Existe uma palavra que eu tenho certeza que foi criada especialmente para proteger rival na mídia: “virtualmente”. É uma maravilha. O time está mais perto do Z4 do que do G4, mas basta ligar a televisão que aparece alguém dizendo que ele “virtualmente ainda briga pelo título”. Sempre imaginei que alguém, lá nos tempos de Elifoot, resolveu transformar a matemática em filosofia. “Se eu ganhar todas e todo mundo perder todas, ainda dá.” E nasceu o virtualmente.
Então resolvi adotar essa filosofia também. Porque, virtualmente, o Botafogo já está no G4 do Campeonato Brasileiro. E, desta vez, não é matemática freestyle de comentarista. É conta de padaria. Tem jogo atrasado contra o Grêmio no Nilton Santos e um clássico contra o Fluminense, também em casa. Se vencer os dois, o Glorioso entra no G4. Simples assim.
Outro dia ouvi um narrador dizer que “o Botafogo não está com essa bola toda”. Será? o Glorioso voltou da pausa fazendo sete pontos em nove possíveis. Finalmente temos um goleiro que passa segurança (aleluia, irmãos!), o time voltou a competir, voltou a pontuar e voltou a olhar para cima da tabela.
O mais engraçado é que parece que muita gente esqueceu o contexto. Estamos vivendo o segundo ano de uma crise societária que faria qualquer roteirista da HBO pedir aumento. Succession ficou parecendo novela das seis perto do que aconteceu em General Severiano. Teve guerra com Coreana, Textor, Eagle, Ares, transfer ban, direitos atrasados, disputa judicial, social voltando, dirigente brigando, bastidor vazando e personagem novo entrando na história praticamente toda semana.
E, no meio desse verdadeiro caos, o Botafogo continua ali. Competindo. Subindo. O primeiro turno obrigou o time a viajar mais do que influencer em “publi” de companhia aérea. Fizemos muito mais jogos fora do Rio do que diante da nossa torcida. Agora o cenário muda. Os confrontos contra todos os concorrentes diretos serão no Rio de Janeiro.
Como se não bastasse, a fábrica voltou a funcionar. Justino, Huguinho e Kauan Toledo mostraram personalidade no profissional, enquanto a molecada do sub-17, do sub-15 e do sub-13 segue atropelando praticamente todo mundo. Fazia muito tempo que eu não ficava tão animado olhando para a base do clube. O Lonier virou referência, o Nilton Santos está cada vez mais organizado para o restante da base e, pela primeira vez em muitos anos, a estrutura deixou de ser um problema real.Aliás, imagino o espanto de parte da turma do social quando coloca os pés nesses lugares. Deve bater aquele pensamento: “Então era isso que queriam dizer quando falavam em Botafogo grande?”
Isso significa que está tudo resolvido? Claro que não. Ainda existe recuperação judicial, fantasmas do passado rondando, ainda existe disputa societária, ainda existe muito trabalho pela frente. Mas também existe um detalhe que muita gente insiste em ignorar: mesmo atravessando uma das maiores crises institucionais da sua história, o Glorioso fez a melhor campanha geral da Sul-Americanae, no Brasileirão, está no cangote do G4.
Então, meu caro narrador… como “virtualmente” disse a grande Inês Brasil: “se isso é estar na pior…”
Sábado é dia do Niltão lotar.
Hora de ir pra cima!