Ex-diretor de gestão esportiva do Botafogo e hoje head scout do Crystal Palace, Alessandro Brito fez um trabalho marcante no Glorioso. Ele foi um dos símbolos e mentes pensantes do futebol desde a transformação em SAF, com o ápice nos títulos da Libertadores e do Campeonato Brasileiro em 2024.
Em entrevista ao canal “Resenha com TF”, Alessandro Brito destacou sua identificação com o Botafogo e revelou que as portas ficaram abertas para um retorno no futuro.
– O Botafogo mudou a minha vida, por mais caminho que eu já tivesse profissionalmente na minha carreira. Na vinda para o Botafogo, eu não esperava que eu conseguia, que o clube e eu também conseguiríamos atingir tanta coisa do jeito que a gente atingiu aqui a curto prazo. Eu cheguei num Botafogo preparado para o desafio, mas não sabia que ia fazer tudo isso de uma maneira rápida. Particularmente, para mim mudou muito, mas muito pelas pessoas também, pelo carinho, pela forma do clube. E é um clube assim, de todos os clubes que eu passei, o que me apeguei muito. Depois que eu saí, eu não tinha ido para o estádio ainda, fui há pouco e foi diferente para mim. Porque parece que você está em casa, todo mundo te conhece, se sente bem, sabe onde você pode entrar, onde você pode sair, com quem se relacionar – afirmou Brito.
– Então, aquele sentimento que todo mundo sempre fala que “o Botafogo marcou a minha vida” é o meu sentimento. E isso eu falei para o JP (João Paulo Magalhães Lins, presidente) quando eu fui conversar com ele sobre o meu sentimento de sair. Eu falei “da minha parte, não é um adeus, é só um até logo”. Claro que isso aí depois depende dos diretores, porque com certeza eu tenho o maior prazer de voltar a trabalhar aqui, assim como eu tenho o prazer de um dia retornar para o Athletico-PR também, que ali foi um processo em que fiquei nove anos dentro do clube. Fui atleta, fui estagiário, fui treinador das menores, captação. Então, é um clube assim que eu também carrego comigo de vontade de retornar. Mas o Botafogo, para mim e para a minha família, as minhas meninas perguntam “Qual time você torce? Botafogo”. Então se criou isso dentro de casa. Foi marcante demais, marcou muito – declarou.
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Saída do Botafogo e chegada ao Crystal Palace
– Foi tudo muito rápido. Porque em virtude de tudo que estava acontecendo no Botafogo e de tudo que a gente já tinha construído, eu achei que era um momento meu de encerrar o ciclo. Tenho certeza que o legado, o processo, a gestão das pessoas, acho que já tinha deixado algo prazeroso. E achava interessante dar esse passo a mais na minha carreira, profissional e pessoal, para tentar encontrar alguma coisa diferente para mim. Um novo desafio. Então foi isso que eu pensei. E em virtude de tudo isso também, esse turbilhão que foi o Botafogo desde a Copa do Mundo, eu resolvi encerra. E depois que eu comuniquei ao JP (João Paulo Magalhães Lins) e ao Eduardo Iglesias (CEO), que eram os gestores responsáveis ali na época, no final de maio, daí o meu vínculo realmente acabou.
– E eu fui viajar com a família. Só que é aquele negócio de rede social, eu comuniquei no Instagram, no meu LinkedIn e tudo mais, e o contato com o Crystal Palace tinha sido lá atrás. O diretor nem está lá mais, que é o Dougie Freedman, acho que hoje está em um time da Arábia, como diretor-executivo Só que o contato que a gente teve com eles ali foi legal, a viagem que a gente teve e tudo mais. E acabou que pelo Instagram e pelo LinkedIn eu segui algumas pessoas e quando eu saí, dois dias depois, o próprio Dougie me liga e fala que o pessoal do Crystal Palace queria o contato para conversar comigo. Já fazia muito tempo que eles queriam inserir alguém responsável na América do Sul e tudo mais. Então foi assim, através da minha comunicação, que veio o Crystal Palace. Graças a Deus também Vieram outros clubes, mas eu estava muito focado em tentar fazer um projeto para fora do Brasil até por questões de idioma, por questões de entender também uma nova cultura, a visão de gestão, a visão de jogador. Então, eu queria e quero aprender como é que as pessoas observam nas principais ligas, se a gente está no caminho certo, se a gente está no caminho errado, para que também possa ajudar o futebol brasileiro de alguma maneira. E através disso veio o convite.
