Primeiro técnico a aderir ao Bom Senso FC, Paulo Autuori conta que o fez por perceber que era necessário romper a imagem de movimento restrito a ex-jogadores bem sucedidos. E diz não temer que, como represália por assumir posição combativa diante da atual estrutura de CBF e clubes, encontre portas fechadas no mercado. Nesta entrevista, ele defende uma ampla reforma do futebol brasileiro, do sistema político à formação.

Teme dificuldades para trabalhar por ser tão crítico a clubes e CBF?

Não aceito um profissional não assumir posições por receio do sistema. Quero contribuir com ideias, sem medo de ir contra o que está aí. Temos argumentos sólidos e estas pessoas não têm. Dirigentes viam o Bom Senso como movimento de ex-jogadores realizados. São atletas que experimentaram o que há de melhor: gramado, qualidade de jogo, treino, calendário. E decidiram lutar por isso no país deles. Ter um treinador evita que a luta seja de um segmento. É preciso integrar segmentos: jogadores, público, comissões técnicas, dirigentes, árbitros e imprensa. Cada parte entendendo a outra, o todo funciona. Não pode ser bom só para uma delas. É uma visão sistêmica.

Hoje está bom para quem?

Para alguns a quem interessa, que não querem perder a mamata. Inclusive dirigentes de clube. Futebol não vive sem o clube. Nossos clubes estão em degradação, fragilizados. Perderam até suas identidades. A CBF convida um dirigente para viajar com a seleção… Se ela se preocupasse com os clubes, poderia induzir a gestões melhores, criar condições. Mas só tem olhos para patrocínio e seleção principal, fazer política… É importante partir para uma liga e acabar com isso.

Que papel deveria ter a CBF?

Pensar o futebol brasileiro. Criar cursos, possibilidades para o profissional do futebol se preparar em diversas funções. Porque aí entra um cara como Roberto Dinamite, não vai bem e reforça o discurso deles (dirigentes tradicionais): “não pode colocar na mão destes caras”. A CBF devia induzir todos os segmentos a discutir o futebol e reuni-los em seminários anuais. E apoiar os clubes na formação, ter um campeonato nacional de base nos moldes do principal, cuidar das seleções desde a base com as mesmas condições dadas à principal. Deixaria os campeonatos principais nas mãos dos clubes.

Mas a Liga Rio-Sul-Minas não prova a dificuldade dos clubes de se juntarem?

O primeiro a quebrar o acordo é um deles. Pela falta da visão do todo, vontade de querer levar vantagem, enfraquecer o rival e se dar bem. Mas precisam estar apoiados numa estrutura mais moderna na CBF, numa estrutura jurídica moderna. Isto cabe à CBF, caberia ao governo federal se estivesse interessado.

A reforma política na CBF, ampliando participação e reduzindo poder de Federações, é a mudança principal?

Abriria espaço para pessoas do futebol, mudaria a estrutura de poder. As pessoas estão lá de que forma? Votadas por interesses. De que adianta sair este homem e entrar outro neste sistema viciado? Quebrar isso seria impactante. Mas desde que entrem pessoas com ideias.

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O Bom Senso exige a renúncia da direção da CBF. Não há como cobrar reformas da direção atual?

Não tem conversa com estas pessoas. O Bom Senso ofereceu diálogo por dois anos e foi desdenhado por CBF e clubes. Estas pessoas não estão dispostas a abrir mão dos privilégios e não estão habilitadas porque nunca trouxeram ideias.

Como o calendário limita o trabalho dos técnicos?

Hoje fala-se muito em rodízio. Na Europa, você nunca vai ver, ao contrário daqui, técnico trocar oito ou nove. Isso descaracteriza time, denigre espetáculo, é tiro no pé. Precisa ter um calendário racional, que não induza a isso. Os times lá de fora têm desenho. Parece mais difícil analisar um jogo daqui. E é mesmo, muitas vezes não há desenho. Os times são espaçados. A tal compactação que se cobra leva tempo. E veja: o técnico brasileiro assume para fazer cinco jogos em 15 dias e se perder cai. Ele perdeu a capacidade de dar treino, porque só joga e conversa. Muitos adoram jogar toda hora, estão com repertório de treino pequeno. E acomodados. Aí é no papo, na graça, na família para motivar… Porque treino mesmo…

Os técnicos também têm culpa pelas trocas constantes?

Temos culpa também. Mas é uma classe com profissionais que precisam sobreviver. Ficar três, quatro meses sem trabalhar é difícil. É preciso regulamentar. É outro ponto em que a CBF devia pensar, criar regras: foi demitido, o clube tem que provar que te paga até o fim do contrato, sujeito a penas. E o treinador não assume outro time da Série A. Aí, até um cara de nome iria para a Série B, valorizaria. E abriria a barreira que impede o lançamento de novos técnicos.

Mas falta conhecimento ou tempo de trabalho?

As duas coisas. Falta conhecimento também, porque nós e os dirigentes nos acomodamos no “somos pentacampeões”. Mas como você vai se habilitar num calendário como o brasileiro? Não há tempo para ir ao dentista. Muitos não têm dinheiro para viajar e estudar. Então por que a CBF não oferta aqui o conhecimento? O novo curso ainda não é reconhecido pela Fifa. E o técnico é renegado lá fora. Tite e Mano tiveram iniciativa, mas tinham tempo e grana para viajar. Quando falei em técnicos ultrapassados, não me referia a pessoas, mas a conceitos.

Não há mais uma escola brasileira?

Perdemos a convicção em torno da ideia central. Por mais que coisas adversas aconteçam, você adapta alguns aspectos, mas não altera o conceito central. Nós ferimos este conceito. Sempre marcamos por zona, valorizamos a posse de bola e a criatividade. Abrimos mão da técnica, da tática para fisicamente ter times mais poderosos. Aí vai tirando os volantes que jogam para pôr o protetor do zagueiro. Depois os três zagueiros sem que um deles saía para iniciar o jogo… Fomos indo contra o que tínhamos como identidade para “encaixar no adversário”. Mas “somos pentacampeões do mundo”.

Como explicar, com tantos problemas, o fato de termos tantos jogadores na elite europeia?

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A qualidade do jogador caiu, mas o brasileiro ainda é diferente. E os europeus creem nisso. Se o brasileiro tem cabeça boa, se dispõe ao sacrifício, a não sentir saudade do feijão, ele se dá bem. Já ouvi jogador falar: “Eu jogava bola, aprendi a jogar futebol na Europa”. Isso é metodologia de treino, tempo de treino, calendário… Tudo anda junto. Cada vez buscam o jogador mais jovem e terminam a formação lá. O grande lance do jogador brasileiro é a capacidade nata. Ele ainda é cobiçado. E nem toda a nossa formação é ruim.

Você pensa em mudar de função?

Penso em migrar, mas ainda não vejo condição. Queria fazer uma gestão técnica, criar justamente a ideia de jogo, a identidade técnica num clube, metodologia desde a base… Hoje, sou treinador e estou pronto para trabalhar. Mas não pego time para motivar, não gosto do lado piegas de apelação, pregar papel com bilhetinho da família. Acredito em conceito. Parte técnica, estratégia.

Fonte: O Globo Online