Um dos maiores ídolos recentes do Botafogo estará em campo neste domingo, no estádio Moça Bonita, no Rio de Janeiro, perante os botafoguenses. Loco Abreu, 40, foi campeão carioca, fez 63 gols em 106 jogos pelo clube alvinegro, mas hoje dividirá as torcidas no local porque é justamente no Bangu, equipe onde é o camisa 113, que vem cativando o público e que encabeça um ousado projeto de retomada da equipe da zona oeste.

A “Operação Loco Abreu”, como foi batizada pelos seus idealizadores, já é vista com sucesso. O time conseguiu atrair a atenção da mídia, melhorou a média de público e faz o clube vender dezenas e dezenas de camisa como não acontecia há muito tempo.

“Quando começamos a pensar no processo de reestruturação e no resgate da imagem de um clube tradicional, querido no Rio de Janeiro, começamos a pensar em nomes que pudessem agregar dentro de campo e que pudessem também emprestar sua imagem, de certa forma como um embaixador. Alguns nomes surgirem e dentre eles o do Loco Abreu”, disse Luiz Henrique Lessa, diretor-executivo do Bangu, para o ESPN.com.br.

Lessa foi um dos diretores que ligou para Loco Abreu quando ele ainda estava no Santa Tecla, El Salvador. Ficou surpreso ao ouvir um pedido para aguardar o final da participação do time no campeonato local. Loco Abreu não queria faltar com profissionalismo.

A segunda surpresa ocorreu após o contato em que Lessa e os demais dirigentes do Bangu tiveram a chance de apresentar o projeto do Bangu para o uruguaio.

“Obviamente, ele já tinha ouvido falar do Bangu, já tinha jogado contra o Bangu em campeonatos cariocas, mas possivelmente não conhecia a história. Apresentado o projeto, ele já veio com informações sobre a história do clube, sobre o passado vitorioso, o vice do Brasileiro de 85… ou seja, obviamente que para ele a proposta não tinha de atender um desejo financeiro, e sim ‘Para onde estou indo e por que isso faria sentido para minha carreira, que é vitoriosa e com a qual já realizei tudo que gostaria de realizar?’. Sentimos o desejo dele de fazer parte de um projeto até maior”, relembrou.

Lessa reflete a empolgação e a injeção de ânimo dada ao Bangu por Loco Abreu. Os mais jovens ganharam um ídolo para se inspirarem. Especialmente no comportamento, como gosta de ressaltar Rodrigo Costa, que se intitula agente oficial do Bangu.

Costa, aliás, é quem recebe os créditos pela vinda de Loco Abreu. Amigo do uruguaio desde 1998, ele sugeriu o nome do atacante logo nas primeiras reuniões.

“Foi o projeto de dois loucos. Da minha parte em oferecer e da dele em ter aceito o convite (risos). Ele fez conosco o que fez na maioria dos clubes em que passou, deixou um legado. Às vezes com títulos ou na maneira de trabalhar, ele agrega muito para nós. Ele fez todos do clube crescerem nos mais variados departamentos”, disse Costa.

Um caso conhecido dentro do Bangu e que é usado até para elogiar a conduta de Loco Abreu é o empenho dele para quem um roupeiro não fosse demitido. Como o funcionário tinha família (mulher e filhos) e uma situação de vida modesta, o uruguaio conversou com o presidente do clube e o treinador para que não fizessem isso. E conseguiu.

“Loco Abreu é um atleta muito preocupado com o meio em que ele interage. Os atletas do Bangu são muito humildes, de origem pobre e vivem uma realidade completamente diferente a dele, que já jogou duas Copas do Mundo. E a gente vê ele sempre muito preocupado. Ele diz ‘Tem de viabilizar a alimentação dos meninos. Eles chegam muito cedo e tem de sair daqui com almoço já’. Está sempre a disposição”, disse Lessa.

Toda essa animação é compartilhada por Loco Abreu.

