Nilton Santos gostava de lembrar, a voz mansa pontuada pelo sorriso fácil, que suas renovações de contrato com o Botafogo se resumiam a assinar uma folha de papel em branco. Com ela nas mãos, o presidente da vez decidia quanto queria pagar ao melhor lateral-esquerdo do mundo e uma secretária datilografava o conteúdo. O time do Nilton era o do meu avô. Ele torceu também por Garrincha, Didi, Zagallo… Craques que só vi nas imagens em preto e branco e que os mil-réis da época mantiveram no Brasil para base da seleção bi mundial.

Hoje, o poder da negociação mudou de mãos. Neymar se reapresenta ao Paris Saint-Germain com um dia de atraso, dá entrevista dizendo que a atuação mais marcante da carreira foi contra o clube que agora paga seu salário, avisa ao mundo que não quer ficar. Do outro lado da mesa está um sheik rico a ponto de ter gasto € 222 milhões para fazer dele a cara do projeto de visibilidade do Qatar — um país sentado sobre a maior reserva de gás natural do planeta. E quem você acha que vai ganhar essa queda de braço?

Em todas as grandes ligas americanas, ao menos uma temporada já foi interrompida por greve ou locaute. Cada paralisação deu mais força aos sindicatos de jogadores na divisão do bolo com os donos dos clubes. Agora funciona assim: Kawhi Leonard liga para Paul George, os dois decidem jogar juntos e largam seus times (no caso de Kawhi, o Toronto Raptors, atual campeão da NBA) e vão juntos para o Los Angeles Clippers.

Se essa é a nova realidade dos bilionários do PSG e da NBA, o Botafogo, que uma série de gestões desastrosas transformou no clube de futebol mais endividado do Brasil, nem sonha mais com o poder de fazer seus jogadores assinarem contratos em branco. Nem sequer consegue reagir para manter o principal nome do elenco: o Palmeiras, dono dos direitos de Erik, avisa que recebeu uma proposta do Japão e ele vai embora. O empréstimo até previa a possibilidade de cobrir a oferta — mas com que dinheiro, se falta até para pagar os salários?

No tempo do Nilton, uma proposta de transformar o Botafogo numa empresa nem chegaria a soar ofensiva — porque nunca seria feita. Não que os clubes pudessem dispensar ajuda financeira na infância do profissionalismo, mas até então o nome e a estrutura da instituição eram considerados patrimônio intangível (e nem no sentido contábil, no poético mesmo).

O mecenato sempre foi bem-vindo em todos os clubes, desde os tempos do amadorismo, quando sócios abastados davam presentes, pagavam os bichos e até os salários dos jogadores. Foi com o dinheiro de Emil Pinheiro, um banqueiro do jogo do bicho para quem muita gente torceu o nariz, que o Botafogo montou o time que acabou com o jejum de títulos no Estadual, com a vitória sobre o Flamengo de Zico em 1989.

É fácil prever que não haverá contestação ao projeto dos Moreira Salles. E não só porque o dinheiro oferecido não vem da contravenção, nem porque o modelo do negócio pode apontar um novo caminho para o futebol brasileiro. A situação do Botafogo chegou a um ponto em que o clube estava prestes a assinar uma folha de papel em branco para um investidor preencher como quisesse.

Fonte: Coluna do Marcelo Barreto - Jornal O Globo