Mais um ano se encerrou para o Botafogo e o script, dessa vez, foi bastante diferente. Acostumado a estipular metas, empolgar no meio do ano e se decepcionar no final, o torcedor alvinegro viveu a situação inversa: após passar meses preocupado com a possibilidade de um novo rebaixamento, chegou em dezembro comemorando uma inesperada vaga na Libertadores.

No entanto, não é justo analisar a temporada baseando-se apenas no resultado do campo. É preciso manter um olhar sereno e global, observando todos os fatores, evidenciando os acertos e estudando maneiras de corrigir os erros – do porteiro ao presidente, tudo é passível de críticas e elogios.

Neste primeiro momento, falaremos sobre a trajetória e o planejamento do clube em relação à temporada que está se encerrando. No próximo texto, que sairá ainda nessa semana, trataremos das análises individuais dos atletas e também do departamento de futebol e seus métodos.

Presidente Carlos Eduardo Pereira

Como sempre, vou frisar: seu trabalho administrativo é ótimo. Recebeu o clube em situação de terra arrasada lá em 2015, planejou-se e arrumou a casa. Dentro do Ato Trabalhista e do Profut, honrando seus compromissos em dia – e, acreditem, até pagando salário adiantado -, começou a resgatar a credibilidade do Botafogo perante o mercado da bola.

Apesar disso, ainda há muito a realizar. Promessas não cumpridas, como sócio-torcedor com direito a voto e a não antecipação de verbas – como mostra o Botafogo Sem Medo -, não permitem que a gestão seja ainda mais bem avaliada. Por defender o obsoleto modelo amador de trabalho, também acaba participando das contratações sem estar apto para tal, cometendo gafes como a declaração pedindo para “separar a camisa 10” para Damian Lizio – que foi um fiasco.

Em resumo, considero sua administração nota 6, o que pode ser considerado bom em relação ao seu antecessor, mas que ainda fica devendo para quem pretende e precisa alçar voos maiores e voltar a figurar entre os principais clubes do país. Como não é novidade para ninguém, considero a profissionalização do clube vital para a recolocação do Glorioso em seu devido lugar, que é na luta por títulos de expressão.

O começo de 2016

Vindo da Série B, o Botafogo optou por um planejamento ousado. Tendo em vista a volta à Primeira Divisão do futebol brasileiro, o clube julgou – acertadamente – que precisaria reformular praticamente todo o seu elenco, dando um salto de qualidade. A primeira parte do processo foi conduzida de forma correta, dispensando os jogadores que não estariam à altura do desafio.

Já na segunda metade do objetivo, o clube deixou a desejar. Na montagem do grupo visando Campeonato Carioca, Copa do Brasil e Brasileirão, houve uma série de erros na análise e na escolha dos novos contratados. Como sempre, o estadual mascarou as deficiências de uma maneira perigosa, precipitando a avaliação da qualidade do time diante de um nível técnico baixíssimo – não é de hoje que o Carioquinha deixou de ser parâmetro para análises técnicas de desempenho.

Vitor Silva/SSPress/Botafogo

Vitor Silva/SSPress/Botafogo
O Botafogo chegou na final do Carioca, mas perdeu novamente para o Vasco

Até por isso, o Bota teve desempenho satisfatório na competição e acabou como 2º colocado – o que deu margem ao departamento de futebol para negar a necessidade de reforços qualificados. Cerca de uma semana depois, o Glorioso começou a sua derrocada, momentos antes do início do Brasileirão: em confronto válido pela Copa do Brasil, o goleiro Jéfferson sofreu uma lesão rara que o tiraria de combate por toda a temporada.

Início desesperador de Brasileirão

A preocupação com o torneio nacional era nítida. A maioria dos torcedores projetava um ano muito difícil, em que o melhor dos mundos seria alcançar os tão sonhados 46 pontos, que nos livrariam de um novo rebaixamento. Qualquer coisa acima disso parecia utopia. E, realmente, o Botafogo seguia de maneira fiel o rumo das previsões.

Na estreia, perdemos para o time misto do São Paulo em Volta Redonda. No segundo jogo, empatamos com o Sport. Na terceira rodada, a primeira vitória: um 2-1 sofrido sobre o Atlético-PR, em Juiz de Fora, com direito a gol de Ribamar. O Botafogo ainda era itinerante e seu principal jogador era o uruguaio Salgueiro, enquanto Hélton Leite entregava diversos pontos lá atrás.

Na quinta rodada, chegamos ao fundo do poço. Após três derrotas seguidas para Fluminense, Cruzeiro e Santos, o Botafogo assumiu a lanterna. O sentimento era o pior possível, as esperanças se esvaíam enquanto o fantasma da Série B chutava a porta gritando “voltei”. Balançamos.

A hora da virada

A reviravolta do Botafogo começou com a vitória sobre o Internacional, em pleno Beira-Rio, na 11ª rodada. Apesar de só termos iniciado nossa arrancada de maneira efetiva na partida 20, com a estreia de Jair Ventura, contra o São Paulo, foi ali que sentimos algo diferente – coisa que escrevi aqui no blog, intitulando o texto como “Ponto de partida”. Nem mesmo as derrotas para Galo (12ª), Chape (16ª) e Ponte (18ª) foram capazes de frear o otimismo. Já sentíamos o nosso destino.

