Aos 37 anos, Eduardo Barroca já mostra muita coragem, palavra mais repetida por ele na entrevista feita antes do polêmico jogo contra o Palmeiras. Mesmo em um Botafogo limitado tecnicamente, o treinador aplica um modelo de jogo ousado. O estilo estudioso e carismático forjado nas ruas da Zona Norte do Rio conquistou o elenco. O “Guardiola de Del Castilho” é um líder de exemplos simples, diferente do complexo modelo tático que já marca suas características.

O técnico defende seu modelo baseado na iniciativa e posse de bola e admite que uma das etapas principais é encorajar os jogadores.Seu time faz progressos, tem a segunda maior posse de bola do Brasileiro e é o terceiro que mais troca passes na competição.

Eduardo Barroca é sensação no Botafogo
Eduardo Barroca é sensação no Botafogo Foto: VITOR SILVA/BOTAFOGO

JOGO EXTRA: Em que momento você se convenceu de que essa é a melhor maneira de jogar?

Primeiro, pela forma como o futebol me acessou na juventude. O que me fez gostar de futebol. E na minha caminhada tive oportunidade de trabalhar com treinadores diferentes. Me identifiquei com muita gente que trabalhei e também descobri muita coisa que eu não gostaria de fazer.

Que times e jogadores o influenciaram quando jovem?

Na década de 90, o futebol do Rio tinha os jogadores-matriz de cada time: Túlio no Botafogo, Renato no Fluminense, Romário no Flamengo e Edmundo no Vasco. Mexia comigo como jovem torcedor ver aquela coisa de prometer durante a semana, criava uma realidade boa. Isso era muito vivo naquela época, mas depois acabou se perdendo um pouco.

Como firmou a ideia de que o jogo se constrói a partir da bola?

Imagina que alguém te fala assim: vocês dois vão sair na porrada agora, num quadrado, durante 10 minutos. Durante sete minutos, um de vocês vai poder ter um porrete na mão. E durante os outros três, o outro terá o porrete. Para mim, a bola é o porrete. Não quer dizer que eu vou vencer, posso ter o porrete e você pode me acertar um soco no queixo. Mas se alguém me perguntar se prefiro ficar mais tempo com o porrete, eu prefiro. A lógica para mim é essa. A bola é uma forma de me aproximar de vencer e afastar o adversário de vencer.

'Vem tranquilo!': para Barroca, a bola é um 'porrete' na briga
‘Vem tranquilo!’: para Barroca, a bola é um ‘porrete’ na briga Foto: VITOR SILVA/SSPRESS/BOTAFOGO

São ideias diferentes de seus antecessores…

Sempre pensei muita coisa sobre o futebol profissional sem estar nele. O que tive na cabeça é que quando eu tivesse a oportunidade, iria combater o que eu sempre critiquei. Preciso fazer as coisas do jeito que eu acredito. Entendo que um líder precisa encorajar as pessoas a conseguir resultados, e a forma de jogar é uma grande ferramenta para encorajar as pessoas.

Há jogadores mais difíceis de serem convencidos?

O jogador que está num grande da Série A é o topo da pirâmide. Eu não posso chegar num clube como o Botafogo e passar uma mensagem para os jogadores de que eles não são capazes, que os adversários são melhores que eles. Isso não entra na minha cabeça. Não gostaria de que passassem isso para mim, que chegassem dizendo que a meta é não cair. Temos que encorajar as pessoas a darem o melhor delas. Tem jogadores que num primeiro momento, enquanto não veem o benefício, tendem a voltar para o conforto. A partir do momento que veem, mudam de ideia.

O jogador sabe que está no topo da pirâmide, que tem tais capacidades?

Difícil responder. Mas acho que essa dúvida é resultado do sistema. É uma zona de conforto. O que é saber sofrer? É estar à revelia do seu goleiro estar num dia bom, dar sorte e ganhar? Já aconteceu comigo do time jogar mal, o adversário ser melhor e me perguntarem se a gente soube sofrer. P… nenhuma! O jogo não foi nada do que eu pensei. Não sou convencido dessa lógica de saber sofrer.

