Em tempos de polarização, guerras por narrativas e disputas políticas, o Botafogo parece ter desenvolvido sua própria modalidade de comunicação institucional: o “E o Textor, hein?”. A lógica é simples: quando surge um assunto desconfortável para a atual gestão, uma nova notícia envolvendo John Textor ganha os holofotes. O foco muda, a discussão migra para o antigo controlador e as perguntas sobre o presente ficam sem resposta.
Se Textor cometeu irregularidades, dilapidou patrimônio ou praticou qualquer ato ilegal, que tudo seja investigado e os responsáveis respondam à Justiça e seja efetivamente caso de polícia. Não existe contradição entre cobrar a gestão anterior e exigir transparência de quem pretende assumir o comando do clube. O problema começa quando a apuração do passado parece servir de cortina para evitar questionamentos sobre o presente.
Desde o início da transição, faltam explicações claras dos dirigentes. Como a GDA Luma, antes tratada com desconfiança por setores do clube, passou a ser apresentada como a grande salvação? Por que a diluição das ações, anteriormente tão contestada, virou parte da solução? Quais são as garantias efetivas do negócio? E qual é o verdadeiro projeto esportivo e financeiro para 2027?
Também precisamos entender as decisões do chamado “bonde do Boavista”, a composição do Conselho de Administração, sócio torcedor desfigurado para atender organizada, e, há ainda a questão da dívida, que, quando conveniente, é apresentada na casa dos R$ 3,5 bilhões, mas, quando surgem questionamentos sobre os números, vem acompanhada de um “veja, não é bem assim!”. De fato, a composição desse passivo exige contexto e explicações detalhadas. O que não pode haver é uma apresentação seletiva dos números, conforme a conveniência do discurso. E, acima de tudo, seguem as perguntas sobre os sucessivos prazos anunciados para a entrada definitiva da GDA, nenhum deles cumprido até agora.
O acordo anunciado em junho é um exemplo. A documentação apresentada na recuperação judicial distinguiu o acordo de investimento, efetivamente assinado, de um acordo vinculante para a transferência do controle acionário, que ainda não havia sido firmado. É uma diferença importante, que exige explicações sobre as condições pendentes e o caminho até a conclusão do negócio. Mas, em vez de uma explicação abrangente, a torcida acompanha versões conflitantes e uma sucessão de notícias que frequentemente deslocam a discussão.
No domingo, uma matéria informou que Gabriel de Alba poderia aguardar o avanço das negociações da recuperação judicial para assumir oficialmente a SAF. A entrada do novo controlador, portanto, continua sem data definida, condicionada a etapas que ainda precisam ser superadas, que talvez só aconteçam em abril do ano que vem. É uma notícia central para o futuro do Botafogo, pois coloca novamente em evidência a demora da transição e a falta de previsibilidade para a torcida.
No dia seguinte, o noticiário ganhou outro protagonista: John Textor. Vieram à tona informações sobre propostas do Nottingham Forest por Danilo e Álvaro Montoro que, somadas, chegariam a € 34 milhões. Segundo a apuração divulgada, menos de € 10 milhões entrariam efetivamente nos cofres alvinegros, em razão de uma dívida com o clube inglês. O assunto merece ser investigado, sem dúvida. Mas há um detalhe que não pode ser ignorado: essa negociação já havia sido noticiada em janeiro pelo Canal do Medeiros. A nova repercussão trouxe valores atribuídos à auditoria, mas a possibilidade de venda dos dois jogadores e os problemas relacionados à operação não eram desconhecidos.
Percebam a ordem dos acontecimentos. Ontem, a notícia era que a GDA pode esperar o avanço da recuperação judicial para assumir o Botafogo. Hoje, a manchete voltou a ser sobre uma suposta negociata de Textor. A indefinição sobre o futuro perde espaço para mais um capítulo da história do antigo controlador.
A notícia desta terça-feira sobre as movimentações de Jair, Cuiabano e Igor Jesus, ganhou um detalhe que merece atenção. Diante da apresentação do caso como exclusivo pelo Canal do Manel, o jornalista João Pedro Fragoso, do Globo, reagiu publicamente: “Meu amigo, isso não é exclusivo… Noticiamos no GLOBO em março”.
E ele tem um ponto concreto. Na reportagem publicada em 20 de março, o Globo já havia detalhado as operações financeiras envolvendo Igor Jesus, Jair e Cuiabano, incluindo os € 23 milhões pagos pelo Nottingham Forest e um empréstimo posterior de € 25,5 milhões ao Lyon. A publicação de hoje acrescenta informações sobre o repasse à Eagle em poucas horas e o vencimento do crédito, mas o mecanismo financeiro que está no centro da discussão já havia sido exposto meses atrás.
Na semana passada, uma matéria apontou que Gabriel de Alba teria se assustado com os valores da dívida tributáriado social. No dia seguinte, ganhou força a informação de que uma auditoria identificou R$ 1,3 bilhão em transferências do Botafogo para o Lyon durante a gestão Textor. O detalhe é que informações sobre essas movimentações já haviam sido divulgadas pela Meden em abril. Ou seja, mais uma vez, um assunto relacionado ao antigo controlador voltou a dominar o noticiário logo após uma notícia delicada para a atual transição.
E esse expediente não começou hoje, ontem, nem na semana passada. Há bastante tempo, quando surgem questionamentos sobre a GDA, prazos não cumpridos ou o futuro da SAF, John Textor volta ao centro das manchetes e o debate muda de direção. Muitas vezes com informações que já circulavam anteriormente, mas que ganham uma nova rodada de repercussão.
Textor tem muito a esclarecer sobre o passado, mas a GDA e o clube social precisam responder pelo futuro. Qual é o verdadeiro cronograma da transição? Quem assumirá a responsabilidade se as promessas não se concretizarem?
Como botafoguense, torço para que o clube supere essa crise e reencontre a estabilidade. Mas uma gestão que se pretende séria, do dono ao CEO, precisa encarar os questionamentos, não escolher quais responder. O Álibi Textor não pode ser o método de comunicação de quem promete reconstruir o Botafogo.