O jogador problema tem 27 anos. Reunido o tempo em que esteve em campo, praticando profissionalmente futebol, é possível que se chega a dois ou três anos. Pouco. Especialmente se o internauta lembrar que Jobson foi símbolo de vitória – algo maior do que a esperança depositada nele. Seu surgimento, no Botafogo e no futebol, em 2009, marcou uma época: ajudou a tirar do limbo o clube que corria risco de amargar sua segunda derrocada em seis anos: a segunda divisão.

Flagrado em exames antidoping, foi emprestado e esteve prestes a encerrar a carreira. Até que finalmente, no carioca do ano passado, parecia ter calibrado a bola e o juízo. Mas o passado lhe cobrou uma conta em aberto: foi suspenso pela Fifa, às vésperas da decisão do Carioca, porque se recusou a fazer exame de dopagem durante sua passagem pelo futebol árabe.

A punição da Fifa foi severa. Praticamente previu seu afastamento definitivo do futebol. E ainda poderá ser. Mas eis que, dez dias antes daquela sentença que poderá lhe custar a vida como jogador, o clube que o protegeu e projetou decidiu abandoná-lo.

A decisão, que custará a imagem da instituição Botafogo, de tantas tradições e grandeza, se baseia em assunto menor. O advogado Bichara Neto, que assiste Jobson, é o mesmo que defendeu o direito de William Arão abandonar o Botafogo e seguir sua história de esportista no rival Flamengo. Com isso, o Botafogo não paga o que deve a Jobson (R$ 400 mil). A quantia permitiria que o jogador fosse a Suíça. Ao reter o dinheiro, a direção do clube impede que o recurso chegue ao advogado e garanta sua estada na Corte Arbitral do Esporte (CAS), em Lousanne, no dia 22. A trama soa sórdida, confusa e covarde.

A decisão, pelo que tem sido noticiado, é da lavra do presidente Carlos Eduardo Pereira. A sensatez, em geral, se fez elemento raro no Botafogo quando o momento exige a razão. Em episódios recentes isso ficou claro. O chamado “eterno presidente do Bota”, Carlos Augusto Montenegro, defendeu a devolução do Estádio Nilton Santos quando um laudo acusou problemas estruturais na construção. O Botafogo perderia o status de único clube do Rio a ter um bom estádio, que poderá gerar receita, por conta da bravata intempestiva do milionário dono do Ibope. Passado o tempo, o estádio retornou e vai sediar importantes competições das Olimpíadas do Rio – se o clube quiser (e seu marketing souber) poderá faturar ao associar a imagem.

Ainda no ano passado, seu vice-presidente, Antonio Carlos Mantuano, invadiu o vestiário do clube para defenestrar jogadores e pedir a cabeça do artilheiro da equipe, Bill. A razão: o atleta acabara de perder um pênalti. Em vez de força e consolo, o rompante do dirigente atuou para quebrar a cordialidade e o respeito.

CEP (apelido de Carlos Eduardo Pereira) tem se destacado pelo trabalho de formiguinha que faz no Glorioso Botafogo. Salários em dia, acordos de pagamento e contratações equilibradas. Conquistou o título da segunda divisão e não fez feio na competição regional. Tende a entrar para a história do clube como o dirigente que o reergueu. Mas, a bola fora no caso Jobson pode surrupiar a imagem em construção. Poderá ser aquele dirigente que sepultou em vida um atleta. Jogador que, é bom lembrar, ajudou ao clube em momento chave.

A relação do advogado Bichara com o Botafogo é e deverá ser sempre nenhuma. Como um profissional em busca de honorários agirá contra ou a favor – dependendo de quem pague. A de Arão, o jogador que tirou e levou para a Gávea, idem. Mas o abandono do Jobson é mácula que entrará para a história de um clube centenário. O Botafogo é o clube que melhor trata e preserva seus ídolos – mesmo os problemáticos. E diz o estatuto dos homens de bem que não se deve agir covardemente com quem está de joelhos e precisa de ajuda. Cabe ao grande enfrentar os grandes e agir como tal.

A Gloriosa trajetória do Botafogo está sob risco. Que, desta vez, prevaleça a grandeza.

Fonte: Conexão Jornalismo