que é a mesma Ares que ajudou a sufocar o Botafogo em retaliação ao Textor. A mesma Ares que, segundo diversas reportagens, nunca teve real interesse no clube. A mesma Ares e os demais sócios da Eagle que fecharam o caixa único, enquanto dinheiro do Botafogo ajudava a manter o clube francês respirando. E aqui, o mesmo Textor, que enviou o dinheiro para lá. Onde estava o conselho de administração? E onde esteve o conselho fiscal da SAF? Ares quer apenas receber o que lhe é devido, o que é legítimo, e aceitará qualquer solução que maximize esse retorno, ainda que, em tese, o destino do clube seja o último dos fatores considerados.

Mas a questão central permanece. Se, até poucos dias atrás, havia uma articulação evidente nos bastidores para pressionar e isolar John Textor, por que em 48 horas todo mundo guardou a viola no saco? Um acordo de Textor com a Ares, talvez a recompra de sua posição na Eagle com os novos sócios? Se algo nesse sentido ocorreu, a liminar perde completamente o sentido, já que ela existia como um seguro do poder de influência da Ares e, de forma indireta, como um plano B para o associativo. Sem a Ares, não há sequestrador a ser abraçado. Sem milho, não há pipoca. O problema é que, para a torcida, restou apenas receber o discurso conformado de que “não há o que fazer, ninguém quer o Botafogo”, sem qualquer explicação concreta.

E então chegamos ao ponto final. Empréstimo ou aporte? Ninguém sabe. Quais clausulas ativam essa opção? Falta informação, sempre negada ao torcedor. Thairo saiu, mas não como herói trágico de última hora. Foi ele quem apresentou números, assinou documentos, levou dados ao conselho. Sua digital está em tudo. No que deu certo e no que eventualmente pode revelar esqueletos no armário. Talvez tenha apenas escolhido o lado perdedor de uma batalha. Faz parte do jogo.

O problema é estrutural. A falta de transparência não é nova. Textor, além da crise financeira, vive hoje uma crise profunda de confiança. A sensação é simples. Se ele disser que vai pedir um Uber, eu pego o primeiro ônibus que passar, porque não tenho certeza de que o carro chega. E isso é gravíssimo.

Textor parece ter vencido essa batalha, mas conflitos desse porte raramente se encerram em um único capítulo. O clube social passou a atuar de forma mais ativa, cobrando explicações, com mais legitimidade, e isso tende a aumentar a pressão. O que não pode persistir é um Botafogo sustentado apenas por narrativas, vindas de todos os lados, lançadas ao vento na expectativa de que se propaguem pelo ar.

No fim das contas, o transfer ban foi pago. Mas a accountability segue em débito.

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