Em A Revolução dos Bichos, George Orwell conta a história de animais que se rebelam contra um sistema, tomam o poder prometendo construir algo melhor e, aos poucos, descobrem que os novos donos da fazenda também aprendem a usar o poder em benefício próprio. Entre discursos, propaganda e manipulação, havia sempre um recurso eficiente para calar qualquer questionamento: lembrar como tudo era ruim antes. No Botafogo de hoje, a sensação é de que alguém resolveu adaptar Orwell para General Severiano. E parece que encontraram uma solução para praticamente qualquer problema: usar os erros de John Textor como muleta.
O Botafogo não consegue contratar? A imagem do clube estaria arranhada no mercado por culpa da gestão passada. Mas não era a nova administração que dizia estar colocando tudo em ordem? Não era justamente esse o discurso de que os problemas estavam sendo resolvidos, as relações reconstruídas e o Botafogo voltando a ser confiável? Não há garantias da GDA? Como outros clubes em situação crítica conseguem se movimentar?
O caso de Franclim Carvalho talvez seja um dos melhores exemplos dessa contradição. O treinador havia sido contratado na gestão Textor, é verdade. Mas a atual administração não apenas decidiu mantê-lo. Em julho, renovou seu contrato, concedeu aumento salarial e ainda rejeitou uma proposta que poderia levá-lo embora. Um mês depois, em agosto, decidiram demiti-lo e, para completar o roteiro, a contratação feita por Textor apareceu como herança ruim como parte da explicação para o problema.
Enquanto isso, os problemas se acumulam. O Botafogo segue procurando um técnico como quem procura uma agulha no palheiro, queimam o técnico do sub-20, as contratações não chegam na velocidade que o elenco exige, o time derrete na tabela e nomes ligados ao Boavista aparecem cada vez mais próximos da estrutura do clube. Tudo isso enquanto cresce a sensação de que o Botafogo social, que deveria ter uma relação muito bem delimitada com a SAF, volta a ocupar um espaço de influência que causa estranhamento em quem acreditava que o futebol finalmente seria conduzido por critérios estritamente profissionais através da GDA.
Ninguém precisa transformar John Textor em santo. Ele cometeu erros, muitos deles graves, e deixou problemas que precisam ser reconhecidos. Mas reconhecer os erros do passado é uma coisa. Usá-los sempre como justificativa para os fracassos do presente é outra completamente diferente. O Botafogo não pode continuar afundando enquanto seus comandantes apontam para trás e explicam por que a água começou a entrar no barco.
Em A Revolução dos Bichos, os animais demoraram para perceber que o receio do passado havia se transformado em uma ferramenta para controlar o presente. Porque uma muleta serve para ajudar alguém a caminhar. No Botafogo, ela parece estar sendo usada para justificar por que o clube continua sem sair do lugar.