As pessoas costumam usar a expressão “clima de Fla x Flu” para descrever o estado de espírito em ambientes onde uma discussão ultrapassa os limites da civilidade — como, por exemplo, todo dia no Facebook. Bem, o Fla x Flu do último domingo teve bem pouco clima de Fla x Flu: as torcidas se limitaram a fazer sua parte, empurrando os jogadores, que por sua vez não se caçaram em campo e só trocaram algumas rosnadas entredentes, tudo dentro do terreno do socialmente aceitável.

O que teve muito clima de Fla x Flu foi a tortuosa negociação para que a final da Taça Guanabara (que, graças aos gênios que elaboraram a tabela do campeonato, não valeu vaga na decisão do estadual) pudesse contar com a presença das duas torcidas. Sim, hoje em dia para que as coisas corram dentro da normalidade é preciso dias de deliberações e uma série de liminares — sendo que, durante algumas horas de vergonha para o futebol carioca, chegou-se a anunciar um clássico de portas fechadas, disputado para arquibancadas vazias.

Foi uma bagunça que envolveu o MP, a Ferj e a cartolagem numa disputa que tinha o claro objetivo de desmotivar os poucos torcedores que ainda enxergavam alguma graça na competição. Mas a grande estrela da confusão foi o presidente do Botafogo, Carlos Eduardo Pereira, que, por ser responsável pela gestão do estádio Nilton Santos (“Engenhão” para todo mundo menos a torcida alvinegra, que se empenha em emplacar o nome do lendário lateral esquerdo assim como alguns ingênuos tentam escolher o próprio apelido), se acha no direito de escolher que torcidas podem acomodar o traseiro nos assentos da arena do Engenho de Dentro.

Depois de (apoiando uma determinação do MP) fazer campanha por torcida única — de acordo que fosse a do Fluminense, já que os flamenguistas torcem por um time que, em uma negociação sancionada pela justiça, comprou-lhe um jogador contra a sua sagrada vontade —, CEP foi entusiasta da final com portas fechadas. Tudo isso com a desculpa de evitar a violência entre as torcidas, preservar seu precioso estádio e promover a paz.

Acho que a postura do cartola não fez muito nesse campo da promoção da paz. Pelo contrário, eu mesmo fiquei com vontade de arrastar no asfalto a cara dos amigos botafoguenses que apoiaram essa atitude estúpida — pelo menos são apenas um ou dois, a maioria sabe que essa birra não tem nada a ver com uma preocupação legítima com a saúde dos torcedores (se tivessem mesmo todo esse cuidado, a comissão técnica não teria insistido tanto tempo na escalação do Renan), mas com uma queda de braço despropositada em que o futebol carioca é quem acaba com uma fratura exposta.

Kriptonita

O Fluminense foi o campeão com todos os méritos: manteve pressão constante, e o sangue frio que demonstrou durante a partida foi fundamental na disputa de pênaltis. Já o time do Flamengo parecia algo deslumbrado com as inúmeras matérias apontando seu favoritismo. Aliás, três coisas costumam servir como kriptonita para o rubro-negro: vantagem no placar, vantagem do empate e favoritismo. Aparentemente, o time da Gávea fica mais forte quando está desacreditado; talvez se mantiver a rotina de eliminações em 2017 volte mais forte nos próximos anos.

Fonte: Coluna do Arnaldo Branco - O Globo Online