Aos 37 anos, Jair Ventura surpreendeu ao levar o Botafogo da zona de rebaixamento à classificação para a Copa Libertadores, em seu primeiro desafio como treinador profissional. Filho de Jairzinho, craque da seleção de 1970, ele não faz questão não faz questão de desenvolver o tema quando o assunto é o seu pai, também não leva a conversa adiante quando a palavra “sonho” ou “sorte” são ditas.

Prefere falar de trabalho, como fez na quinta-feira em entrevista ao GLOBO na sede do Botafogo, em General Severiano, uma hora após o anúncio da contratação do meia argentino Walter Montillo.

Em 2013, você era da comissão que classificou o Botafogo para a Libertadores, mas foi demitido antes de 2014. Como foi acompanhar de fora?

Foi o pior ano do Botafogo, uma péssima colocação no Carioca, rebaixado no Brasileiro. E eu, triste. Não é só o treinador, tem também o analista, o preparador físico. Eu fiquei triste duas vezes. Era o clube no qual estava há oito anos e saí de uma maneira que não esperada. É normal quando você perde três jogos, mas não quando classifica um time depois de 18 anos para a Libertadores. Ficou claro o porquê da demissão…

Foi durante a presidência de Maurício Assumpção. Qual foi o motivo?

Até hoje não sei. Ficou “claro”, pelo ano de 2014, com todas as mudanças no futebol, e aconteceu o que aconteceu. Estava tudo certo e, de repente, ficou tudo errado. Será que, se eu e meus amigos demitidos estivéssemos, as coisas não iam acontecer? Não sei, mas a gente ia fazer o máximo para ajudar.

Em 2014, o Botafogo usou reservas no Campeonato Carioca e ficou em 9º, na pior classificação do clube na história. A competição vai ajudar ou atrapalhar em 2017?

Atrapalha. É jogo atrás de jogo, sofre com lesões, temos que ver a parte física. Não adianta eu te falar agora como a gente vai jogar. O Botafogo vai querer ganhar todas as competições, mas, de repente, vai ter que poupar um ou outro jogador. Tem que ter equilíbrio para não perder jogadores por lesão no momento mais importante de cada competição.

Como é trabalhar com Antônio Lopes, gerente de futebol, mas que conhece o dia a dia do treinador?

É gostoso e gratificante. É um cara que eu acompanhava desde que era garoto. É campeão, já montou bons times. Trocamos bastante ideia. Às vezes, ele me fala: “Copiou o meu treino”. É gostoso ver o reconhecimento, mesmo com diferença de gerações. Lopes é competitivo como eu. A mescla de juventude e experiência ajuda o Botafogo.

Ele ainda é o delegado, linha dura?

Tem hora que o líder tem que ter postura. O segredo é saber o momento de ser duro. Eu sou mais da linha de conhecimento, não de impôr. Ganho os atletas pela lealdade, transparência, falando o que penso, não o que eles querem escutar. Não adianta escalar um jogador por ter um salário mais alto. Vou perder meu grupo, com todo mundo vendo que ele não está bem. Se o (jogador) da base estiver melhor, vai jogar, como o Pachu, que furou a fila de todo mundo e estreou no jogo mais importante do ano (contra Grêmio, na última rodada).

O presidente Carlos Eduardo Pereira conduziu a negociação de Montillo. Foi um desejo dele ou um pedido seu e do Lopes?

Foi unânime, quando chegou a possibilidade. Não tivemos nem dúvida. A conversa passa por todos, treinador, gerente, vice de futebol, mas não teve discussão.

Já falou com o Montillo?

Ainda não, mas, ontem (quarta), com o Vinicius (Bispo, analista de desempenho), estávamos levantando informações sobre ele, como está jogando. A nossa cabeça não para, já estou arrumando um lugar para ele no time com as variações que podemos fazer. Penso muito no sistema, mas como vamos jogar vai depender do que vamos ter. Não posso ficar travado no 4-3-3 ou no 4-2-3-1. Quando formar o elenco, aí vai ter cara, esquema e modelo de jogo.

Em 2016, você não teve dois organizadores simultaneamente. Teve só o Camilo. O Montillo parece ser um jogador que chega mais na área e chuta mais. Era isso o que você precisava?

É isso mesmo, talvez com ele jogando mais recuado ou chegando mais. Não posso dar minha arma, mas vamos ter variações. Temos três analistas que trabalham bastante, mesmo nas férias. Estávamos observando o Montillo, como usá-lo melhor. Já tempos todos os números da China, quantos jogos fez, quantos ficou de fora, como foram os gols, o mapa de calor, mostrando onde está jogando.

Está mais no meio ou no ataque?

O mapa é bem bacana. Está bem dividido, pisando na área também, podendo aparecer na função de atacante ou jogar no meio-campo, nas três posições.
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Em 2016, você fez mudanças, mas manteve a estrutura do time de Ricardo Gomes. Era o seu estilo de jogo ou era uma necessidade?

Uso o que tenho de melhor. Se tenho três volantes, vou jogar com três volantes. Entro com três atacantes, mas, quando perde, você diz: “Ele foi mudar”. Vocês (jornalistas) são assim: constroem a história de trás para frente. Mas eu não joguei só com três volantes. Jogamos no 4-2-3-1 quando adiantei o Diogo (Barbosa) com Camilo e Pimpão. Jogamos com duas linhas de quatro, com dois meias, abrindo o Leandrinho e até com o Pimpão jogando de meia. Jogamos de 4-3-3, em vários sistemas, mas alguns têm dificuldade de identificar o que é um sistema.

O Bruno (Silva) na temporada fez mais gols (5) do que a maioria dos meus atacantes. Como pode ser um sistema defensivo? Esses caras têm muita liberdade. O meu primeiro volante é o Rodrigo Lindoso, que era camisa 10 no Madureira, o Montillo deles, chega, bate falta, aparece na área. Botei como meu maior marcador. O Airton é conhecido pelas pancadas, mas é muito habilidoso, não é só de marcação.

Então, você não concorda que manteve a estrutura do Ricardo Gomes.

Mudou bastante. Jogamos também no sistema de losango, mas variamos demais. Eu gosto do 4-2-3-1. Foi o que usei na base. Eu tinha dois atacantes de velocidade, o Octavio e o Vitinho. Neste ano, só tinha o Neilton. Só consegui usar quando tive o Diogo e adiantei o Pimpão.

Com Camilo e Montillo, também não vai conseguir…

Não vou. Eles não têm essa característica. De repente, numa necessidade se precisar arriscar, mas eles vão ter dificuldade de acompanhar o lateral. É característica, Pimpão e Diogo fazem. O Camilo faz, mas não é muito a dele.

O Botafogo está preparado para a Libertadores?

Nós jogamos e vencemos de campeões da Libertadores, como Atlético-MG, Inter, Grêmio e São Paulo. Contra os grandes brasileiros, que são os maiores campeões da Libertadores, nós fizemos bons jogos e vencemos. Então, não tem que ficar com medo de outros adversários. É difícil, lógico que jogar fora tem clima diferente, mas é tão difícil quanto jogar contra a Chapecoense em Chapecó.

Fonte: O Globo Online