“O Bangu é um clube de muita tradição. Hoje está vivendo de um passado de glórias e precisa resgatar isso passo a passo. Foi montado um projeto por gente séria e que precisa de tempo para dar resultado, mas só mudar a mentalidade já é um grande passo. Não da pra achar que poderíamos ganhar títulos logo de cara. O foco é formar uma equipe, uma mentalidade que possa levar o clube ainda este ano a fazer um ótimo Brasileiro (joga a Série D). Estou gostando da seriedade e da forma profissional que as coisas estão sendo pensadas”, disse o atacante de forma exclusiva para a reportagem.

Hoje, o novo ídolo dos banguenses quer fazer do jogo um dia especial pelo reencontro com as cores onde não é esquecido, provando que o passado pode inspirar o novo presente.

“Vai ser um momento especial com certeza. Claro que no momento estou querendo é ajudar muito o Bangu, o clube que me contratou e está apostando num trabalho. Mas sei que vamos ter uma emoção especial neste jogo”, disse Loco Abreu.

“Fizemos a apresentação de Loco em 27 de dezembro. Daquele dia até hoje, nosso fornecedor de camisa vendeu 300% a mais do no ano passado inteiro”.

Assim, Lessa resume rapidamente o que chama de sucesso imediato de Loco Abreu no Bangu. Segundo o dirigente, houve uma aceitação rápida dele.

“Nos jogos do Bangu você consegue ver a quantidade de camisas do Loco Abreu. O retorno financeiro foi bem importante, mas o mais importante é ver um torcedor que há pouco tempo não tinham nem motivação para ter uma camisa do Bangu agora interessado”, completa ele, relembrando que parte importante do projeto era cativar os torcedores, especialmente as famílias, para voltaram ao Moça Bonita.

A vinda de Loco Abreu motivou até o planejamento de um programa de sócio-torcedor. Algo que é complexo. O motivo principal é o calendário do time banguense.

Hoje, a equipe briga para não ser rebaixada no Campeonato Carioca. Depois irá disputar a Série D do Brasileiro, última divisão nacional. E com poucas receitas.

Ainda que o presente seja duro, o projeto que trouxe Loco Abreu ao Bangu tem como pauta o futuro do clube. Por isso o aumento no número de venda de camisas, a volta do público – a atual média de público é 2.215 pagantes por jogo, com renda média de quase R$ 120 mil brutos – e até a reconstrução da identidade banguense são festejadas.

O Bangu convidou 30 jovens de família bem carente para treinar na categoria sub-17. Eles foram selecionados a partir das finais da Taça das Favelas, campeonato amador. “A ideia é dar uma oportunidade, uma chance, para esses meninos. Claro que nem todos podem vingar, mas ao menos aqui eles terão uma base de aprendizado, poderão virar atletas e ter uma oportunidade na vida. É o futuro deles e do Bangu”, disse Lessa.

Loco Abreu é o “embaixador” desse projeto e a diretoria cita que, assim que os meninos chegaram ao clube, todos queriam tirar fotos com o uruguaio.

“E ele fez questão de atender a todos. Ficou lá esperando e demonstrou preocupação para que todos tenham boas condições no clube, sejam bem tratados”, disse Lessa.

Loco Abreu tem contrato até o próximo dia 2 de maio. Hoje, ninguém no clube sabe dizer se haverá forma de fazê-lo continuar, especialmente pela queda das receitas após o encerramento do Campeonato Carioca.

“A gente gostaria. Ele tem sido muito importante, mas a questão é como viabilizar isso? As receitas na Série D quase não existem, mas o projeto continuará”, explicou Lessa.

Para que ele continue, é preciso que o clube consiga parceiros que ajudem a bancar os custos. A ideia do Bangu é tentar o acesso à Série C, é claro. Mas formar um time forte é visto com uma missão bem difícil. No entanto, aqueles que vivem com o uruguaio no dia a dia sentem com o jogador, aos 40 anos, tem motivação para ficar.

“Eu fui contratado para trazer a imagem e também por conta daquilo que represento esportivamente. Vim como artilheiro e sei que de um centro que as pessoas não acreditam muito, que é a América Central, mas estou ciente do meu papel. Sou parte de uma engrenagem, mas todos têm sua importância”, reflete Loco Abreu.

Fonte: ESPN.com.br