Artur Jorge está na história do Botafogo como o técnico campeão da Libertadores em 2024 (além do título brasileiro). Em entrevista ao “Charla Podcast”, o hoje treinador do Cruzeiro fez um relato emocionante sobre a conquista e, principalmente, sobre a final vencida em cima do Atlético-MG.
O jogo começou com Gregore expulso aos 30 segundos. A decisão de não mudar o time foi a mais difícil da vida de Artur Jorge?
– Não, não foi. Também muito pelo Milito. Obviamente que nós ficamos também a tentar perceber o que é que o adversário ia fazer, e o adversário por exemplo não abdicou dos três zagueiros, o que nos ajudou também. Esse é um ponto. O segundo ponto é imediatamente quando isso acontece nós pensamos “estamos perdidos, tanto trabalho, tantas lutas enormíssimas e gigantescas para conseguir chegar àquele ponto e do nada parece que tudo tinha desabado”. Que é quando pomos o Danilo imediatamente pronto para podermos pensar em alguma alternativa. Mas depois aquilo que conversamos enquanto equipe técnica, naquele momento era tentar adaptar o plano aos jogadores que tínhamos dentro de campo. E aí vem aquilo que eu já o disse muitas vezes, só se consegue com os jogadores de uma fibra diferente, só se consegue com os jogadores de uma alma e de um coração maior – destacou Artur Jorge.
– Aqueles que tiveram que mudar de posição ou pelo menos ajustar, o Marlon (Freitas), que era o jogador de ligação e que era o jogador que ia fazer a transição de defesa-ataque, foi um jogador que se teve que encostar à linha dos zagueiros para fazer o papel que o Gregore estava para fazer. O Savarino que teve que fazer e baixar para a posição do Marlon, segundo volante, que se ajuntou mais dentro dele. E os dois extremos o (Thiago) Almada e o Luiz Henrique que defenderam como eles defenderam, foi uma forma impressionante para mim que quando estou e vejo e desfruto daquilo que os dois estão a fazer, aquilo veio-me e encheu-me a alma por aquilo que foi feito enquanto trabalho. Não de talento puro e duro, que são os dois, mas de trabalho, empenho e dedicação à causa da equipe – elogiou.
A história começou a mudar no gol de Luiz Henrique.
– Teve o primeiro remate do Marlon, fica ali presa, gol. Naquela altura nós fomos começando a sentir os dez primeiros minutos, 15 minutos até porque sofremos algumas tentativas mas fomos resguardando e fomos aguentando. Mas é o momento em que tu vais percebendo o que é que o jogo te vai dar. Nós somos muito preventivos, mas depois durante o jogo somos e temos que ser muitas vezes reativos. E nessa circunstância muito mais. Vimos uma equipe que se foi aguentando e que foi mostrando a tal personalidade. Os valores estavam lá, todos os valores de compromisso, de seriedade, de personalidade, estavam lá. Todos estiveram sempre todos lá. E depois aquilo que foi a sequência do primeiro gol, o segundo gol, outra vez nós começamos a partir dos dez, 12, 15 minutos começamos a deixar de só estar no nosso meio-campo defensivo onde temos aquela que é a primeira pressão, normal, mas depois começas a acreditar que é possível. E consegues e chegas lá uma vez, chegas duas e fazes gol e fazes outro, vai trazendo e do outro lado vais sentir o contrário. Não conseguiram entrar, não conseguiram ter uma grande oportunidade, uma coisa que pudesse empolgar. Não tivemos e fomos sempre muito seguros – disse Artur Jorge.
O treinador explicou por que não tirou um jogador ofensivo para recompor o meio-campo após a expulsão.
– É porque nós não podíamos abdicar de tanto talento e compromisso na frente, porque precisávamos marcar gol, nós tínhamos que ganhar o jogo. Eu diria que 90 minutos foi possível, 120 eu duvido. Era encostar às cordas e seria muito difícil, nós precisávamos fazer um gol. Se tens um segundo jogo, ou o que seja, vais ficar e ficavas ali provavelmente. Mas naquele momento tu tinhas que… E depois é a intuição também, é sentido. O que conversamos e aquilo que falamos é o acreditar, é o saber que estávamos bem seguros daquilo que tínhamos também de humanidade dentro de campo – afirmou o treinador, que controlou suas emoções.
– Eu não sei se é fácil explicar o sentimento, provavelmente não. Já por isso é um sentimento. Mas nós, à medida que os anos e os jogos e as decisões e as dificuldades, vamos ficando cada vez mais imunes. Mas aquilo era de fato, foi um jogo de grande emoção onde eu tinha ou procurava ter, tinha um coração de 170 pulsações e procurava ter uma cabeça mais fria para poder controlar essa emocionalidade. Porque eu sei também, e dentro daquilo que é a liderança e a gestão, é a racionalidade que acaba por vencer. E tinha que estar e tentar estar o mais próximo da razão para tomar as melhores decisões e estar o mais tranquilo possível porque isso também se passa para dentro e os jogadores sentem e vão percebendo isso. Mas claro que tive alguns calafrios naquela parte final. Tive e sofri muito aquilo que acaba por nos apertar o coração de uma forma que tudo nos parece estar tão perto mas que nunca chega à hora – lembrou Artur, contando a reação após o jogo.
– É desabar. Aí não tens como. É desabar, é cair tudo por terra. Aí não tens como. Concretização. Não digo desabar de uma forma física. Porque é perderes a força toda que tens. É tudo aquilo que te mantém em pé, o jogo e a determinação que é aquilo que vem de dentro, aquilo que é a adrenalina dentro de nós naquele momento é cair. Não teres algo ou nada que te sustente porque a tua força foi sugada ao limite. A energia desapareceu – concluiu.