– Vieram algumas conversas e o projeto se desenhou de uma maneira até diferente. Como é que é hoje a função? A gente tem hoje um chief scout geral, ele trabalha lado a lado com o diretor de futebol, e dois head scouts. Então, tem um head scout responsável na Europa, onde a gente tem cinco observadores, a ideia é ter até nove, centralizados ali em cada país E daí eles me convidaram para ser o head scout responsável pelo LATAM, que a gente fala Estados Unidos, México e toda a América do Sul. Quando eu vi o tamanho do projeto, do desafio, falei, “pô, eu acho que não é um passo atrás”, porque hoje eu estava como diretor no clube, também tinha oportunidade de ser diretor. Mas era uma oportunidade de entrar na Premier League, num mercado diferente e fazer o que realmente eu amo, que é essa parte de Scout. E o desafio foi legal, que a gente está ainda estruturando isso, porque a ideia do clube é se tornar uma referência no scout, referência de dados, referência de encontrar jovens. Então, a gente está ainda nesse processo de entender o que mercado consegue oferecer para dentro do clube, mas está sendo legal.
Olho na América
– A diferença primeiro estrutural de liga, o Palace acabou de ser campeão, então já é um patamar diferente de quando a gente pegou um Botafogo, o Botafogo estava subindo da Série B, mas em termos de estrutura ainda era bem precário. Não tinha um centro de treinamento, não tinha uma estrutura básica para categoria de base, não tinha esse projeto definido de o que a gente vai querer no ano, o que a gente vai prospectar pros próximos anos. O Botafogo, a gente sempre brinca que foi muito legal, interessante, porque foi um papel em branco. E a gente conseguiu, cada um ir desenhando um projeto paa deixar o clube com um legado. Então, isso foi o legal do Botafogo. Ali, no Crystal Palace, já tem estrutura, já tem uma ideia, já tem um budget, já tem um orçamento, já tem uma ideia muito mais clara. Só que eles querem, até pela competitividade da Premier League, tentar chegar antes, né, dos grandes Arsenal, City, United, Chelsea, Liverpool. Todos os clubes grandes já têm pessoas aqui aqui na América do Sul, no Brasil, na Argentina. E eles não tinham. Então, esses clubes estavam descobrindo talento levando para os grandes clubes, e eles não conseguiam competir, né, porque depois que chegou nesses clubes não tem como competir. Então, eles querem tentar chegar antes.
Botafogo
– Tem uma similaridade. Eu acho que como estrutura o clube lá está na frente, mas o Botafogo, eu vejo assim, que ainda é um clube com muito potencial e não vai parar de crescer. Até a gente fica feliz agora tendo um caminho novamente. Eu virei torcedor do clube, até estava no último jogo agora, porque eu torço pelas pessoas, torço pelo clube, porque é um clube que eu acho que merece estar no topo, por tudo que representa a nível mundial. E do scout é legal eu falar porque existiu uma valorização muito grande no Botafogo através do John (Textor), também no departamento de scout. Não que os outros clubes não tivessem isso. Os outros clubes têm o departamento. Mas o John fez talvez alguns clubes despertarem o interesse e eu fui muito feliz, também, em ser a pessoa escolhida para poder representar essa classe. Então, hoje existe uma associação dos observadores, existe uma preocupação com os scouts a nível nacional, a gente quer profissionalizar a área, a gente está tentando capacitar, criar cursos para que realmente a área seja reconhecida do jeito que está sendo reconhecida. Todo clube, toda empresa, hoje agências buscam scout, porque acho que esse é o caminho profissional do futebol.
Base do Botafogo
– O processo de formação, principalmente do Botafogo, está em desenvolvimento ainda. É outra coisa que eu uso muito. é o que eu acredito, na questão dos ciclos olímpicos. Então, quando completar o primeiro ciclo, que seriam quatro anos, aí a gente consegue entender se o projeto está caminhando ou não. O projeto da base começou em 2023, em 2022 a gente focou muito na manutenção do clube, no treinamento, então o projeto iniciou em 2023. Olha aí a evolução que a gente já consegue ver. A gente vai conseguir ver um Botafogo diferente na categoria de base. Você imagina a partir de 2027, para os próximos quatro anos, o quanto que vai evoluir. Mas para a gente ver um Botafogo muito forte até 2030, 2031, a gente precisa dar estrutura agora.
