O jornalista Rodrigo Capelo, especialista em assuntos relacionados a balanços e finanças dos clubes brasileiros, publicou nesta semana uma reportagem que destrincha minuciosamente a situação do Botafogo, e o cenário parece ser pior do que todos imaginam. Confira abaixo a íntegra da reportagem publicada aqui.

Na época em que ainda começava a sua administração no Botafogo, com três anos pela frente como presidente, Carlos Eduardo Pereira declarou em entrevista que o clube levaria oito anos para clarear a sua situação financeira. E então o seu mandato passou, com resultados positivos indicando, pouco a pouco, que talvez fosse possível chegar a 2023 com uma realidade no mínimo melhor. A dúvida, agora, depois do primeiro ano de Nelson Mufarrej em seu lugar, é quantas casas o Botafogo voltou para trás após sobreviver a 2018.

A recuperação financeira que vinha acontecendo desde a chegada dos atuais dirigentes – Mufarrej foi vice-presidente de Carlos Eduardo, e Carlos Eduardo hoje é vice de Muffarrej – foi interrompida no ano passado. Depois de um período de três anos em que receitas aumentavam e dívidas diminuíam, ainda que lentamente, ainda que muito distantes de uma relação saudável, bastou um ano de crise para fazer com que indicadores financeiros regredissem em alguns anos.

É superficial – e até injusto – escolher um momento específico para justificar toda uma virada, mas, com certa licença poética, o processo pelo qual passava o Botafogo começou a mudar no momento em que o time deixou escapar a Libertadores. Como disse o então técnico Jair Ventura, o time vinha de uma temporada que havia começado cedo, com um time limitado pela falta de dinheiro. As dificuldades eram grandes. Era natural que a equipe não chegasse pela segunda vez consecutiva à competição. Mas como fez falta a tal da vaga no G-8.

Quase todos os motivos que explicam a queda no faturamento estão ligados à não classificação para a Libertadores – e, claro, ao ânimo que a disputa da competição dá aos torcedores e ao mercado. Nos direitos de transmissão, linha na qual são computadas as cotas de participação, o clube deixou de arrecadar os R$ 13 milhões que tinha conseguido com a Libertadores no ano anterior. Por mais que a disputa da Copa Sul-Americana tenha colocado R$ 3 milhões que não tinham sido obtidos anteriormente, a diferença entre os números corresponde à perda.

Nas receitas diretamente ligadas à torcida, o Botafogo perdeu justamente aquilo que tinha sido um ponto alto da temporada retrasada. Se em 2017 a diretoria alvinegra pôde contar com um incremento relevante nas bilheterias, em 2018 essa receita desapareceu. A renda com bilheterias havia sido de R$ 12 milhões com a Libertadores, também não reposta pela Sul-Americana, cujos ingressos renderam R$ 1 milhão. A situação foi problemática suficiente para o então vice de comunicação alvinegro dizer que a torcida havia abandonado o clube.

E tem mais. O estádio Nilton Santos vinha representando uma vantagem competitiva ao clube – tanto no sentido esportivo, quanto no financeiro – na comparação direta com os demais cariocas. Sem a atratividade que a Libertadores proporcionava, o equipamento também caiu em termos de arrecadação. A receita que ele gera por meio de suas propriedades comerciais, estacionamentos e bares era de R$ 16 milhões e ficou em apenas R$ 8 milhões. As despesas do próprio estádio foram maiores do que isso, então ele se tornou deficitário dentro das contas alvinegras.

Conforme as receitas caíram, a diretoria do Botafogo bem que tentou cortar custos para não fechar o ano no vermelho. E de fato cortou. A folha salarial do futebol profissional baixou em R$ 5 milhões, gastos administrativos caíram ainda mais do que isso. Mas não dá para cortar demais – porque há contratos assinados que não podem ser rescindidos sem multa, porque economia demais pode comprometer o futebol, porque a torcida tem xingado e ameaçado elenco e diretoria…

A única solução a que todo clube de futebol nessas condições recorre é a venda de jogadores, e o Botafogo, diferente de um Fluminense, tem uma enorme dificuldade de fazer dinheiro com as categorias de base. Em 2018, a diretoria botafoguense fez a maior receita dos últimos quatro anos, com R$ 17 milhões arrecadados. E mesmo assim não passa nem perto da concorrência ou, mais importante, da necessidade de caixa.

Todo esse traçado ajuda a entender por que o Botafogo levou a virada, em 2018, em sua recuperação financeira. Para que a situação continuasse a melhorar e a direção de Mufarrej e Carlos Eduardo fizesse o quarto ano positivo, em sequência, precisaria ter muito mais receitas e alguma sobra depois de pagar todas as despesas. Justamente para que essa sobra fosse usada para pagar dívidas. Não aconteceu. E, quando começamos a falar de dívidas, o quadro fica ainda mais complicado.

A maior dificuldade ao administrar um clube como o Botafogo é que passivo precisa ser controlado. Existe algo chamado Ato Trabalhista, no qual estão concentradas dívidas com ex-jogadores e ex-funcionários, que funciona como uma fila de credores. Todo mês o clube precisa dedicar uma parte de suas receitas para quitar pendências com quem estiver à frente. Não é recomendável deixar de pagar, pois se o acordo for cancelado serão penhoradas e bloqueadas todas as receitas, em vez de apenas um percentual delas. Lógica parecida vale para a parte fiscal, que está parcelada via Profut, mas que não pode ser negligenciada.

Quando você precisa dedicar cerca de metade do dinheiro que entra mensalmente para honrar acordos trabalhistas e fiscais, e ainda está com as contas vermelhas na relação receitas-custos, sem conseguir vender jogador para resolver o curto prazo, restam poucas soluções.

O Botafogo vem sobrevivendo por meio de empréstimos. Em alguns casos, consegue descolar dinheiro com instituições financeiras como BMG e Banco Daycoval. O crédito só é aprovado porque o clube entrega aos bancos como garantia os seus contratos com a Globo, aqueles válidos pelo período de 2019 a 2024. Quando o crédito não é aprovado, entram no jogo botafoguenses ricos. O ex-presidente Carlos Augusto Montenegro emprestou R$ 11 milhões em 2018. Mas a quantidade de torcedores dispostos a arriscar seus patrimônios também é limitada.

Bem no início, quando fez a previsão sobre a quantidade de bons anos que levaria a recuperação, Carlos Eduardo Pereira também deu uma declaração forte sobre o que seria do clube se o processo desse errado. “Se fracassarmos nessa missão, arrisco dizer que o Botafogo entra num processo de apequenamento difícil de ser revertido”. Ele se referia ao retorno para a primeira divisão, é verdade. O time tinha que subir para sobreviver. Mas o alerta continua a fazer sentido. Na atual situação, a menos que alguma revolução aconteça – leia-se: alguém apareça com muito, muito dinheiro para aportar –, não demora muito até o clube parar na segunda divisão. E talvez não voltar mais.

Fonte: Globoesporte.com