Ao longo dos últimos anos, acompanhamos de perto todo o modelo de gestão implementado por John Textor. No fim, tivemos um desfecho bastante traumático. Hoje vemos o Botafogo precisando se reorganizar de maneira profunda, precisando desesperadamente de um novo investidor e uma série de ajustes de rota para recolocar o clube no caminho correto.
Fica aquela sensação de que o Botafogo poderia ter avançado muito mais se não fossem as irresponsabilidades financeiras promovidas pelo Textor e pela Eagle. Lembrando sempre que o clube social também tem sua parcela de responsabilidade, já que não fiscalizou a SAF da forma como deveria.
Hoje, porém, vi uma estatística que chamou minha atenção: o Botafogo é o clube da Série A com mais gols marcados por jogadores sub-20. Isso me levou diretamente a uma reflexão sobre aquilo que, para mim, é o maior legado da era Textor.
Muita gente dirá que esse legado foi a conquista do Brasileirão e da Libertadores, ou a chegada de grandes jogadores. E, obviamente, tudo isso foi gigantesco. Nem preciso lembrar tudo o que vivemos em 2024 e até mesmo em 2023, quando começamos a recuperar nossa autoestima com aquele primeiro turno brilhante.
Mas, para mim, existe algo ainda mais transformador: a mudança de mentalidade em relação às categorias de base.
O cuidado com a formação de atletas, a valorização do recrutamento de jovens talentos, a melhora das instalações, a aproximação do sub-20 com o elenco principal ao levá-los para treinar no Lonier e a integração metodológica entre as categorias representam uma mudança estrutural no clube.
Esse trabalho começa a dar frutos. Ver as “joias do bairro” não apenas completando o elenco profissional, mas aumentando efetivamente a qualidade do time titular, é algo extremamente significativo.
Falando especificamente da dupla Huguinho e Justino, eles representam perfeitamente essa nova base do Botafogo: uma base construída sobre decisões bem fundamentadas, profissionais altamente qualificados e processos claros. Hoje, nada parece ser feito de qualquer jeito. Existe método, planejamento e propósito.
Por isso, eu realmente enxergo esse como o maior legado da era Textor. Alguém pode argumentar: “Mas ele fez tudo isso pensando em vender jogadores.”
E certamente esse foi um dos principais objetivos. Mas isso não diferencia o Botafogo de nenhum outro clube brasileiro. Todos precisam revelar atletas e negociá-los para gerar receitas. Essa é uma realidade do futebol brasileiro, não só do Botafogo.
A diferença é que, durante muitos anos, o Botafogo simplesmente não fazia isso de maneira consistente. Com exceção do período de Maurício Assumpção, quando houve um cuidado um pouco maior com a base, nunca existiu um projeto tão profissional e profundo quanto o implantado na SAF.
É claro que ainda estamos longe da estrutura ideal. Ainda precisamos evoluir pra cacete. Mas é impossível negar o salto de qualidade que a nossa base deu nos últimos anos.
Por isso, a chegada de um novo investidor é importante. O aumento das receitas com televisão e patrocínios também é. Mas revelar jogadores capazes de resolver partidas dentro de campo e, ao mesmo tempo, gerar valor financeiro fora dele talvez será o principal fator para que o Botafogo dê o próximo grande salto.
Um Botafogo forte, competitivo e financeiramente saudável passa, obrigatoriamente, por uma divisão de base capaz de abastecer o time principal com jogadores de qualidade.
É claro que todos sonhamos em revelar um novo Neymar, um novo Luiz Henrique ou um novo Almada. Mas talvez o mais importante seja transformar a base do Botafogo em uma verdadeira linha de produção de talentos, mantendo um padrão elevado de qualidade e consolidando a imagem do clube como um grande formador de atletas.
Isso muda o jogo. Muda o futuro do clube.
E o melhor: de forma totalmente orgânica. De uma maneira que faça o Botafogo depender cada vez menos da vontade ou das decisões de qualquer investidor, seja ele brasileiro ou estrangeiro, bom ou ruim. Um Botafogo que caminha com as próprias pernas necessariamente passa por uma base forte e de excelência.
Foi justamente essa reflexão que tive ao terminar de analisar todo esse processo. Apesar de todos os erros cometidos durante a gestão do Textor, acredito que seu maior legado tenha sido mostrar ao próprio Botafogo a importância estratégica das categorias de base.
O futuro com um Botafogo forte, vencedor e sustentável passa, inevitavelmente, por uma base de excelência.