– Esse é o processo que eu acho que falta dentro do clube, dar uma estrutura para a categoria de base. A estrutura que eu falo inicial é campo e bola, quanto mais campo e bola para os meninos já está OK. Depois, claro, daí vem alimentação, uma suplementação, pedagogia, assistente social. Mas hoje a gente tem um campo sintético lá no estádio que atende, OK, mas eu sempre brinco, o campo acorda 8h e ele já fala “pô, mais 12 horas aqui”. Que é das 8h às 20h. É a forma que a gente encontrou para poder colocar as categorias sub-11, 13, 15, feminino, feminino sub-20, só que é um campo só. Então, a hora que o clube conseguir olhar o Lonier, estruturar mais três campos, que é essa a ideia colocar mais três campos lá embaixo, vai utilizar o estádio ainda, porque o estádio eu acho que é importante principalmente para as categorias de iniciação, porque está muito bem localizado. Você imagina meninos de 11, 12 anos, que pegam o trem, chegam facilmente.Para a iniciação, até os 14 anos, acho que tem que manter ali mesmo, manter no estádio. Hoje já está muito forte o elo do futsal, que fica ali em General (Severiano.) Com a base, acho que tem que manter isso mesmo, o futsal ali, e daí mandar os destaques do futsal para o campo. Os destaques do campo poderem jogar o futsal. Então, acho que já está caminhando bem, mas o que o clube precisa pensar é dar campo e bola para que eles possam alavancar E foi isso que a gente fez com o sub-20, em um ano que tem o projeto. Olha o resultado que já deu, porque concentrou os atletas num campo, concentrou com uma boa alimentação, concentrou com um bom cuidado, e o atleta já está se desenvolvendo para servir à equipe principal. Então é calma, paciência, mas dar o que eles precisam, os atletas.
Scout
– Eu sempre trabalhei muito forte entre 2022, 23 e 24, como função só de mercado, de gerente de mercado, ajudando na formatação do elenco. E, para mim, em 2022, o que mudou muito na função, e isso eu falo para todo mundo, para tentar dar essa abertura, foi quando o Luís Castro me deixou, como head scout, participar do processo de palestra, do processo de treino, do processo do dia a dia da comissão. Porque eu conseguia entender o que o clube quer, o que o dono queria e o que era a cabeça do treinador, e tentava fazer esse mix: o que o treinador quer e o que o dono quer, para a gente, junto, encontrar um nome que agradasse ao clube, ao dono e ao treinador. Mas isso se deu muito pela abertura que o próprio (André) Mazzuco, como diretor, e o Luís (Castro) deram para mim, de entrar no dia a dia. Então, se todos os head scouts, todos os coordenadores de mercado conseguissem fazer isso, eu acho que seria um ponto muito legal, porque você consegue entender como é a palestra, entender o que ele espera de um zagueiro, o que ele espera de um extremo. E, muitas vezes, a gente fica de longe, vê só o jogo e não entende a cabeça do treinador. Então, isso foi um ponto muito legal para mim dessa vivência.
Promoção no Botafogo
– E, depois que o Mazzuco sai, eu recebo o convite para ser o diretor. Mas eu deixei muito claro para todo mundo: eu acho que o processo que a gente está criando de 22, 23 e agora em 24 não pode terminar agora. Então, eu agradeço, mas eu não quero ser o diretor nesse momento, porque eu acho que a gente tem que terminar de construir e projetar tanto o clube quanto a base, continuar o projeto. Então, foi isso que eu deixei muito focado em 24. Só que acabou que o clube demorou um pouco para a gente encontrar um profissional, depois veio o Pedro Martins, e acabei ficando, assumindo essa função por um bom tempo. E daí criei uma relação muito forte com o estafe, com os atletas, com a própria comissão. Então, mesmo com a vinda do Pedro, eu acumulava um pouco dessa função, porque as pessoas me olhavam como um diretor, mas eu não era o diretor. O Pedro que fazia o dia a dia.
– E depois, quando o Pedro sai em 24, ele saiu e foi para o Santos, novamente veio o convite, e daí eu falei: “A gente pode, então, separar, ter uma pessoa responsável para ficar com a comissão, ficar com os atletas no dia a dia, e eu cuidar dessa parte de gestão”. E, quando a gente fala de legado, é isso, né? A preocupação é deixar um centro de treinamento, deixar uma estrutura, deixar os departamentos bem organizados. E isso não fui só eu que fiz. Isso já veio desde o Mazzuco. Depois, o Pedro contribuiu, o Léo (Coelho) contribuindo, o Thairo (Arruda) contribuiu muito. É aquela folha em branco que a gente falou lá no início da nossa conversa. É cada um implementando a sua ideia, deixando um pouco da sua filosofia. E hoje o legado que o clube tem é isso. Você chega num Botafogo hoje, no Lonier, não falta nada para os atletas. Talvez falte um hotel agora. Acho que é o próximo passo profissional, para não precisar concentrar no hotel que é o parceiro do clube. Fazer sua concentração ali. Então, o atleta vai chegar de manhã, vai fazer sua alimentação, vai concentrar no clube e, de lá, sair para o jogo. Esse é um grande passo. Mas, para o futuro, acho que, antes disso, dá para construir campo: mais três campos e vestiários. Acho que já vai atender legal o clube para essa evolução da categoria de base. Esse é meu ponto de vista.
