Expulso com 30 segundos de jogo, Gregore quase virou vilão na final da Libertadores entre Botafogo e Atlético-MG, em 2024. Contudo, o time superou o fato de ter um jogador a menos e foi campeão com uma vitória monumental por 3 a 1 em Buenos Aires (ARG).
Em texto escrito para o jornal “O Globo” neste domingo (30/11), Gregore, hoje do Al-Rayyan, relembrou a decisão e o título, em tom emocionado.
– A expulsão acontece muito rapidamente. É uma bola que eles chutam, o Barboza rebate, e ela fica alcançável para mim. Quando viro para a segunda bola, escorrego, e o Almada já está tentando desestabilizar o Fausto Vera, que vem caindo. Eu fui para dar um biquinho na bola, mas cheguei atrasado por causa do escorregão e acabei dando a solada. Quando vi que acertei, fiquei muito preocupado. O árbitro estava perto e deu só cartão amarelo, mas, ao ver o sangue na cabeça do Fausto, sabia que a cor do cartão iria mudar. O juiz demorou muito a reiniciar a partida, ficou ouvindo o microfone. Pensei: “vixe, fodeu!” – contou Gregore.
– Naquele jogo, o vermelho teve um peso diferente, porque havia muita coisa envolvida. Era a partida mais importante da história do clube, e eu tinha ciência disso. Foi um dos dias mais difíceis da minha vida. Mas que me fez mais forte. Depois daquele momento, evoluí como pessoa e vi o tanto que sou capaz de suportar – acrescentou.
Gregore, expulso, foi direto para o exame antidoping. Ele explicou como foi ver o jogo de uma forme diferente.
– Fiquei uns 20 minutos lamentando, enquanto o cara do doping tentava me acalmar. Depois de um tempo, sentei e comecei a assistir ao jogo da televisão de lá. Ali foi fé total, orando pelos meus companheiros. Só os representantes da Conmebol podiam entrar na sala. Mas o segurança do Botafogo foi até lá para me tranquilizar e dizer que minha família, que foi ao estádio, estava bem. Soube que havia saído o primeiro gol por causa do barulho da torcida, mas fiquei perdido sem saber de quem era. Quando a TV mostrou o lance do Luiz Henrique, extravasei: chutei as garrafas de água, joguei a cadeira no chão… Foram os 75 minutos mais longos e tensos da minha vida, porque não tinha o que fazer. Por ter sido expulso, a responsabilidade estava nas minhas costas. Futebol tem dessas. Se você está disposto a lutar por grandes sonhos, também está sujeito a grandes erros – escreveu.
– Quando me liberaram da sala do doping, fui para a entrada do túnel que dá acesso ao campo. Comecei a vivenciar aquele ambiente da final, a atmosfera do jogo. Vi os lances perdidos pelo Vargas e o gol do Júnior Santos. Só senti alívio quando o juiz apitou o fim do jogo. Entrei em campo depois, mas não consegui comemorar, porque estava meio em choque, assimilando o que aconteceu. Os jogadores vieram me abraçar e desabei na hora, comecei a chorar. O sentimento foi de alegria. Aquele título de Libertadores coroou o trabalho. Depois do jogo, meus companheiros me deram uma zoada. Até hoje, eles falam da expulsão. Já paguei churrasco para todo mundo. A dívida ficou grande (risos) – brincou.
Quis o destino que Gregore, dias depois, fizesse o gol que confirmou o título brasileiro, em cima do São Paulo, diante da torcida, no Nilton Santos.
– A gente vem para fechar o ano contra o São Paulo e, olha como as coisas são, eu quase não jogo. Numa partida contra o Athletico, na Arena da Baixada, eu caio de mal jeito e machuco as costas. Tinha jogo que eu tinha que fazer manobra para jogar, e nesse contra o São Paulo, joguei o primeiro tempo e pedi para sair no intervalo. Estava com muita dor. O doutor (Gustavo) Dutra me deu uma injeção para eu continuar e no finalzinho eu roubo a bola e faço o gol do título. Na comemoração eu extravaso. Até choro porque só eu sei o que passei naquela semana. Eu viveria o gol do título de novo, mas sem a expulsão. Não precisa passar essas coisas não (risos) – complementou.








