A SPE (Sociedade com Propósito Específico) é a única solução para salvar o Botafogo. O sócio da Ernst & Young, Alexandre Rangel, fez o alerta no podcast “Dinheiro em Jogo” publicado pelo jornalista Rodrigo Capelo, no site “Globoesporte.com”. E mais: o projeto, encomendado pelos irmãos Moreira Salles, tem que sair de 2019 para 2020. Se for adiado ou o clube for rebaixado, o risco do clube é enorme.

O podcast explicou que a dívida do Botafogo é superior a R$ 700 milhões. Da receita, a cada R$ 10 que entram, R$ 6 pagam dívidas. E há novos gastos em 2019, ainda não computados em balanço. Os valores teriam que ser renegociados, tentando deságio, pagamento à vista para diminuí-los.

O “Botafogo S.A”, nome fictício, seria uma empresa que controlaria o futebol do Botafogo, separando do social e dos esportes olímpicos. A empresa teria aporte milionário de investidores, que já começaram a procurar o projeto.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista com Alexandre Rangel:

– O ESTUDO

“Houve interesse dos dois lados, potenciais investidores viram que faz sentido, conselho diretor viu como adequado ao que pensavam como futuro do clube. É um processo complexo, com muitos detalhes envolvidos, uma mudança de conceito, mas nada revolucionário, é muito comum na Europa. Aqui no Brasil em clubes de tradição e expressão maior é a primeira vez. Tem Cuiabá, Londrina, Botafogo-SP, Bragantino, mas nos clubes tradicionais e históricos o Botafogo seria o primeiro.”

– FORMATO

“O Botafogo é um clube social, multiesportivo. No Grêmio e no Athletico Paranaense isso não já acontece mais. Existiu o interesse de manter a marca Botafogo como multiesportiva e com operação social. Cria necessidades de modelos diferentes. As dívidas são extremamente elevadas, talvez a maior do Brasil hoje, com grande agravante, é o que tem menor geração de caixa recorrente. Se pensar receitas de TV, bilheteria, sócio-torcedor e marketing, é o que menos gera receita. Há outros clubes com relações ruins de receita e dívida, mas o total da dívida é bem mais baixo. É muito difícil gerar o caixa do Botafogo a longo prazo, precisa de aporte de dinheiro muito grande.”

– SÓ PROFISSIONALIZAR NÃO RESOLVE MAIS

“Estudamos se era possível recuperar só com profissionalização, boa gestão, governança, bons processos, melhorias no marketing, alavancar sócio-torcedor, receitas e estádio, mas com esses números, que só se agravam, a conclusão clara para todos é que não é possível. Precisa de algo mais que gestão para salvar o Botafogo. É combinação dupla, como tratamento de câncer, ministrar vários drogas e radioterapia. Fazer choque de gestão com capitalização adicional, precisa injetar quantidade de dinheiro significativo de R$ 300 milhões a R$ 400 milhões, tem que calibrar ainda, ver o resultado do Botafogo em 2019 e saber o quanto a pagar a partir do ano que vem se o projeto evoluir.”

– CONTRAPARTIDAS E PRAZO

“Quais contrapartidas para investidores? Ter controle de gestão, usar no saneamento, práticas de boa governança. A forma de se fazer isso classicamente não é separar totalmente, é criar nova empresa, alugar o futebol por 30 anos. Não é uma transferência em definitivo. Os empresários vão ter essa contrapartida. Vão colocar 300 a 400 milhões de reais para pagar dívidas a curtíssimo prazo, até 5 anos, eliminar a maior parte de penhoras. Libera questão trabalhista, cível, dívida com jogadores, Profut. Resolve tudo em uma tacada. A partir do sexto ano vão sobrar dívidas de longo prazo, com CT, com botafoguenses que emprestaram, pessoas físicas e Profut que vai continuar. SPE vai pagar dívidas, investir no CT com equipamento e tecnologia e o acordo pode ser renovado ou encerrado em 30 anos. Desde que clube social, olímpicos e remo se mantenham regrados, se arrumarem e forem comedido, daqui a 30 anos vai ser clube saneado e sem dívidas. Aí podem se juntar ou permanecer separados. É um modelo que funciona para o Botafogo, talvez para outros clubes existam soluções melhores. O principal desse estudo é ver que não havia outro jeito. Não tem alternativa. O momento de fazer é agora, situação se agravando de tal forma que se for fazer em 2020 ou 21 não fizesse nem sentido econômico para investidores, mesmo os que têm apego ao clube. É uma janela de oportunidade se fecha muito rápido. Se não acontecer agora, o futuro é muito negro.

– EVITAR CAIR

“Não há condicionante por estar na Série A ou B, mas se cair a conta prevê R$ 70 milhões a menos de receita, tem que montar time para subir rapidamente. Essa capitalização vai aumentar para R$ 400, 450 milhões. Quanto mais dinheiro, mais difícil levantar o projeto. Essa é a importância de não cair e não se endividar mais esse ano.