O que deu errado em 2025
– Em 2025, eu acho que o que aconteceu é que a gente trocou muitos jogadores, e eram jogadores referências. E a expectativa é que esses jogadores que chegaram ali tinham que desenvolver igual. E eram jogadores diferentes, e tinha que se criar um novo ambiente, uma nova equipe, para que esses jogadores pudessem desenvolver. Só que é difícil. A expectativa estava lá: o jogador tem que chegar e talvez ser superior àquele cara que ganhou tudo. Então, não é fácil. E isso é uma experiência que a gente já teve. Eu estava fora, eu estava no Botafogo, mas o Galo de 21 sofreu em 22 e 23. Por quê? Porque é da expectativa. E o Botafogo é a mesma coisa: o Botafogo de 24 sofreu em 25 e está sofrendo em 26. Então, como é difícil a gente manter um nível, ainda mais com troca de jogadores. Talvez, se você mantém o elenco, troca uma ou duas peças, é mais fácil, que é o que o Flamengo e o Palmeiras conseguem fazer.
– Eu acho que o meu gosto de Botafogo Way é esse: um time de transição. Mas o que eu entendia que o Textor queria era um time mais construtor. Para mim, era o que o Botafogo Way era, o caminho do Botafogo, o que a gente estava construindo como clube. Não só o jogo: os atletas, a estruturação da cadeia de base, a estruturação do CT, o NSP (Núcleo de Saúde e Performance). Para mim, isso é o Botafogo Way. Hoje, a gente tem um… O clube tem uma área corporativa, o sexto andar, o quinto andar, top. Então, o Botafogo Way, para mim, era esse caminho: fazer um Botafogo diferente, um caminho de Botafogo diferente. Estou falando a minha visão. Agora falando do jogo, o que a gente escolheu em 2022 e em 2023 foi, sim, fazer um time competitivo, um time muito agressivo. Em 2024, o John tem uma ideia de… Ele falava em três pilares: jogadores smart, que seriam inteligentes na parte tática; técnica, smart technical, que é a parte técnica; e a parte física, de velocidade. Ele queria o cara muito veloz. Era o que ele tinha como ideia de jogo, que ele acredita. Mas isso não era aplicado nas escolhas do Botafogo. Na minha visão, a minha visão do Botafogo era a gente construir e deixar aquilo que eu falei de legado. Mas eu sempre fico na dúvida, porque as pessoas falam: “Ah, isso não é o Botafogo Way”. Eu falo: “Cara, para mim, é diferente. O que eu acho de Botafogo Way?” Eu falo abertamente agora, porque é o que eu penso, é o que a gente construiu. Botafogo Way é isso: é o legado que a gente deixou. A forma de jogar foi mudando. Em 22 foi uma maneira, 23 foi outra, 24, até pelo nível dos jogadores, foi outra também, entendeu?
Botafogo visto diferente no mercado
– Não tem como não falar do projeto Botafogo. Todo mundo viu os atletas que vieram, o patamar que eles alcançaram a nível mundial, até a nível de seleção. Cada um representando a seleção do seu país. Então, eu tenho certeza que a camisa Botafogo é muito pesada para isso. O atleta sabe que vindo para cá e tendo uma boa performance, ele vai ter um caminho diferente de vida. Então, hoje o Botafogo, por mais que tenha os problemas que teve, mas os problemas são societários, o problema é lá em cima, não tem como o atleta falar que o clube não é uma referência, que não vai dar um caminho diferente.
= Quando eu tive o prazer de estar lá e ver o clube no Ballon D’Or, poucos conseguem chegar lá, que a gente conseguiu colocar o Botafogo lá também, esse é o Botafogo Way. Para, mim é isso, toda essa construção. Muito porque como a gente pegou esse clube em 2022 e como a gente está entregando hoje, eu sei que o caminho vai continuar porque as pessoas são boas, o estafe é bom, as ideias são boas. É questão de ajuste colocar recalcular a rota no Waze e colocar o carro no caminho certo .
Legado
– É o legado do clube, aquilo que a gente projetou, acho que ficou acima da expectativa, de entrega. Acho que isso que eu saio tranquilo, porque tanto pessoas que hoje estão lá e até a parte estrutural eu saio feliz, saio tranquilo por causa disso. Porque a gente sabe como era o Botafogo lá em 22 e como é o Botafogo hoje, até em nível de referência. A gente conseguiu entregar algo prazeroso. E o grande diferencial que eu vejo nisso tudo é conseguir colocar o Botafogo no lugar em que ele realmente tem que estar e dar essa felicidade para o torcedor. Porque não adianta, a gente move tudo isso para os torcedores, que é a paixão de todo mundo para estar ali, para ver o jogo, para realmente desabafar no calor do jogo, torcer para o seu time. O trabalho que tem que ser feito por nós profissionais é realmente dar o máximo para dar alegria para a torcida.