Em 15 de janeiro de 2023, o Botafogo fazia sua estreia no Campeonato Carioca diante do Audax. Nos bastidores, travava-se uma queda de braço com a FERJ. A ideia de John Textor era simples: levar o elenco principal para uma pré-temporada nos Estados Unidos e disputar as primeiras rodadas do estadual com uma equipe alternativa. Ficou decidido que o sub-20 entraria em campo nas rodadas iniciais, enquanto o profissional ganharia tempo para uma preparação minimamente decente no Lonier.
Na teoria, parecia razoável. Na prática, o Botafogo perdeu por 1 a 0 no Nilton Santos e ficou claro que o buraco era mais embaixo. O telefone de Luís Castro tocou, alguém do outro lado deve ter resumido o cenário em duas palavras, “deu ruim”, e todo o planejamento foi jogado no lixo. O time principal teve que assumir o Carioca às pressas, sem a pré-temporada prometida.
Cito esse episódio porque ele ajuda a entender o peso do que vimos ontem.
Arrumar uma base de futebol não é como trocar uma lâmpada queimada. É mais parecido com plantar um pé de laranja: você prepara a terra, rega, espera, cuida… e só lá na frente vem a colheita. No Botafogo, esse plantio foi negligenciado por décadas. Por mais de 50 anos. Qual foi o último craque, de verdade, formado nas nossas peneiras? Alemão? Olha o quanto precisamos voltar no tempo.
Um clube fundado por crianças, historicamente reconhecido como celeiro de talentos do futebol brasileiro, passou a viver um período tão árido que, ao olhar para certos jovens da base, o torcedor torcia mais para que estivessem estudando para o Enem do que sonhando com o profissional.
Pois bem. Ontem a base representou.
O sub-20 estreou no Campeonato Carioca com vitória, cumprindo exatamente o papel que deveria cumprir: segurar a bronca e permitir que o elenco principal tivesse tempo de preparação. Logo depois, na Copinha, o que restou do grupo após as saídas, somado a garotos do sub-17 e com apenas três jogadores no banco, aplicou uma sonora goleada por 4 a 1 sobre o Juventude. Futebol jogado, sem desculpas, sem medo.
Calma. Não estou dizendo que surgiu o novo Jairzinho ou que temos supercraques prontos para decidir finais. Isso só o tempo responde. Mas é impossível ignorar um fato simples: há jogadores de futebol na base do Botafogo. E isso, nos últimos 50 anos, foi exceção, não regra.
Nada disso acontece por acaso. Há trabalho. Mérito do Bellão, de um recrutamento nacional mais agressivo, à implantação da Botafogo Academy e ao sub-20 treinando no Lonier, usufruindo da mesma estrutura e dos mesmos recursos do time profissional. É um processo. Degrau por degrau.
O que mais anima é ouvir quem acompanha isso de perto dizer: “Esse sub-20 é muito bom… mas a próxima geração tá fazendo chover”. Isso não é empolgação vazia, é sinal claro de evolução contínua.
Repararam como o sub-20 chutou muito ao gol de fora da área ontem? Uma clara homenagem ao Marlon “Portaluppi”. Até nisso representaram.
Neste início de ano, a sensação é que os maiores problemas do Botafogo estão fora das quatro linhas: transfer ban, disputas societárias, rifa de jogadores, ruídos administrativos. Tudo isso precisa ser resolvido para ontem, porque organização fora de campo reflete diretamente no campo, e começa, sempre, pela base.
Se o Botafogo quiser manter as glórias de forma sustentável, o caminho não passa por atalhos. Passa exatamente por dias como o de ontem.