Eu me lembro bem: ainda era janeiro, a torcida ainda sofria pelo rebaixamento, e a diretoria, em terra arrasada, apresentava os primeiros nomes do novo elenco. Entre eles, um chegou sem fazer muito barulho – e quase ninguém sabia dizer quem era.

– Quem é aquele ali de cabelo enrolado?
– Sei não, cara. Dizem que tava no Corinthians na conquista da Libertadores e do Mundial, mas nunca jogou.
– É, vamos ver….

Assim foi a chegada de Willian Arão ao Botafogo. Assim como alguns outros, era visto como indigente. Sabia-se que foi figurante no time paulista e depois teve passagens irrelevantes por Portuguesa, Chapecoense e Atlético-GO. Nem de longe chegou a empolgar alguém – assim como todos os outros, é verdade.

Nos primeiros jogos, Arão foi mal demais. Já estava prestes a bradar por sua saída quando, sem mais nem menos, começou a mostrar um bom futebol. Ótimo, até, eu diria. Tornou-se o dono do meio-campo e assim foi até o final da temporada, sendo coroado com o gol do título da Série B, diante do ABC. Até aí, tudo normal.

O jogador se valorizou, é claro. Resguardando-se dessa possibilidade, o Botafogo incluiu em seu contrato, lá em janeiro, uma cláusula de renovação obrigatória mediante pagamento de R$ 400 mil – o que daria ao Botafogo, que até então dividia ao meio o passe com o próprio jogador, mais 20%. Situação válida para ambos: para o jogador, a chance da carreira. Para o clube, a aposta de risco com possibilidade de segurá-lo em caso de propostas.

Pois bem, assim fez o Botafogo. Enxergando a ameaça de todas as especulações envolvendo o nome do melhor volante da Segundona, o clube apenas exerceu seu direito, depositando a verba e, mais que isso, igualando a suposta oferta salarial vinda do Flamengo – aquele mesmo, lá da Gávea, que adora falar em transparência, ética boa conduta, mas que, ao que tudo indica, de acordo com as informações dadas pela imprensa, vinha aliciando o jogador há tempos.

Confesso que meus 25 anos de futebol me fizeram confiar em qualquer coisa, menos em jogadores de futebol. Já havia feito apitar o alerta: o silêncio de Arão durante todas as especulações só deixava nítida a vontade dele em sair. Direito dele, cada um joga onde quer; basta cumprir o que assinou em comum acordo em sua chegada. Mas devolver o dinheiro da cláusula é mais do que desrespeitar a instituição Botafogo, é se afirmar como ingrato e mercenário.

É muito fácil chegar pianinho quando ainda não é porra nenhuma, aceitar os moldes do contrato e, agora, depois da valorização, querer inutilizar o acordo em vantagem própria. Se quer ir pro Flamengo ou pro raio que o parta, vá com Deus: cumpra a renovação automática e faça seu futuro clube, que tanto te quer, pagar a multa de R$ 20 milhões. Abraço e vai pela sombra.

Vale frisar: a postura da diretoria do Botafogo é perfeita. Há anos não via alguém defender nossos direitos dessa forma; cansamos de perder jogadores de graça porque nossos cartolas não tinham pulso firme. Fizeram certíssimo em depositar a grana, o que validou o novo contrato e estabeleceu a multa – não entendo muito de direito, mas, se for o caso, vale depositar novamente, em juízo, na segunda-feira. Quem quiser levar esse sujeito que pague por ele.

É muito provável que ele não jogue mais pelo Botafogo – o que acho ótimo depois de tudo isso. Não serei covarde de tirar seus méritos e qualidades nesse ano, mas vale lembrar que foi apenas uma segunda divisão. Arão está longe de ser um craque e, certamente, não é nada diante do que representa a imagem do Botafogo de Futebol e Regatas. Na minha humilde opinião, o clube renova o contrato e empresta pro Boavista.

O Botafogo não é trampolim. Não pense que vai chegar aqui como um ‘zé ninguém’, crescer com a oportunidade única que o clube lhe deu e ir embora jogando isso no lixo. Além disso, pesquise um pouco sobre a “maldição alvinegra”, pois a praga costuma perseguir quem desrespeita o Glorioso. Sinta-se à vontade pra desfilar sua insignificância lá no estádio do Flamengo. Ah, não, esquece…

Fonte: Blog Preto no Branco - Pedro Chilingue - ESPNFC