WESLEY SANTOS/Gazeta Press

WESLEY SANTOS/Gazeta Press
Vitória sobre o Inter no Beira-Rio marcou a reviravolta do Glorioso

A reformulação do elenco, as chegadas de Sidão e Camilo e a titularidade de Carli ainda não eram suficientes. Faltava algo. Mas jamais imaginaríamos que a mudança necessária era no banco de reservas: a saída conturbada de Ricardo Gomes e a polêmica efetivação de Jair Ventura levaram o time do G4 ao sonho da Libertadores. Muitos – eu incluso – achavam que Ricardo tirava leite de pedra, mas a verdade é que o time evoluiu demais com a sua saída. Ali, nos tranformamos de vez.

A tardia Arena Botafogo

Sem dúvida alguma, a estabilidade de ter uma “casa” facilitou as coisas para o Botafogo. A Arena improvisada no estádio da Lusinha simbolizou uma nova era do Fogão dentro do campeonato, chamou a torcida para jogar junto e intimidou diversos adversários. Foi, logicamente, um grande acerto da diretoria. Mas com ressalvas.

A inexplicável demora para uma solução nos castigou durante quase um turno inteiro. Ora, se já sabíamos que não teríamos o Estádio Nilton Santos no ano das Olimpíadas, por que não definir a remediação do problema com mais antecedência? Definitivamente, foi um grave erro de planejamento. A situação já era de conhecimento do clube há praticamente 7 anos.

A sorte

Muitos se recusam a admiti-la. Vários a enxergam como uma diminuição do mérito. No entanto, não há problema algum em aceitar o fato de que vivemos uma onda de sorte. Ela acompanha quem trabalha, e o Glorioso trabalhou muito. Não foram poucas as vezes que vencemos com gols no final das partidas – aqueles que, por anos, nos acostumamos a sofrer – ou mesmo jogando menos que o adversário. O que, logicamente, não desmerece em nada a nossa campanha.

Outro fator sortudo foi a mudança da regra em meio ao campeonato. Com a bola já rolando, a Conmebol bateu o martelo e cravou mais duas vagas de Libertadores para o Brasil – o que, na prática, nos colocou na briga de vez. Caso permanecesse o G4, seria uma missão muito mais ingrata. Com a possibilidade de G6 – ou até mesmo G7 – o Botafogo enxergou a chance de superar-se ainda mais. Ainda assim, até meados de outubro, quem falasse em Libertadores era dado como louco.

A arrancada e a vaga

Durante todo o segundo turno, já estabilizado no campeonato e praticamente sem riscos de queda, a maioria se contentava com um fim de ano tranquilo e sem sustos – o que já excedia qualquer expectativa lá de janeiro. Mas o clube pensou grande. Jair enxergou a possibilidade de vaga na Libertadores e, silenciosamente, mirou seu objetivo. Internamente, o grupo comprou a briga.

A torcida, jogo a jogo, se empolgou. O nosso jogo em momento algum foi bonito; porém, com a eficiência de poucos, com um futebol simples, objetivo e letal, o Glorioso buscou sua meta degrau por degrau. Em vários momentos, apenas o campeão Palmeiras superava nosso desempenho na segunda metade do campeonato. Uma arrancada sem precedentes na história do Botafogo.

Jeferson Guareze/Agif/Gazeta Press

Jeferson Guareze/Agif/Gazeta Press
Botafogo venceu na última rodada e comemorou a classificação em plena Arena Grêmio

 

Na reta final, perdemos fôlego. Desgastados e já sem o mesmo padrão dos melhores momentos do time na competição, os jogadores, exaustos, rastejavam pela vaga como um faminto que busca um prato de comida. Depois de alguns tropeços, fomos à última rodada ainda dependendo de resultados. Contudo, diferente de outros momentos, o clube não fraquejou, venceu o Grêmio no Sul e carimbou seu passaporte para a Libertadores. Quem diria!

Jurídico, Comercial e Marketing

Na minha opinião, esses setores, em algum momento, ficaram devendo.

Como leigo em Direito, posso apenas dar meu parecer como torcedor e jornalista: em alguns casos, faltou amarrar melhor os contratos. É algo recorrente no Botafogo: outros clubes têm muita facilidade em tirar nossos destaques. O Alvinegro tem servido de vitrine pra muita gente e o departamento jurídico precisa amarrar melhor os contratos para evitar novos casos como Willian Arão, Sidão e Diogo Barbosa.

Já no campo da comunicação, os setores comercial e marketing deixaram a desejar num ponto fundamental: o levantamento de fundos. A busca por parceiros, patrocinadores e até as formas alternativas de arrecadar são ativos fundamentais para quem tem pouca verba – principalmente levando em consideração o abismo criado pelas cotas de TV.

É preciso ter mais criatividade e competência. Sem dúvidas, é a área que mais necessita de uma profissionalização completa, com metas estabelecidas e uma captação de recursos infinitamente superior à atual. Precisamos de mais nomes como Caio Araújo, profissional do clube em quem deposito muita fé agora e para o futuro.

Departamento médico

Talvez grande vilão da temporada – e quando eu falo em DM, englobo aqui fisiologia, preparação física e todo o conjunto. Não houve um único jogador do time titular que não tenha sofrido com lesões musculares por, pelo menos, uma vez. O Botafogo foi recordista neste quesito, algo que precisa ser revisto. Timidamente, o clube anunciou a chegada de novos aparelhos em determinado momento da temporada, o que parece ter amenizado um pouco a situação. Ainda assim, é preciso reformular as ideias e, talvez, os profissionais da área.

Fonte: Blog Preto no Branco - Pedro Chilingue - ESPN FC