Em um encontro nos bastidores do Rio FutSummit 2026, o jornalista Daniel Braune colheu o que definiu como uma verdadeira “aula” de Paulo Cesar Vasconcellos, comentarista do Grupo Globo, sobre a atual conjuntura do Botafogo. O Glorioso vive uma crise no primeiro trimestre e ainda procura um substituto para Martín Anselmi, técnico demitido no último domingo (22/3).
No relato, Braune destaca dois “starts” compartilhados por PC: a importância do clube buscar treinadores como Luís Castro e Artur Jorge, que mergulharam na essência e nas tradições do clube para exercerem uma liderança, e a análise sobre a manutenção do sistema defensivo. Para o veterano, a linha formada por Vitinho, Bastos, Alexander Barboza e Alex Telles não “desaprendeu a jogar”, ressaltando que tais defensores, que já conquistaram a Libertadores e o Brasileirão em 2024, precisam apenas de confiança e respaldo para retomar o protagonismo pelo Alvinegro.
Veja o relato abaixo:
– Galera, ontem eu estava na Rio FutSummit. Em um determinado momento ali, eu vejo o Paulo Cesar Vasconcellos passando. PC é um cara que a gente já se esbarrou algumas vezes, já trocamos ideias algumas vezes. E aí, óbvio, né, quando passa um cara desse você cumprimenta. “E aí, PC, como é que tá, irmão?”. Ele já puxou, óbvio, a resenha sobre o Botafogo.
– E eu não tô aqui pra ficar puxando o saco dele não, cara, até porque eu acho chato quando ficam puxando o saco, então não é pra puxar o saco, mas é só pra falar como que a gente aprende com esses caras. Cara, assim, é muito maneiro você ouvir a voz de um cara que ele está nessa caminhada que a gente está fazendo há muito mais tempo, né? E a questão não é o tempo, a questão é o aprendizado, é a experiência que o cara carrega, né? É quantas vezes ele não viu já situações similares, dentro de equipes e é bom às vezes você sentar na cadeira ali e ouvir o que que aquele cara, aquela referência está falando.
– A gente começou a resenhar sobre o Botafogo, sobre toda a situação que está acontecendo e tudo mais. Falamos sobre treinador e aí ele falou duas coisas, que assim, eram situações ali simples que eu não tinha me ligado e que me geraram starts, pra até fazer comentários no meu canal. Eu falo: “caralho, irmão, é…”. É uma noção assim de situações que elas podem estar na cara, mas só aquele cara com uma sensibilidade muito grande para pegar.
Manutenção da defesa titular
– Por exemplo, sobre o sistema defensivo do Botafogo. Ele falou: “Cara, é um treinador que chegue e pegue os quatro jogadores da linha de defesa do Botafogo. O time inteiro se desmantelou, foi embora aquele quarteto, foi embora o Marlon que era o capitão, foi embora o John que era o goleiro, mas a linha de defesa do Botafogo é a mesma: Vitinho, Bastos, Barboza, Telles. Esses caras não desaprenderam a jogar bola, né?. Tudo bem que o Bastos tenha aquele asterisco dele ter tido uma lesão muito grave, o tempo vai passando, coisas vão acontecendo, mas cara, é juntar esses caras e falar: irmão, é com vocês, né? Vocês já chegaram ao topo do Brasil e da América, né? É com vocês”. E eu: “Caramba, cara!”.
Liderança de Luís Castro e Artur Jorge
– E aí depois sobre, por exemplo, a situação também da liderança, né? Ele falou de dois técnicos que foram para ele os dois que mais deram certo na era SAF: Luís Castro e Artur Jorge. E o que que eles tinham em comum? Algo que vai muito além só da tática, dos reforços, do sistema de jogo… Uma liderança que vai além da liderança da gestão de grupo, que foi a primeira coisa que eu pensei. Mas da liderança do clube e de ter nas mãos as informações que são importantes sobre o clube. Não é o time, é o clube que eles estão comandando.
– Luís Castro, uma das primeiras coisas que ele fez — eu tinha muitas controvérsias em relação ao Castro, era um crítico do trabalho em larga escala — mas uma das primeiras coisas que ele fez questão de fazer, já que ele tava virando ali um manager do Botafogo, era entender o que era o Botafogo na sua essência. A característica do clube, a cultura do clube, a cultura da torcida, as manias, as tradições… E ele pegou isso rápido, sabe? Uma das primeiras ações dele, além de ir em jogo de base e tudo mais, foi lá para Pau Grande, lá pra Magé, e visitar o túmulo do Garrincha, entender como é que surgiu o clube.
– O Artur Jorge a mesma coisa, cara. Ele fala assim: “Ah não, eles… Os caras tão enfrentando a gente mas, né, nós vamos enfrentar o Palmeiras ou o São Paulo, tudo mais, mas eles vão enfrentar o Botafogo também”. É identificar que eles também vão ter dificuldade com a nossa qualidade. Uma vez, por exemplo, aí eu me lembrei que perguntaram pro Artur Jorge sobre a questão da titularidade do gol, Gatito e John, né? E a primeira coisa que o Artur Jorge falou foi sobre a idolatria do Gatito, tantas temporadas que ele tinha no clube, sobre os pênaltis que já defendeu, a importância dele até em uma Libertadores anterior… O cara estudou o clube, sabe?
Importância de ‘mexer com o ambiente’
– Aí, o Anselmi… Voltou o Júnior Santos: “Ah, não conheço muito e tal…”. O cara tem que ter no sangue que tava voltando ali uma referência do clube. Cara, estamos precisando disso, um cara do tamanho da história dele dentro do Botafogo e é dessa maneira que às vezes você mexe o ambiente. Eu acho que caras como Anselmi, que é dessa escola meio Sampaoli, eles olham muito pra isso: é jogo, é sistema, é jogo, jogo, jogo, treino, treino, treino, e às vezes essa sensibilidade é o que talvez falte pra esses caras prosperarem na carreira.
– E aí, voltando ao tema central… São percepções que, assim, se ouvindo um cara da sensibilidade, da experiência do Paulo Cesar Vasconcellos, você dá um start. Por isso que eu falo que qualquer segundo, qualquer conversa, qualquer “e aí, tudo bem?” com um cara dessa experiência, com um cara dessa rodagem, com caras que são referências dentro da sua função, profissão, cara, vale muito mais que muita coisa.