O Campeonato Brasileiro de 2018, que chega a 10.ª rodada, já teve, ao menos, dois casos de concussão, em apenas uma semana. E ambos no Botafogo. Mas, na mesma partida entre Botafogo e Ceará, na última quarta-feira, ao menos um outro jogador pode ter sofrido concussão mas, como permaneceu em campo, não virou estatística: Romário, do Ceará, tomou uma bolada tão forte na cabeça, chutaço de Jean, que caiu duro no chão. Demorou para levantar mas após rápido atendimento médico permaneceu em campo.

Segundo levantamento da CBF, no Campeonato Brasileiro de 2017 foram computadas 327 lesões (em 380 jogos), sendo 10% delas na cabeça (quase 33 lesões), e 4% concussões, ou seja 13 casos. No caso da Copa do Mundo, uma pesquisa dos médicos Astrid Junge e Jiri Dvorak, publicada no ”British Journal of Medicine”, apontou que houve 12 concussões em jogadores nas últimas cinco edições, sendo cinco destes choques classificados como “jogo sujo”.

Para o neurocirurgião Jorge Pagura, presidente da Comissão Nacional de Médicos do Futebol da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), esses números ainda não reproduzem a realidade.

– Esse tipo de lesão é subnotificada. Acredito que chegaria, no Brasileiro, no mínimo ao dobro. Ou seja, cerca de 26 concussões – analisa Pagura, que auxiliou o Botafogo no atendimento a João Pedro, que na quarta-feira da semana passada desmaiou após dividida com Anderson Martins e choque da cabeça na grama, em partida contra o São Paulo, no Morumbi.

No hospital São Luiz, ele realizou exames de tomografia computadorizada e ressonância magnética com difusão e os resultados foram considerados normais. Foi internado apenas para observação e já atuou pelo Botafogo na última rodada.

– Ter resultados normais quer dizer que o jogador não precisa de uma intervenção, uma operação naquele momento. Mas a concussão é como um inimigo oculto. Ou seja, seus danos podem aparecer após o evento. Os protocolos de descanso por 72 horas e de retorno aos gramados, que mede as funções cerebrais, são necessários porque o se o atleta sofrer outra pancada pode desencadear eventos inflamatórios cerebrais – explica Pagura.

Em geral, a concussão é um trauma no cérebro que provoca sintomas reversíveis. No entanto, traumas frequentes, especialmente em pequeno espaço de tempo — como em 90 minutos de uma partida — podem levar a consequências graves.

No caso do segundo trauma, o já instável cérebro volta a chacoalhar dentro do crânio, o que, segundo Pagura, desencadeia uma “cascata inflamatória” que pode provocar um edema cerebral e levar o atleta ao coma e à morte.

COPA TEM JOGO MAIS ‘PEGADO’

Na última rodada do Brasileiro, na quarta-feira, contra o Ceará, Yago sofreu dois choques na cabeça em lance na área adversária. Primeiro contra o ombro do goleiro Everson e depois na grama. O jogador foi retirado da partida mesmo contra a sua vontade. Após exames de praxe, não foi constatada nenhuma lesão. O jogador do Botafogo foi liberado para passar a noite em casa e cumprirá período de 72 horas de observação.

– Na última Copa do Mundo, em 2014, a Fifa demonstrou preocupação com os casos de concussão. E com razão. Esse é um campeonato mais curto e com mais pegada. É de se preocupar quando um esporte em que se joga com os pés, as lesões de cabeça serem frequentes e sub notificadas – opina Pagura.

A pesquisa dos médicos Astrid Junge e Jiri Dvorak apontou que houve 12 concussões em jogadores nas últimas cinco edições de Copa do Mundo (num total de 736 jogadores).

Eles se basearam em dados dos médicos-chefes das equipes no Mundial, que preenchiam um formulário padrão após cada partida.

O total de lesões foi 104, o equivalente a uma incidência de 1,68 lesões por partida ou 51 lesões/1000 horas. As maiores incidências ocorreram na coxa (entre 25% e 26%) e na cabeça (entre 18% a 19%).

Só para efeito de comparação, em competições da Uefa acontecem cerca de 27 a 30 lesões/1000 horas. E no Brasileiro de 2017, foram 26 lesões/1000 horas (também com a maioria, 35% na coxa e 10% na cabeça).

Assim, para a Copa do Mundo da Rússia, a Fifa usará o árbitro de vídeo para identificar lances perigosos. Um médico ficará em frente à televisão, na mesma sala do VAR, em lugar alto, acima do campo, para checar todos os lances de choque. E em casos importantes ele avisará ao árbitro ou ao médico da partida para que os atletas sejam sumetidos aos testes SCAT (do inglês Sport Concussion Assessment).

Fonte: O Globo Online