– CURTO PRAZO

“Precisa que sobre dinheiro da capitalização para que sobre para o futebol. Ter uma estrutura de formação muito forte, para daqui a cinco, seis anos, conseguir gerar grandes jogadores para o time e para vender. Uma lição que aprendemos foi que os primeiros anos são muito complicados. Não é só por gestores profissionais que têm mudanças imediatas. Com gente nova, se ambientando ao clube e processos de futebol, Palmeiras e Flamengo correram riscos sérios. Isso não pode acontecer ao Botafogo, muito mais fragilizado que esses clubes. Precisamos agilizar outros fundos para ter dinheiro para CT, jogadores, tecnologia no futebol, sistemas de monitoramento, scouting, sistemas médicos. Tudo isso vai dar resultado em 4 ou 5 anos. O Botafogo vai colher frutos reais e eficiência esportiva a partir do sexto ano, terá as dívidas principais pagas, dinheiro chegando líquido no futebol, folha crescer, efeitos do investimento na base e tecnologia. O ganho no curtíssimo prazo é tentar evitar que o clube caia. Esse ano é possível que escape, mas nos próximos anos seria muito difícil, com a piora financeira. É muito diferente o Avaí, Vitória ou Sport caírem, porque tem dívidas menores e costume de trabalhar com receitas menores. É um problema de R$ 40 milhões. Fluminense, Vasco, Cruzeiro ou Botafogo caírem é um problema de R$ 100 milhões ou mais.”

– FUTEBOL FEMININO

“Futebol feminino faz parte do projeto, assim como base e profissional. Não só por ser obrigação, mas por fazer parte do negócio e ter tendência de ser interessante a médio e longo prazo. E-sports ligados ao futebol também. A ideia é ir aumentando o investimento ao longo do tempo. Futebol masculino e base são carros-chefes, vão gerar mais receitas, financiar todo o processo.”

– APOIO DA TORCIDA

“Seria muito importante o Botafogo conseguir já em 2019 uma mobilização da torcida. A forma mais rápida e fácil é através do sócio-torcedor. Mobilizar todos por essa causa, porque o clube precisa de recursos para se manter na Primeira Divisão. Projeto só começa em 2020, se tudo der certo. Para resolver o problema de forma definitiva. Esse ano a torcida precisa ajudar o máximo possível. Normalmente a torcida condiciona a resultados, mas o Botafogo passa por um momento especial e merece atenção em prol dessa campanha. A torcida acaba se engajando ao sócio-torcedor ao longo do tempo, não é logo que uma gestão profissional assume. Vai existir um conjunto de novas adesões, de 10 a 15 mil, mas o crescimento maior será a longo prazo. Com rendimento melhor do time, ações no estádio, o sócio-torcedor ser mais relevante. Não é do dia para a noite. Assim como patrocínio, estádio e tudo mais. São processos que vão crescer ao longo do tempo. Por conta disso uma parte do dinheiro é separada nos primeiros anos para ajudar o time.”

– SALVAÇÃO DO BOTAFOGO

O nosso pensamento é salvar o clube. Não cabe a mim passar detalhes financeiros. Além dos números públicos, vemos nas entranhas e projetamos a longo prazo. Olhando o Botafogo para 2020 e 2021, não vemos condição de solvência operacional. O Botafogo tem folha de cerca de R$ 3,5 milhões, uma dos menores do Brasil, e não é capaz de pagar. Poderia pagar quanto? R$ 1 milhão? Talvez nem isso. É folha de Série B. Como sobreviveria, já com cotas antecipadas e receitas penhoradas? Dificilmente montaria time. Poderiam aparecer grandes botafoguenses para ajudar, mas eles mesmo estão querendo uma solução definitiva. Se não tomar ação radical agora, com o objetivo de salvar o Botafogo, não adianta. Daqui a cinco ou seis anos, já com folha livre de penhoras e com mais revelação de jogadores, já pode estar na situação do Bahia ou do Athletico Paranaense, estabilizados, com possibilidade de beliscar em um mata-mata, ou como o Leicester, buscar um título nacional. Não é um PSG ou Chelsea, tem que ter os pés no chão. Não adianta a torcida desistir. Se vender ideia que vai ser campeão de tudo a curto prazo, isso não vai acontecer.”

IRMÃOS MOREIRA SALLES

“Não vão ser Abramovic (Roman, russo proprietário do Chelsea). Certamente eles têm interesse em investir, seriam bem-vindos e dariam credibilidade ao projeto. Mas está claro para todos que essa é uma iniciativa de muitos, não uma iniciativa de poucos.”

Ouça na íntegra em: https://interativos.globoesporte.globo.com/podcasts/programa/dinheiro-em-jogo/episodio/botafogo-s-a-e-o-modelo-de-gestao-para-o-futuro-do-futebol-brasileiro/

Fonte: Redação FogãoNET e Podcast Dinheiro em Jogo (Globoesporte.com)