Repetindo a história da semifinal, a decisão da Taça Guanabara é precedida muito menos pela expectativa em torno do jogo do que por dúvidas em torno de sua organização. A polêmica sobre a autorização pela Justiça da presença de duas torcidas no Engenhão tem como pano de fundo a dificuldade brasileira de lidar com a violência que ronda o futebol. Um tema tão urgente quanto assustador, capaz de tornar coadjuvantes os aspectos esportivos do jogo e comprometer sua promoção.

Nesta quinta, em audiência com clubes, Federação de Futebol do Rio de Janeiro (Ferj) e Polícia Militar, o juiz Guilherme Schilling, do Juizado Especial do Torcedor e dos Grandes Eventos, manteve a decisão de sua liminar que, no dia 17 de fevereiro, determinou que os clássicos cariocas tenham torcida única. O que, em tese, faz com que a final de domingo tenha apenas tricolores no estádio. Em sorteio na Ferj, o Fluminense foi apontado como mandante da partida.

No entanto, à noite, Flamengo e Fluminense apresentaram um recurso conjunto à segunda instância da Justiça. A Federação apresentou outro recurso. Os dois clubes prometem tomar uma posição conjunta caso o pedido de reconsideração não seja acatado. Não afastam, sequer, a remota hipótese de não entrarem em campo. Neste ponto, deixam ressabiada a Federação.

— Não jogar é parar o campeonato. Não há datas — disse o diretor de competições da entidade, Marcelo Viana.

Em sua decisão de ontem, Schilling disse entender que o próximo fim de semana no Rio ainda terá o Desfile das Campeãs, no Sambódromo, além de blocos pela cidade. Assim, em sua visão, permanecem os obstáculos à presença de efetivo policial suficiente para um jogo de duas torcidas, motivo que a polícia apontara, no último sábado, para tirar da cidade as semifinais da Taça Guanabara. Desta vez, no entanto, o quadro se apresentava diferente. Presente à audiência, o major Silvio Luiz, comandante do Grupamento Especial de Policiamento de Estádios (Gepe), informou que o Estado-Maior da PM dera aval ao jogo com duas torcidas.

Para obedecer ao Estatuto do Torcedor, os clubes têm até as 16h de hoje para iniciar a venda de ingressos para o Fla-Flu de domingo. Enquanto o recurso não for julgado, apenas os setores destinados à torcida do Fluminense estarão disponíveis. Se a decisão da Justiça for revista, será liberada a venda para a torcida do Flamengo. Caso contrário, setores que seriam destinados aos rubro-negros poderão ser vendidos aos tricolores. A esta altura, os clubes não têm real noção da quantidade de público que uma final com tamanha controvérsia conseguirá atrair.

Botafogo: pressão por torcida única

Não faltam focos de conflito. Na audiência de ontem, o Ministério Público, autor da ação civil pública que originou a liminar, defendeu a manutenção dos jogos com só uma torcida, no que teve a companhia do Botafogo. Em litígio com o Flamengo desde a contratação de Willian Arão pelo rubro-negro, o clube alvinegro quer evitar a presença da torcida do Flamengo em seu estádio. Ontem, argumentou que a morte de um torcedor do Botafogo nas imediações do Engenhão, antes do clássico entre os clubes, no dia 12 de fevereiro, não foi esclarecida e diz querer defender seu patrimônio.

— Um torcedor foi morto com um espeto, e a investigação não foi conclusiva. O Botafogo é a favor de torcida mista, mas não nestas condições. Há um pedido do Ministério Público — disse Nelson Mufarrej, vice-presidente do clube. O regulamento do Estadual indica o Engenhão como alternativa ao Maracanã.

Após o Fla-Flu, o Ministério Público pode propor a liberação de torcidas mistas desde que os clubes assinem um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). A proposta impõe multa de R$ 3 milhões ao clube cuja torcida causar lesão grave ou morte de torcedor. Além da proibição desta torcida de comparecer a três clássicos.

Fonte: O Globo Online