Tite fará hoje sua estreia pelo Botafogo, pouco mais de um mês depois de o clube iniciar a busca por um novo treinador. E processo escancarou duas realidades que convivem no clube: a perspectiva da SAF, com ambições e possibilidades diferentes, e a do social, ainda cercada por referências de outros tempos.
Tite ainda é visto como um técnico de primeiro escalão no futebol brasileiro. Construiu uma trajetória vitoriosa no Corinthians, conquistou títulos importantes e comandou a Seleção Brasileira em duas Copas do Mundo. É verdade que seu pós-Copa ficou aquém das expectativas, com poucos trabalhos, períodos curtos e uma passagem pelo Cruzeiro que não durou sequer três meses. Mas também é verdade que, ao longo de duas décadas, demonstrou capacidade de estudar, se reinventar e adaptar suas ideias. O Tite do Sul dos anos 2000 não era o mesmo do Corinthians campeão, assim como o treinador que voltou da Seleção também trouxe novas experiências. O que esperamos é que chegue ao Botafogo com aquela vontade de provar que ainda é o brabo. “Estão dizendo que estou ultrapassado? Então vamos mostrar para esses caras!”.
Talvez essa expectativa tenha raízes na memória de quem acompanha o clube há bastante tempo. Recordo o início dos anos 2000, quando meu falecido pai repetia que o Botafogo deveria apostar em Vanderlei Luxemburgo, recém-saído da Seleção: “Se for esperto, vai nele. Vai aceitar um salário menor, porque vai querer mostrar que ainda é bom!”. O Botafogo não foi, nem sei se tinha condições de oferecer o básico. Quem podia oferecer o mínimo e apostou no “Profexô” acabou colhendo os frutos. Essa lembrança ajuda a explicar certa expectativa desse que vos escreve com a chegada de Tite. Durante muito tempo, fomos torcedores obrigados a reduzir as expectativas antes mesmo de começar uma negociação. E hoje, a chegada de Tite acende até entre os desconfiados a esperança pelo futebol, o que mais ouvi nesses últimos dias foi “Para ele aceitar, alguma coisa apresentaram de projeto. Alguma história bonita ele ouviu!”.
E durante esse último mês que os dois retrovisores ficaram mais evidentes. No do social, apareceram lembranças como Jair Ventura e nomes como Enderson Moreira, frequentemente mencionados pela torcida. No da SAF, o imaginário passava por Artur Jorge, caso ficasse livre, ou Luís Castro, dependendo de sua situação no mercado. A diferença está na perspectiva: de um lado, soluções que remetem a um passado conhecido; do outro, a possibilidade de buscar profissionais associados a projetos esportivos mais ambiciosos. Talvez seja apenas uma socialfobia minha, mas o Botafogo precisa olhar para frente, aprender com os últimos cinco anos, corrigir os erros e preservar o que funcionou.
Tite encontrará um Botafogo do século XXI, em reconstrução financeira e institucional, mas com uma estrutura muito diferente daquela que o clube oferecia no passado. Há centro de treinamento, estrutura de primeira, profissionais especializados e um elenco que não é exatamente uma Brastemp, mas possui boas peças para começar um trabalho. Não se espera que o treinador resolva sozinho os problemas ou transforme imediatamente o time em candidato a tudo. Espera-se que tenha condições de trabalhar, respaldo e um ambiente minimamente estável.
Na apresentação, Tite agradeceu ao presidente João Paulo, mencionou personagens ligados ao clube e citou Montenegro, mas não fez referência a Gabriel de Alba. A administração segue em sua eterna transição, do “não vamos tocar no futebol” ao “tem que esperar assinar”, enquanto a influência do social nos próximos anos parece cada vez mais visível. Na quarta-feira, a presença de figuras conhecidas nos camarotes do Nilton Santos rendeu aos maldosos o apelido ao local de “Vale dos Reis”, diante de tantas “múmias”. Uma tremenda maldade, evidentemente. Sabemos que a política do Botafogo jamais se interessaria por fotografias, camarotes ou pequenas oportunidades de protagonismo. Jamais.
Que Tite encontre no Botafogo o respaldo, o tempo e as condições que tantos treinadores não tiveram por aqui. O último técnico a completar dois anos de trabalho no clube foi Zagallo, lá na década de 60. Um retrovisor tão distante que, por si só, já revela o tamanho do desafio. Boa sorte, professor Adenor.