Em um campeonato de média de público muito baixa (3.419 pagantes), a decisão deste domingo, às16h, terá um Maracanã com mais de 50 mil torcedores para Vasco x Botafogo. É o cenário perfeito para o último ato das óperas protagonizadas por Paulão, de um lado, e Marcinho, do outro. Um dos dois completará esta tarde a saga de queda e glória que as melhores histórias costumam proporcionar.

No jogo da ida, a vitória do Vasco veio no minuto final, com gol de Andrés Rios — e com ela, a vantagem de jogar hoje pelo empate. O placar foi construído em falhas individuais. Ainda nos primeiros minutos, Paulão perdeu a bola para Renatinho na área, e o Botafogo abriu o placar. O zagueiro virou alvo da torcida, mas se recuperou e teve o nome gritado pelos vascaínos ao fim do jogo.

Do lado do Botafogo, uma história parecida. Depois de ser facilmente driblado por Riascos no lance do segundo gol do Vasco, Marcinho começou a ser vaiado toda vez que pegava na bola. A redenção veio também dentro dos 90 minutos. Depois de participar do gol de Brenner, o segundo, foi muito festejado pelos companheiros e chegou a ser erguido no colo pelo treinador Alberto Valentim.

JOGO PODE IR PARA OS PÊNALTIS

Será a terceira final em quatro anos entre Botafogo e Vasco no Estadual. Nas outras duas ocasiões, 2015 e 2016, o time da Colina levou o título. A igualdade no placar é suficiente para repetir o feito. Já o Alvinegro será campeão se vencer por dois gols de diferença.

Uma vitória simples do Botafogo leva aos pênaltis, cenário em que os dois times estarão bem servidos por mão de obra importada. Martín Silva defendeu três cobranças contra o Jorge Wilstermann, da Bolívia, e garantiu o time da Colina na fase de grupos da Libertadores; Gatito Fernández, por sua vez, alcançou a expressiva marca de oito pênaltis defendidos em 15 possíveis na temporada passada.

No jogo contra o Vasco, Marcinho viveu uma situação completamente nova na carreira: foi vaiado pela torcida. A razão foi um drible sofrido que acabou resultando no segundo gol do Time da Colina.

— Ele foi vaiado, mas deu a resposta em campo. Ele é da nossa base, se entrega, vamos precisar muito dele nessa final — disse o técnico Alberto Valentim, que abraçou Marcinho depois do segundo gol do Botafogo no último domingo, marcado por Brenner, com participação do lateral, demonstrando confiança no jovem, que já havia sido decisivo na semifinal, dando assistência para o gol da vitória contra o Flamengo.

Fugindo do perfil tradicional de jogadores de futebol, Marcinho não tem empresário. Leva a carreira com os conselhos do pai, Sérgio, que foi jogador de futebol e é irmão dos treinadores Oswaldo de Oliveira e Waldemar Lemos. O lateral ainda concilia a vida de jogador com a faculdade de Administração, mas, por falta de tempo, só está cursando uma matéria neste semestre.

— Dava mais conselhos na época da base. Agora que ele é profissional, tem um treinador excelente para dar dicas. As vaias acontecem, é normal, mas ele não se deixou levar, mostrou que tem maturidade — avalia o tio Oswaldo de Oliveira, último técnico campeão carioca com o Botafogo, em 2013.

Aos 21 anos, Marcinho já conhece bem a roda-gigante que é a vida de um jogador de futebol. A primeira vez entre os profissionais foi em 2016. Apenas dois jogos, sempre entrando no segundo tempo. No ano seguinte recebeu chances reais do então treinador Jair Ventura. Foram nove partidas seguidas, até a sequência terminar mal, com uma entorse no joelho direito.

Recuperado, começou 2018 como terceira opção para a lateral-direita, depois de Arnaldo e Luís Ricardo. A volta só aconteceu 11 meses depois da lesão, em jogo contra o Nova Iguaçu, na primeira rodada da Taça Rio, logo depois da chegada de Alberto Valentim. Ele deu conta do recado e não saiu mais: já são dez jogos seguidos atuando desde o início, a melhor sequência da carreira.

No primeiro jogo após ser vaiado, Marcinho será novamente titular e pode terminar o domingo conquistando seu primeiro título como profissional.

Paulão desembarcou no Aeroporto Santos Dumont, na última quinta-feira, depois da boa partida contra o Cruzeiro, como se fosse um dia qualquer: o fone de ouvido pendurado no pescoço, a mala da viagem na mão direita, um tablet e um livro na esquerda. Atendia a imprensa e posava para fotos com um sorriso sereno. Nem dava para imaginar que dentro dele ocorria uma pequena revolução.

A primeira pista de que algo diferente acontecia com o jogador era o livro de autoajuda que devorou no voo de Belo Horizonte para o Rio. A leitura é parte do treinamento que se dispôs a fazer no dia seguinte à atuação ruim no primeiro jogo da final do Carioca, no domingo passado. Depois da falha em campo e dos ataques racistas que sofreu nas redes sociais, aceitou o convite para se encontrar com um coach.

— Ele me procurou antes da partida contra o Botafogo e, para você ver como são as coisas, depois daquele jogo nos encontramos. Tivemos uma conversa muito franca, me ajudou muito.

No primeiro encontro, José Andrade deixou o zagueiro do Vasco com um dever de casa: ler o livro “O poder da ação”, de Paulo Vieira. Nele, o autor fala sobre o “merecimento de abundância”, defende que apenas o necessário não é suficiente na vida das pessoas, que o conformismo com o pouco é sinal de mediocridade. Paulão pode transpor essas palavras para sua vida. Depois da atuação pobre contra o Botafogo, sobrou defensivamente no jogo do meio de semana, pela Libertadores.

— O coach me ajudou muito nessa concentração, para que o jogo contra o Cruzeiro pudesse ser tão bom.

Fonte: Extra Online