O Botafogo vive um cenário de grande incerteza, com transfer ban, dívidas com jogadores e sem perspectiva de um acordo entre John Textor, Eagle Football e Iconic em 2026. No programa “Redação SporTV” deste sábado (24/1), o jornalista e pesquisador Irlan Simões destrinchou a atual situação da SAF alvinegra e disse que não se pode descartar a possibilidade de ela falir ou ser liquidada pelos acionistas.
– Vou dar uma opinião breve, não estou querendo prever o futuro, mas só apontar uma possibilidade. Existem duas vias do Botafogo nesse momento, ao meu ver: ou encontrar um novo investidor, num cenário que não vejo muito interesse, muito menos num clube que já acumula 1 bilhão de dívidas só na SAF, não é dívida da associação… E um cenário muito complicado que pode estar e precisa estar em perspectiva é a SAF do Botafogo ser considerada pelo grupo Eagle, pelos controladores da Eagle, como uma SAF que precisa ser liquidada, ir à falência, porque ela é insustentável – disse Irlan.
– Os valores que envolvem a dívida do Botafogo são impagáveis, seja das dívidas antigas, seja das dívidas novas. Isso não pode deixar de estar na perspectiva, porque esse é o cenário que o Botafogo entrou em toda essa discussão de proteger o John Textor na situação onde ele estava descumprindo o contrato. De todo modo, a associação ainda tem alguns documentos que a gente vai acompanhar nos próximos meses – completou.
No programa, Irlan Simões passou a limpo a questão do transfer ban e a briga societária entre John Textor e a Eagle, explicando que o Botafogo deixou de ter acesso ao dinheiro europeu que antes transitava entre os clubes da holding, precisando agora “caminhar com as próprias pernas”.
– Duas notícias aconteceram nas últimas semanas são muitíssimo graves do ponto de vista da perspectiva de futuro do Botafogo, é algo que gera consequências do ponto de vista da própria confiança que se teria com investimentos estrangeiros, especialmente o John Textor, que chega com uma imagem muito forte de um grande investidor, bem-sucedido, com muitos recursos, e que se mostra agora que, na verdade, todo o negócio dele era baseado em empréstimos volumosos que ele não teve condições de alinhar de acordo com o plano de negócios. A estratégia montada para a Eagle era uma, que deveria estar pronta até meados de 2024, isso nunca aconteceu, e tudo que a gente está vendo agora é consequência de um grande desastre administrativo, na ordem da Eagle. O Botafogo, enquanto teve dinheiro, não vejo que foi mal gerido, o Botafogo usou esse dinheiro muito bem, contratou muito bem, montou times vitoriosos, o negócio é que do ponto de vista da estratégia do negócio, dessa estrutura chamada Eagle Futebol Holdings, o John Textor foi incapaz de fazer isso funcionar como deveria, e isso tudo que está acontecendo agora é consequência – disse.

– A primeira notícia pesadíssima é o transfer ban da compra do Thiago Almada, na ordem de R$ 114 milhões. O John Textor argumentou há meses atrás que o Botafogo não devia ao Atlanta United, porque um clube da MLS devia ao Botafogo, o Seattle Sounders, pela compra do João Paulo, e essa dívida poderia ser abatida, porque eram dois clubes da MLS e a MLS concentra os valores, os direitos comerciais de todas as suas franquias, um argumento que não se sustentava em nenhum cenário possível, porque a Fifa entende que paga tudo a um clube, e esse transfer ban finalmente chegou. Na verdade, é mais um caso de atraso de pagamento do Botafogo, razão pela qual a Fifa não quer só o pagamento, ela quer a garantia que o Botafogo realmente pode bancar tantas compras como foram feitas nos últimos anos, e qual era a ideia do Botafogo? Era comprar muitos jogadores parcelados, porque a estrutura da Eagle previa um fluxo de recursos e uma movimentação de dinheiro – continuou Irlan.
– O Botafogo estava baseado na chance de chegarem ao mesmo tempo dólares e euros. Os dólares de possíveis novos investidores, do possível IPO, da entrada da Eagle na bolsa, e por outro lado os euros, que seria esse dinheiro que circularia pela rede, através do Lyon, do RWDM Brussels, ou até do próprio Crystal Palace, ou de outro clube inglês possível, mas nenhum dos dois está mais acontecendo. Primeiro, porque já não existe mais a estrutura da rede, a administração do Lyon está completamente apartada do Botafogo hoje, o Textor não está mais envolvido com o Lyon e, por outro lado, ninguém mais consegue se aproximar ou quer se aproximar da Eagle, por causa dessa situação, e por outro lado a Ares está com a chave do cofre, não permite que o Textor contraia novos empréstimos, porque a Eagle em si já está totalmente alavancada, está embaixo de uma montanha de dívida, e ao que se entende é quase impagável no cenário atual.
– A segunda notícia é a derrota de um recurso que o Textor colocou contra um processo da Iconic Sports, que é um outro grupo de investimento. Esse é o cenário, de um lado a Ares controlando com a chave do cofre, do outro a Iconic ameaçando tomar boa parte do capital que está na mão do John Textor, e o John Textor no meio disso tudo soltando um monte de notícia. É um cenário do Botafogo que já se desenhava há muito tempo, mas quando a bola deixou de entrar e os jogadores começaram a sair, jogadores importantes começaram a mudar de clube, ficou claro que o problema é um pouco mais profundo do que parecia haver ao final do ano passado.
– O entendimento geral é de que esses acionistas que agora controlam o cofre, estão com a chave do cofre, no caso a Ares, é que a estratégia deles não é exatamente romper tudo agora na Eagle, embora existam aí litígios judiciais em vários países. Uma vez em que agora eles podem controlar esse fluxo dos recursos dentro da Eagle como um todo, eles sabem que isso vai gerar uma espécie de prejuízo à imagem do John Textor. Esse dinheiro não vai chegar tão fácil para o Botafogo como chegava antigamente. Existia esse fluxo necessário para pagamento de salário e para manter o elenco bem acertado e concentrado no seu futebol, enquanto os problemas administrativos e de ordem econômica da Eagle como um todo estavam em outra salinha, não se misturavam. A questão é que agora começou a se misturar, exatamente porque o dinheiro não desce mais, ele não chega mais. O Botafogo estava tentando se reestruturar porque ele já entendeu que dentro desse novo cenário da Eagle, ele vai precisar funcionar com a sustentabilidade própria, com os próprios recursos, não mais com essa movimentação desses euros ou desses dólares que vieram nesses últimos anos e fizeram o timaço que o Botafogo pôde fazer – completou.
Irlan, por fim, explicou também como a Ares pode agir em meio a tantos problemas.
– Ao que consta, o interesse da Ares é resolver esse assunto o mais rápido possível e vender pelo melhor valor possível. Vender o que? A Eagle junto? O Botafogo separado do Lyon? Tudo isso ainda está em curso. O fato é: ela não quer mais ver a Eagle, pelo nome do Textor, contraindo novos empréstimos, piorando sua situação econômica, e inclusive está disposta ela mesma a emprestar, o que agrava a situação do Textor, porque ela já é a maior credora, ela vai se tornar cada vez mais importante nesse cenário com a chance dessa dívida se transformar em participação acionária. O valor do transfer ban não é qualquer coisa, o cenário é pior porque o Botafogo é reincidente e tem vários outros para trazer – encerrou Irlan Simões.