Renato Paiva ainda guarda com mágoa da demissão do Botafogo. O treinador português está sentido com John Textor, que o mandou embora após a eliminação para o Palmeiras, nas quartas de final da Copa do Mundo de Clubes, em 2025.
– Há uma entrevista do senhor que me despediu, onde diz que me despede porque eu traí os meus princípios. Eu nunca pude responder nem quis, mas eu vou dizer que eu fui despedido exatamente porque eu não traí os meus princípios. Porque essa pessoa quis interferir constantemente no meu trabalho e eu não deixei. E esse é o verdadeiro motivo do meu despedimento. Não é o Palmeiras, não é a derrota no Mundial. Não é um beijo de três dias e depois despedido. Foi a oportunidade que ele encontrou para tomar uma decisão que na cabeça dele possivelmente já estava tomada por eu não permitir interferências no meu trabalho. Para mim é claro – reclamou Renato Paiva, em entrevista ao “Área Técnica, do “GE”, publicada nesta sexta-feira (6/3).
O treinador português citou exemplos de tentativa de interferência em seu trabalho, como questionamentos a escalações com três volantes com Allan e a Cuiabano de ponta.
– Cuiabano começa a fazer gols. Cuiabano começa a ser o melhor em campo em vários jogos. E eu recebo um recado de que não posso colocar o Cuiabano de ponta. Porque o Cuiabano tem que ser vendido como lateral. E eu pergunto: este senhor está preocupado com o Botafogo? Cuiabano é o que desequilibra, é o que faz gols, é o que ajuda o time a ganhar. Esta preocupação deste senhor é com o torcedor do Botafogo? Com o prazer do torcedor do Botafogo de ver a sua equipe ganhar e jogar? Ou com outra coisa? É a pergunta que eu deixo no ar – cutucou Paiva.
Desempregado após as passagens por Botafogo e Fortaleza, Renato Paiva questiona a forma que foi demitido do clube alvinegro.
– Ele tem todo o direito em despedir-me. Ficou muito feio como fez. Porque nós perdemos o jogo com o Palmeiras, vamos para o hotel, ele fala com o grupo, almoça, despede-se ao meu lado, estava a falar com o Cláudio Caçapa, ele vem, despede-se e diz-me: “keep going coach, keep going (vamos em frente treinador, vamos em frente)” . Eu jamais me esqueço. Um abraço e “keep going coach.” E é quando eles me informam do que tinha acontecido. Ele não despede ninguém. Ele manda despedir. Portanto, tem todo o direito de me despedir. Agora, como as coisas são feitas. É aquilo que dói. Em vez do “keep going coach”, ias a uma sala e dizias: “olha, eu não gostei do jogo do Palmeiras, eu não gosto do teu penteado, eu não gosto de como é que te vestes, eu sou o dono, vamos acabar o contrato”. Hoje, eu sei que ele me queria despedir. Mas depois, mandar os outros fazerem isso? – indagou.
O português admite que sentiu a saída do Botafogo.
– Foi o clube, a nível pessoal, que mais me marcou. E por quê? Pela qualidade humana e profissional de todas as pessoas do clube. No Botafogo, desde a pessoa que abria a porta, os seguranças, os senhores da grama, cozinheiro, o responsável pelo CT, o responsável pelo refeitório. Os diretores. Fantásticos comigo. O elenco. Fantástico. Uma relação extraordinária com todos os jogadores. Todos. E, portanto, em termos de qualidade humana e qualidade profissional, sem exceção, as pessoas com quem eu trabalhei no Botafogo são do nível superior. Em questões pessoais e profissionais, o Botafogo foi a equipe que mais me marcou e também foi a equipe onde eu senti mais a minha saída – declarou.
– Há coisas que tu não consegues esquecer e vais levar para a vida. Esta é uma daquelas que eu vou levar para o caixão. É ver um grupo de pessoas gigante manifestar o teu carinho e o teu respeito. Em pé, bater palmas. Eu falei com eles, com muita dificuldade. Mas, quando eu falo de Botafogo parte negativa, eu falo de uma pessoa. Uma pessoa. Eu quero que isso fique bem claro. Nem torcida, porque torcida tem a liberdade de decidir o que gostas, o que você não gosta, é 8/80, seja aquilo que for. É subjetivo – completou.