Uma das maiores revelações entre os treinadores, Jair Ventura, conseguiu levar o Botafogo a quinta posição do Campeonato Brasileiro e disputar a Copa Libertadores da América de 2017. Ele assumiu o cargo após a saída de Ricardo Gomes para o São Paulo, quando o time alvinegro estava na zona de rebaixamento e parecia destinado ao rebaixamento.

Sob seu comando, porém, a equipe teve uma grande arrancada: obteve 12 vitórias em 20 jogos, sofreu apenas cinco derrotas, conquistou 39 pontos e somou um aproveitamento de 65%.

Aos 37 anos, o filho de Jairzinho – craque campeão da Copa do Mundo de 1970 – foi preparador físico, analista de desempenho e auxiliar técnico antes de chegar ao posto de comandante do Botafogo.

Com experiência em diferentes funções no mundo da bola, Jair Ventura falou sobre seu gosto por estatísticas, as dificuldades de ser um jovem na profissão e a relação com o pai.

Veja abaixo a entrevista na íntegra:

ESPN – Você parou de jogar muito jovem, com apenas 26 anos, e foi estudar educação física. Como foi sua trajetória fora dos gramados?

Jair Ventura – Comecei como preparador físico pouco tempo e depois e fui chamado para ser auxiliar técnico do Ney Franco no Botafogo. Sempre fui apaixonado pela parte tática. Eu era auxiliar de campo e também analista de desempenho.

Essa função não existia no clube, usava um programa de scout que um amigo meu tinha feito. Isso foi uma boa entrada sempre gostei de estatísticas. Não adianta também chegar com um monte de informações e não saber usar. Eu aplico isso no meu dia a dia, para deixar meu time equilibrado.

ESPN – Qual a importância de um analista de desempenho hoje no futebol?
Jair Ventura –
Hoje, como treinador, não me vejo trabalhando sem um analista de desempenho. Desde a aquela época a gente analisa carreia toda dos jogadores que contratamos desde esse tempo. Por exemplo: você vê um jogador muito bom, mas vai olhar o número de vezes que ele foi titular no último ano e foi baixo. Você levanta a carreira toda do cara.

ESPN – Você contrata jogadores por DVD?
Jair Ventura –
Não contratamos por DVD, porque lá eles editam e só colocam a parte boa. Os programas te dão todos os números. O ideal é trabalhar ao vivo e ver o cara também, mas o scout ajuda demais principalmente os estrangeiros. Isso é algo que nos ajuda a errar o mínimo possível nisso.

ESPN – E como foi essa transição de scout para técnico?
Jair Ventura –
Sempre que trabalhei como scout era auxiliar de campo e conciliei. A grama sempre me seduzia, nunca fiquei só no computador. Foi tudo natural, meu primeiro jogo como interino foi em 2010. Olha quanto tempo demorou para chegar até aqui. Não foi quando você ganha na Mega Sena, que tudo vem de uma vez.

Foi de maneira gradativa, três jogos em 2015. Depois foram mais de 30 jogos como treinador do sub-20. Trabalhei na seleção brasileira por três anos em todas as categorias de base eu fui auxiliar técnico. Foi uma experiência maravilhosa, passei por toda as etapas do futebol.

ESPN – Alguns jogadores mal saem dos gramados e viram treinadores. O que você pensa disso?
Jair Ventura –
Muito se falam em cursos, você termina a carreira e fazer um como o da CBF para tirar licença A. Ou até mesmo da Uefa, que eu ia fazer ano que vem, mas agora com a efetivação no cargo vou dar uma segurada. Antes era meu plano. Você não pode parar de jogar e uma semana depois achar que está pronto.

ESPN – Para ser treinador precisa ter sido jogador? Qual a parte mais difícil da profissão?
Jair Ventura –
Tem espaço para os ex-jogadores, da faculdade. O ideal é mesclar, você tem a teoria e a prática e tem que ter a vivência. Você tem que saber como lidar com os jogadores, saber o dia a dia dos jogadores. Não adianta saber tudo de tática, mas e a gestão de pessoas? O mais importante hoje é isso. Eu tenho 44 jogadores e mais membros do staff e você é o líder. Tenho que tomar decisões. Um está com a mulher no hospital, outro não recebeu aumento e está chateado. É preciso manter todos com foco.

ESPN – Teve algum problema por ser tão jovem?
Jair Ventura –
Estou muito feliz, a vida de treinador é muito difícil. Um treinador jovem pro mercado só tem uma chance de dar certo que é vencer. Só estou aqui hoje porque venci os jogos. Idade não quer dizer tua capacidade e conhecimento. Fico feliz de o grupo ter abraçado a causa. Não adianta ter me preparado e eles não abraçarem, eles são os grandes responsáveis por tudo isso que está acontecendo.

ESPN – Você é filho do Jairzinho, um dos maiores jogadores da história do futebol. Como foi sua infância vendo todos aqueles craques em casa?
Jair Ventura –
Eu fui criado no meio dos caras da Copa de 70, foi bem natural. Acompanhei meu pai sempre na seleção de veteranos e estavam todos. Lidar com a fama sempre foi natural a minha vida toda. Ficamos muitos sentidos com a morte do Carlos Alberto, meu pai é da mesma idade que ele. Eram grandes amigos.

ESPN – Você em algum momento sentiu a pressão de ser filho dele? Quando era jogador você passou por vários times pequenos, enfrentou salários baixos e falta de pagamentos. Foi para até no Gabão…
Jair Ventura –
Você me pergunta: Eu precisava passar por isso? Meu pai sempre me deu a melhor vida possível, mas eu queria ir atrás do meu sonho. Eu não podia ficar na sombra dele a vida toda. Não seria nada ruim porque a história dele é magnífica no futebol. Mas eu sempre quis construir a minha história e ser alguém. Sai de casa com 16 anos e fico feliz das coisas estarem acontecendo.

ESPN – Consegue trocar ideias com seu pai sobre futebol e a forma como arma seus times?
Jair Ventura –
Com a correria que a minha vida é, de treinos, jogos e viagens não dá tempo de conversar muito com meu pai. A vida é muito louca, cabeça não para. Não tenho esse tempo de debater com meu pai, queria muito ter esse tempo, mas não dá. Quando a gente conversa é mais assunto de pai e filho mesmo, pouco falamos de futebol.

Fonte: ESPN.com.br