Os feitos do Botafogo dentro de campo vêm chamando atenção de muita gente. Mais especificamente, 6,7 pontos de audiência no Ibope – algo em torno de 4 milhões de pessoas acompanhando a vitória por 2 a 1 sobre o Estudiantes, da Argentina, na estreia da fase de grupos da Libertadores da América.

Os números são tão expressivos que superaram até a audiência da histórica goleada do Barcelona por 6 a 1 sobre o PSG na Liga dos Campeões. Mais do que impressionar, o feito do Botafogo levanta um velho debate: as cotas de TV no futebol brasileiro e o abismo que, a médio/longo prazo, elas causarão entre nossos clubes.

Atendo o debate inicialmente apenas à cota fixa, a diferença nos valores é assustadora e, muitas vezes, inexplicável. E a defesa aqui não é apenas em prol do Botafogo, mas a favor de mudanças que deixem a divisão financeira mais justa e igualitária.

 

Cassio Zirpoli/DP

Cassio Zirpoli/DP
A divisão atual das cotas de TV do futebol brasileiro

 

Nesse ponto, é difícil não citar a divisão da Premier League como o formato mais perto do ideal. Por lá, divide-se os montantes em 3 etapas: base (50%), performance (25%) e audiência (25%). Ou seja, metade de toda a verba de cota de TV é dividida igualmente entre todos os clubes; o restante é dividido de acordo com a classificação final e número de partidas exibidas na televisão.

 

Como exemplo prático, vimos o Leicester surpreendendo e sendo campeão inglês – após 10 anos fora da elite do futebol britânico, eles chegaram à PL recebendo apenas 38 milhões de libras a menos que o até então campeão Manchester City. Já em 2014, o Cardiff, rebaixado na lanterninha, recebeu cerca de 65% do valor arrecadado pelo mesmo City.

 

Um modelo voltado à competitividade e à meritocracia. Algo bem distante do que vemos no Brasil, onde Flamengo e Corinthians, juntos, recebem cerca de 27% de toda a cota fixa de TV – isso, claro, sem falar de todas as outras formas de arrecadação, como o sistema pay per view, por exemplo.

 

Do ponto de vista da justiça e do resgate do futebol brasileiro, não há dúvidas que a melhor saída é importar o modelo inglês – ou algo bastante parecido. Na Série B, um novo formato será adotada já a partir desse ano. O mais difícil é convencer flamenguistas e corintianos a cederem e aceitarem reduzir seus valores em prol de uma equivalência maior no campeonato e a valorização da marca do nosso futebol como um todo.

 

O futuro já acena com uma nova divisão, já que alguns clubes já assinaram com o Esporte Interativo e receberão novos valores tão logo se encerrem seus contratos com a TV Globo. No entanto, com as negociações individuais, é difícil dizer se essa revolução será capaz de transformar o Brasileirão em algo mais justo financeiramente. A falta de coletividade é tão grande que os clubes não conseguem se organizar sequer para entrar em jogos como Football Manager e FIFA – que já começam a “sabotar” o público brasileiro por não conseguirem negociar.

 

Já passou da hora de os clubes sentarem, conversarem e chegarem a um denominador comum. Os times que mais lucram precisarão ceder um pouco para que possamos ter um campeonato mais equilibrado e homogêneo. Caso contrário, nosso futebol caminhará a passos largos para o monopólio de dois em detrimento a todos os outros.

Fonte: Blog do Pedro Chilingue - Preto no Branco - ESPN