A Rede Globo de Televisão foi desafiada pelo Santos. De forma isolada, a reação do Santos representa uma manifestação de repúdio à desigualdade impetrada pela Globo na divisão das cotas de TV pagas aos clubes e aos consequentes efeitos nefastos sobre o futebol brasileiro. De forma conjunta, com a adesão de outros clubes, pode se transformar em um movimento pela democratização das transmissões esportivas no Brasil. Entenda.

O monopólio da Globo pode estar com os dias contados. Conforme levantado pelo colaborador do Torcedores.com Glauco Costa, a partir de apuração do jornalista Ricardo Perrone, em seu blog, o Santos recusou a proposta de renovação com a Rede Globo de Televisão até 2020 e abriu negociação com o canal Esporte Interativo. Os contratos atuais terminam em 2018 e a Globo desejaria uma renovação de 2 anos, com redução substancial, que seria compensada por um adiamento.

O complicador da questão está na legislação brasileira. A lei nº 9615/1998 institui o direito de arena: “Art. 42.  Pertence às entidades de prática desportiva o direito de arena, consistente na prerrogativa exclusiva de negociar, autorizar ou proibir a captação, a fixação, a emissão, a transmissão, a retransmissão ou a reprodução de imagens, por qualquer meio ou processo, de espetáculo desportivo de que participem.”. Com isso, temos o seguinte impasse, caso dois clubes negociem com duas emissoras diferentes os seus direitos, não há possibilidade de transmissão televisiva. Algo que só poderia ser amenizado com a adesão de clubes em bloco a uma opção ao canal que hoje representa o monopólio.

Para além do complicador, há também uma urgência. O jornalista e editor do Torcedores.com, Renan Prates, divulgou a matéria veiculada pelo jornalista André Barcinski, para a Folha de São Paulo, na qual o autor opina sobre o abismo na divisão dos valores pagos pela Globo aos clubes referentes às cotas de TV. Segundo apurado por Barcinski, o Santos receberá, em 2016, menos de 50% do oferecido ao Corinthians. Tal disparidade é decisiva no planejamento das equipes visto que, no Brasil, os valores com direito de transmissão são a principal fonte de recursos entre os clubes da elite do futebol.

O “NÃO!” do Santos é emblemático e representa alguma esperança no mar de passividade dos principais clubes brasileiros frente ao favorecimento descabido da Globo, que só contribui a cada dia para o aprofundamento da crise no futebol brasileiro e para a desvalorização de nossas competições enquanto produto, cada vez mais evidente com o assédio irreversível de clubes de países com menor tradição no esporte. O “NÃO!” do Santos isolado é um grito de repúdio, mas pode ser um ponto de partida para que outros clubes se mobilizem em um boicote que retire a Rede Globo da Televisão do pedestal em que se encontra. O futebol não é um produto da Globo, é um produto do povo brasileiro. O torcedor pode fazer a sua parte, exigindo mudanças na legislação, exigindo uma postura combativa dos dirigentes de seus clubes, e se manifestando em prol da democratização das transmissões esportivas no Brasil.

Fonte: Torcedores.com