Você é convencido de que o jogador é mais feliz com a bola?

Sou convencido de que o jogador é mais feliz fazendo um futebol de coragem.

Eduardo Barroca repete à exaustão a palavra
Eduardo Barroca repete à exaustão a palavra “coragem” Foto: VITOR SILVA/BOTAFOGO

Como foi o reencontro com os jogadores da base?

Tivemos uma relação profunda, ganhamos muito, perdemos muito. Ficou um carinho. Mas a competição deles agora é outra. O jogador tem três competições. Uma, é dele com ele mesmo, todo dia. Por exemplo, o Fernando e o Marcinho que competem diretamente. Eles precisam saber no que são bons, no que podem melhorar. A segunda competição é entre os jogadores da posição, saber por que sou a primeira, segunda, terceira opção. O Kanu precisa saber por que joga o Carli e não ele. E a terceira é o jogo, ser superior ao adversário, fazer o time ganhar mais quando ele entra. Por exemplo, dirigi o Botafogo em seis jogos. Destes, Diego Souza ficou 90 minutos em campo em quatro e o time ganhou todos. No que ele não ficou até o fim, contra o Goiás, saiu quando estava 0 a 0. Isso me dá a entender que ele é super decisivo. Há muitas outras coisas, mas é um parâmetro.

Imaginava-se que Marcinho cresceria com sua chegada…

Marcinho tem uma cultura esportiva e familiar muito acima da média. O entendimento dele de futebol, do momento que vive e das coisas da vida é muito alto. Ele pode fazer outras funções, porque entende muito bem este jogo. Mas confio que em breve vai ter o espaço dele de novo. Ele e Fernando são diferentes: Marcinho com cruzamento, chute de fora, parte ofensiva muito forte; e Fernando é defensivamente muito mais consistente, corajoso, de bola aérea muito boa. Cada um precisa se desenvolver no que o outro tem de melhor.

Gustavo, Cícero e João Paulo não são parecidos? O meio não perde agressividade?

Não me incomoda eles serem parecidos, desde que a linha de frente tenha outra característica, de agressividade. Em dois jogos que não vencemos, contra Goiás e São Paulo, optamos por quatro meio-campistas para ter a bola por mais tempo. E tivemos. O que faltou, que é o ponto para o nosso crescimento, é a leitura do momento de controlar e de agredir. Em momentos em que movemos a bola e encontramos um jogador sem pressão, com espaço, optamos por continuar controlando a bola, quando deveríamos agredir. Neste primeiro momento, bati muito na tecla do controle da bola. Talvez por responsabilidade minha não tenha alertado que era preciso entender a hora de agredir. Mas ter três caras com caraterística de controle ajuda a compactar o time, chegar na frente com mais gente, ter mais controle e deixar o jogo com menos transição.

Mas por vezes não falta presença de área ao time?

Nestes dois jogos faltou. Mas não é protecionismo aos jogadores. Eu não tinha cobrado isso deles. Estava batendo na tecla da pressão no adversário e do controle. O jogo com o Goiás me deu muito material. A gente conseguia sair tocando muito bem de trás. Mas mostrei a eles que, por vezes, trocamos 20 ou 21 passes e a bola ainda estava com o nosso zagueiro. Muitas vezes chegamos com a bola em zonas que permitiam progredir, mas optamos por continuar controlando. Precisamos controlar com a lógica de progredir.

É a questão do trabalho ainda recente, não?

É que tentei virar a chave deles, que tinham ainda na cabeça um jogo de transição e velocidade. Queria que a bola ficasse mais com a gente.

Alex Santana é um jogador de mais vitalidade, condução de bola. Você o vê adaptável a este jogo mais de controle?

Ele tem me surpreendido. No início, achei que pudesse ter dificuldade. Mas ele tem condução, pisada na área, chute de fora. Agrega coisas importantes que não posso tirar dele.

