Ao longo de sua trajetória no futebol, Jefferson foi comandado por figuras expressivas. Foi com Luiz Felipe Scolari que teve a primeira oportunidade nos profissionais, quando ainda era um garoto promissor no Cruzeiro, de apenas 17 anos. Nesta quarta e última parte da entrevista exclusiva ao LANCE!, o agora ex-goleiro, no conforto de seu lar, não escondeu quem Felipão foi quem mais o marcou, além de responder sobre Jair Ventura, Marcos Paquetá e Flávio Tênius, preparador de goleiros de seu início e fim de carreira.

Como se deu o papo com Felipão assim que ele o promoveu aos profissionais, lá em 2000?
Quando eu subi (para o time de cima), o Felipão me chamou na sala dele e disse: “Vou te promover para os profissionais, mas você terá que seguir estudando. Vamos te preparar para ser o goleiro titular do profissional. Duas semanas depois, aconteceram as lesões do André e do Rodrigo Posso. Estava treinando, mas o Felipão viu que eu estava tenso. No dia da estreia (vitória contra o Guarani, pela Copa João Havelange-2000, por 1 a 0), ele falou algo que mexeu comigo: “Quero que fique tranquilo e faça o seu jogo. Não estou nem aí sobre o que vão falar ou quantos gols vai tomar. Você é em quem eu confio. Você é o titular do Cruzeiro”. Aquilo tirou um peso, uma responsabilidade enorme de mim. Entrei como se estivesse no juvenil. Isso faz a diferença, é muito melhor que alguém falar que aquela chance pode ser a sua última.

Felipão foi o técnico que mais te marcou?
Foi o Felipão, sim. Ele e o Murtosa (antigo auxiliar do atual treinador do Palmeiras) me deram muita força. Dentro e fora de campo.

Já esse ano, muito se falou a respeito da metodologia de Marcos Paquetá, que acabou não dando certo no Botafogo. O que deu errado ali?
Acredito que a cultura de trabalho. Lá fora (Paquetá ficou 14 anos distante do futebol brasileiro), tem certo tipo de treinamento, ritmo e, aqui, é bem diferente. Não que haja certo ou errado, mas não tem tempo para trabalhar no Brasil. É preciso mostrar resultado. Nas primeiras sessões de treinos, foram muitas novidades… um choque. Não deu tempo para absorver as informações do Paquetá. Os treinos eram muito bons, mas as mudanças foram muito bruscas. Com dez dias, ele reuniu o grupo e falou: “Vou mais devagar porque vi que vocês não estão conseguindo pegar o ritmo”. Ele realmente foi mais devagar, só que não dá para mudar uma filosofia em dez dias.

Outro recente treinador seu foi o Jair Ventura, que não teve um bom ano. Como avalia o potencial dele?
O Jair é um cara muito novo. Tem muito o que crescer no futebol. Pegou um time, aqui, com um pessoal bem dedicado, até taticamente. Hoje, no futebol brasileiro, tem muitos treinadores que ficaram um ano só estudando. Foi tudo muito rápido na carreira dele. Creio que ele vai ter que dar uma autalizada como o Tite fez, como o Ney Franco fez. Potencial ele (Jair) tem, mas creio que ele vai precisar ter uma estratégia de tática, de gestão de grupo, que é fundamental… não é só dar treino. O Felipão, por exemplo, é completo. O Tite é completo. Eles têm os dois (tática e gestão) no controle.

Voltando um pouco. consegue entender por que não deu certo na Turquia?
Foi uma escola onde eu amadureci na vida. Casei e fui para lá novo, na casa dos 20 anos. Uma cultura totalmente diferente. Treinamento diferente. Felizmente não sofri preconceito, pelo contrário, me receberam super bem. Porém, profissionalmente, não foi nada bom para mim. Não havia um trabalho específico para goleiro. Chegou uma época que eu pensei: “cara, não é possível, parece que desaprendi a jogar futebol”. Eu não treinava, não tinha nada de alimentação balanceada. Fui caindo de rendimento. Eu tentava, mas não dava. Já peguei treino que o preparador de goleiro não amarrava nem a chuteira. Batia cinco bolas e era só. Eu tinha que aquecer com o grupo, treinar de posse de bola com os outros jogadores e não tinha nada de específico. Se eu tivesse a oportunidade de levar um preparador de goleiros do Brasil, seria muito mais vantajoso para mim. Isso me afetou até para ir para a Seleção.

Por falar nisso, o (Gustavo, vice-presidente de futebol) Noronha disse que o Flávio Tênius era o Pelé da preparação de goleiros. Você subiu com ele no Cruzeiro e encerrou com ele no Botafogo. Concorda com a declaração?
O treinamento do Flávio (Tênius) é muito técnico, então ele consegue lapidar o que há de melhor no goleiro. Ele é muito inteligente nesse sentido, também lançou Gomes, Julio Cesar, e eu também tive a oportunidade de subir com ele no Cruzeiro. Ele é impressionante.

Fonte: Terra