Recebi, na noite da última sexta-feira, o longo e detalhado e-mail que se segue, enviado pelo presidente do Botafogo, Maurício Assumpção. Nele, o dirigente responde, item por item, as críticas que o ex-presidente Bebeto de Freitas fez à sua administração em entrevista no meu programa “A Última Palavra”, no Fox Sports. Vale a pena ler as explicações de Assumpção.

Rio de Janeiro, 04 de Abril de 2014

Renato,

em função da entrevista concedida pelo ex-presidente do Botafogo, Bebeto de Freitas, em seu programa A Última Palavra, sirvo-me da presente para responder às inúmeras acusações e comentários feitos pelo antecessor da atual gestão. Farei minha resposta pontuando todos os assuntos abordados por ele.

1 – ATO TRABATHISTA

Em nenhum momento foi intenção desta administração sair do Ato Trabalhista, mesmo porque a forma de gestão que implantei no Botafogo é participativa, ao contrário de todo o período de gestão do Bebeto. Entretanto, vale ressaltar que, em dezembro de 2013, a vigência do Ato Trabalhista expirou.

Desde o inicio do ano nós estamos em entendimentos com o Tribunal Regional do Trabalho do RJ, buscando um novo Ato Trabalhista, já que o Ato anterior somente englobava ações que teriam sido ajuizadas até o ano de 2007. Inúmeras ações vinham sendo ingressadas em datas posteriores à centralização das execuções, e o Botafogo, vinha, não somente pagando o Ato Trabalhista, mas também sofrendo penhoras e pagando ações não cobertas pelo Ato, ingressadas por atletas e ex-funcionários, de tal sorte que de 2009 até o término da vigência do Ato pagamos, aproximadamente, RS 30.000.000,00 e fomos obrigados a fazer acordos cujos valores para pagamento se aproximam de RS 20.000.000,00 (parte foi quitada pelo Clube). Além disso, sofremos penhoras de ações não cobertas pelo Ato no valor aproximado de RS 4.500.000,00.

Por essa razão, estamos negociando um novo Ato.

Recebemos uma proposta do TRT-RlO com seis alternativas para centralização das execuções trabalhistas, que eram modalidades que já vinham sendo adotadas por outros clubes no Rio de Janeiro contemplados pelo Ato Trabalhista.

Em 06 de março de 2013, encaminhamos a opção que mais se adequava à situação financeira do Botafogo para o Tribunal e, desde então, por diversas ocasiões, estivemos presentes no TRT-RIO insistindo para que fosse adotada a proposta sugerida.

Naturalmente os advogados interessados em que o Botafogo não fosse contemplado com o novo Ato começaram uma grande campanha no Tribunal (e também na mídia) e obtiveram sucesso de tal forma que após o vencimento do Ato não obtivemos de imediato a tão desejada renovação e hoje nos encontramos na delicada situação de termos todas as nossas receitas penhoradas.

As declarações do Bebeto sobre nunca ter saído do Ato são incompreensíveis, considerando que o Botafogo foi excluído do Ato, em função do não cumprimento pelo próprio Bebeto das condições acordadas com o TRT-RIO.

2 -TIMEMANIA

O Botafogo se encontra regular com a Timemania. Entretanto, vale observar que no período de 15 meses da gestão do Bebeto durante o período de vigência da Timemania, foram pagos um total liquido de R$ 451.000,00, representando uma média mensal de R$ 30.000,00 enquanto que a nossa gestão efetuou de 2009 até fevereiro de 2Ot4 o pagamento líquido de RS 13.700.000,00, representando média de RS 230.000,00 mensais.

Vale ressaltar que em 20L1 a PGFN – Procuradoria Geral da Fazenda reajustou o saldo devedor do Botafogo em cerca de RS 50.000.000,00

Ao contrário do que o Bebeto afirmou, por total desconhecimento, a dívida Nacional, após consolidação da dívida, da Timemania sofre correção.

Atualmente, pagamos um valor líquido de aproximadamente RS 700.000,00/mês da Timmania.

3 – DIVIDAS

Ao contrário do que afirma Bebeto, a questão financeira não estava equacionada. Várias foram as pendências financeiras herdadas, a começar por quatro folhas de pagamento de atletas atrasadas, o que nos obrigou a negociações exaustivas com os empresários e que nos trouxe, consequentemente, sérios problemas jurídicos que foram negociados caso a caso, além de quatro meses de salários de funcionários em atraso.

Nos últimos meses de sua gestão, sua presença física no Botafogo era praticamente nenhuma e a dívida de curtíssimo prazo que tivemos que pagar alcançou o montante de RS 15 milhões, entre folhas, fornecedores, contribuição sindical, impostos e taxas.