Seu modelo de jogo exige que a linha defensiva avance com o time. É natural pensar no Carli…

O que veio na sua cabeça veio na minha também…

Pode ser um rótulo, mas ele não é tão veloz para aderir à ideia de jogar adiantado…

Eu pensei nisso. Quando eu fechei eu falei: f… como vou fazer? E quebrei a cara. Pensei que ele não tinha intensidade de treino. E ele treina muito, dentro das características dele. A questão da velocidade é um erro gravíssimo. Velocidade não é só sair do ponto A para o B: é antecipação, comunicação, capacidade de confrontar na origem da jogada e desequilibrar o rival. E nisso ele é gênio, compensa com outros tipos de velocidade. Tem entendimento de jogo, liderança, coragem. Achei que pudesse relutar, mas está ajudando muito. Tem conduzido a bola passando do meio campo…

Barroca é observado por Carli em treino do Botafogo
Barroca é observado por Carli em treino do Botafogo Foto: VITOR SILVA/BOTAFOGO

Mas concorda que ainda falta compactação ao time?

Concordo, mas acho que só vou conseguir ajustar na parada para a Copa América. A capacidade de permanecer na pressão ao adversário também precisa melhorar. Contra o Fluminense, fomos pressionar e tomamos uma rodinha. Aí optamos por voltar para nossa segurança e marcar atrás. Era para continuar pressionando, porque o Fluminense estava a 90 metros do nosso gol e a 15 do gol dele. Isso só vem com tempo, repetição. Vai ter o dia que a gente vai tomar a roda e levar o gol e o dia em que vai recuperar a bola e fazer o gol.

Para fazer tudo isso, resultados são necessários…

No meu caso, mais ainda. Sei qual é a cultura, sou jovem, menos conhecido e num time da grandeza do Botafogo. Por isso meu foco é ter os melhores resultados até a nona rodada. O trabalho efetivamente virá na parada da Copa América. É quando você repete questões três dias seguidos, leva o jogador à exaustão, porque tem 20 dias sem se preocupar com jogos. Com jogos seguidos, a aquisição do jogador é quase zero.

Você repete à exaustão a palavra coragem. Além de uma forma de ver futebol, isto remete a alguma experiência de vida?

Eu entrei na universidade sabendo que queria ser treinador. No ensino médio já sabia o que queria. É raro isso. No primeiro período virei técnico do time da universidade. E sou privilegiado de, tão jovem, ter tido experiências distintas como preparador físico, auxiliar, em clube empresa… E tive referências distintas.

'Estilo Barroca' é mantido contra todos os adversários
‘Estilo Barroca’ é mantido contra todos os adversários Foto: VITOR SILVA/BOTAFOGO

E desde jovem você via futebol buscando analisar o jogo?

Analisava tudo, mas me interessava o lado humano do treinador: as escolhas, as dificuldades, como liderar, como escolher, como desenvolver jovens, como conduzir quem tem menos oportunidades de jogar, como ser coerente, como se relacionar com comissão técnica, direção… E, claro, a parte tática.

Que times você gosta de ver jogar?

Gosto de ver quem joga futebol bem jogado: gosto do Grêmio, Santos, Fluminense… Gosto de ver times que priorizam o jogador bom. Gosto de ver os grandes da Europa…

E o que gosta que seus times façam?

Gosto de tentar chegar no campo de ataque com os meus dez jogadores. É o primeiro ponto para recuperar a bola o mais rapidamente possível. Cobro muito chegar na área com o máximo de jogadores e com lógica. Atacar espaço pequeno e defender espaço grande é muito mais difícil do que o contrário. E entrar em times que defendem bem precisa de uma lógica coletiva, não pode estar refém de individualidades: preenchimento de área, atacar a última linha para afastá-la e chutar de fora, mover o rival para um lado e buscar o outro. Mas isso precisa de muita repetição.

Fonte: Extra Online