Dia 30 de novembro de 2014. Ao ser derrotado pelo Santos na Vila Belmiro, o Botafogo apenas sacramentou o rebaixamento mais óbvio que já assistimos. Depois de viver seu ápice no Século XXI, com Seedorf e a classificação para a Libertadores em 2013, o botafoguense enfim descobriu o que havia por trás do obscuro mandato de Maurício Assumpção e sofreu o segundo descenso de sua gloriosa história.

Ali, morreu um pouco de cada um de nós. Diante da terra arrasada e da possibilidade de enterrar nossas glórias em um passado que não voltaria mais, muitos perderam a fé na simples condição de continuar existindo. Jornais e programas de TV cravavam nossa falência. Jogadores saíam de graça, através da Justiça, pois os salários estavam havia cerca de seis meses atrasados. O cenário era perfeito para o apocalipse.

Eis que, com muito trabalho e alguma ajuda de Garrincha e Nilton Santos, os ventos começaram a mudar em 2015. Finalista do Campeonato Carioca e com campanha relativamente tranquila na Série B, liderando de ponta a ponta, o Glorioso deu a volta por cima e retornou à Primeira Divisão, o seu lugar de direito. Ali, o desafio era outro – e ainda mais difícil: reformular todo o elenco visando vôos mais altos em 2016.

No ano passado, o Glorioso foi mais uma vez finalista do campeonato estadual, mas começou cambaleando no Brasileirão – e o fantasma do rebaixamento voltou a nos rondar. Quando um novo nocaute estava prestes a abrir contagem para o nosso fim definitivo, o Botafogo guinou; admitiu o mau planejamento, contratou peças pontuais, mudou de técnico e incorporou algo que resiste até hoje: a gana de lutar por cada bola até o fim.

Após um segundo turno brilhante no campeonato nacional, a sorte reconheceu nosso esforço e o destino nos presenteou com uma vaga extra para a Libertadores. O time, que há menos de 3 anos lutava contra um ponto final, hoje persegue a exclamação. Dentro de seus limites e com muita disciplina, o novo Botafogo superou dois grandes testes e está de cara para a fase de grupos. Quem diria.

A luta para o Botafogo sempre é muito mais que futebol. Em seu estado, luta contra a preferência escancarada da mídia por um rival e a força histórica de outro nos tribunais. No terceiro, até enxerga um aliado – porém a presença de Eurico Miranda me impede de enxergar com bons olhos qualquer tipo de parceria. Decisões ruins nos fizeram – e ainda fazem – flertar com uma federação ultrapassada e que só serve pra sugar dinheiro dos clubes. A luta é diária e árdua.

Vitor Silva/SSPress/Botafogo

Vitor Silva/SSPress/Botafogo
Evento integrando torcedores e atletas mostra o clima de união do Botafogo

Com suor, o Alvinegro fez um lindo trabalho de personalização de seu estádio e agora precisa ter inteligência para usá-lo em duas frentes: vantagem técnica e lucro financeiro. Entendo a falta de confiança em negociar com quem alicia jogadores sob contrato, mas nada que não se amarre com a força da lei; temos mais é que tirar dinheiro de quem não tem casa pra jogar, seja quem for.

Nos reerguemos e começamos a montar um elenco competitivo. Ele tem carências e defeitos, é claro, mas tenho fé que construiremos um grupo cada vez mais forte ao passar dos anos – renovando com as boas peças e trocando as que não renderem. A nossa base incrivelmente forte é um supertrunfo para dar ganho de qualidade no time e lucrar com a venda de algumas peças.

O mais importante é que hoje temos jogadores identificados com clube e torcida. Independente da qualidade individual de cada um deles, temos homens comprometidos com os objetivos do clube e integrados em nosso dia a dia. Como sonho, tenho a construção de um CT independente e separado da nossa parte social de General Severiano. Seria o maior e decisivo ganho de qualidade de trabalho para profissionalizar o futebol do clube.

O Alvinegro é o capítulo mais bonito da história recente do futebol brasileiro. O desafio futuro é tornar nosso clube cada vez mais austero, independente, lucrativo e profissional. Nesse momento crucial, não pode haver vaidade de chapa A ou B; a união de todos que possam somar é extremamente necessária para que o reerguimento do Botafogo possa se concretizar de forma plena.

Há três anos, o Botafogo quase me fez acreditar em seu fim. Hoje, ele me faz nunca duvidar de nada. Não há mais missão impossível para o Glorioso. Com muito suor, trabalho, dedicação e profissionalismo, o clube da Estrela Solitária me faz acreditar que não há limites; que vamos, sim, reencontrar a estrada dos louros da nossa época mais gloriosa.

O Botafogo somos nós, sim senhor. E estamos voltando.

Fonte: Blog Preto no Branco - Pedro Chilingue - ESPN FC