Imagina, prezado Renato, chegamos ao Botafogo sem time para competir; havia somente três contratos de jogadores profissionais, fomos obrigados a promover jogadores da base sem a devida preparação e tivemos de contar com a colaboração do Ney Franco e o trabalho hercúleo de nosso Vice-Presidente de Futebol na época, Sr. André Silva, para montar um time. Como você sabe, o time acabou fazendo a final do campeonato carioca daquele ano.

4 – ENGENHÃO

Ele alega que nos deixou “Um Estádio”. Além disso, afirmou que todos os contratos do referido estádio venciam no final de 2008 propositadamente para que a nova gestão tivesse a liberdade de negociar as renovações e/ou a contratação de novos prestadores de serviço.

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que isso não está de acordo com a realidade. Para que você tenha a exata compreensão dos acontecimentos, ele assinou, por exemplo, um contrato em 11 de fevereiro de 2008 com a empresa EBN, com vigência de cinco anos, recebendo os valores adiantados, dando como garantia uma Nota Promissória também assinada por ele, em que se responsabilizava pessoalmente. Tive que quitar esse débito, de cerca de RS 5 milhões, e rescindir o contrato com a empresa. Além disso, ele nos deixou “Um Estádio” com um resultado negativo de R$ 2 milhões; sem alvará de funcionamento nem licença para exploração e comercialização de publicidade estática. Além disso, a Cia. Botafogo, concessionária do estádio não possuía, em seu objeto social, autorização para esse tipo de atividade.

lsso resultou em um auto de infração expedido pela Prefeitura que nos obrigou a retirar toda a publicidade estática existente no estádio, o que nos causou, por parte das empresas que tinham suas marcas expostas no equipamento esportivo, uma multa contratual de RS 500.000,00. Após estes fatos que nos surpreenderam, conseguimos ajustar o objeto social da Cia Botafogo, em seguida obter o alvará de funcionamento do estádio, as devidas autorizações para exploração e comercialização de publicidade estática.

A partir daí, conseguimos regularizar e utilizar todos os bares do estádio, ajustar todos os contratos de operação e manutenção (reduzimos esse custo para metade do valor original).

Destaco, ainda, as inúmeras melhorias introduzidas: customização e climatização dos vestiários, customização de 23 bares com multimarcas em conceitos semelhantes aos adotados em shopping centers, criação do Restaurante Panorâmico, criação de uma Tribuna de Honra que inexistia no estádio, o mesmo com relação a Tribuna de Imprensa, ambiente próprio para os jogadores e seus familiares, duas salas de imprensa com todos os equipamentos necessários e outras melhorias que não me ocorrem no momento.

Evoluímos na gestão do estádio de tal forma a torná-lo superavitário e uma referência de gestão que resultou em uma assinatura de convênio com o COMITÊ FIFA2OL4 em que o nosso estádio passou a ser um laboratório para desenvolvimento das práticas operacionais para o Copa do Mundo 2014.

5 – RENOVAÇÃO DE CONTRATOS

Bebeto afirma que convidou um reconhecido profissional do vôlei para ajuda-lo nos Esportes Olímpicos do Botafogo; disse, ainda, que avisou ao profissional em questão que não teria dinheiro para pagar por seus serviços. Mesmo assim, ele foi remunerado em todo o período em que aqui esteve e, em janeiro de 2008, portanto, no último ano de seu mandato, Bebeto renovou o contrato desse profissional com o Botafogo por mais  cinco anos, com direito, inclusive, a uma multa rescisória exorbitante. E este não foi o único tipo de renovação feita pelo ex-presidente: ele fez isso para mais de um funcionário. Alguns, após minha entrada, vieram voluntariamente rescindir seus contratos tal o absurdo da questão. O colaborador aqui referido ingressou na justiça contra o Botafogo e perdeu a causa.

6 – MARECHAL HERMES

O Centro de ‘Treinamento da Base do Botafogo encontrava-se completamente abandonado. As fotos anexadas mostram o que nós recebemos e o que nós recuperamos. Após longa e exaustiva negociação com o Governo do Estado, conseguimos um contrato de concessão para um período de 50 anos.

Renato, desculpe-me, mas com relação à divisão de base, eu não preciso falar realmente nada; os fatos falam por mim: quando entrei no Botafogo, as nossas divisões de base eram conhecidas como “cemitério de jogadores”.

Você sabe muito bem o que foi feito na base durante esses quase seis anos; quantos atletas foram revelados – Dória, Vitinho, Jadson, Gabriel, Gilberto, Gegê entre outros – quantos, hoje, fazem parte do time profissional, quantas conquistas regionais, nacionais e internacionais obtivemos, sem falar nas inúmeras convocações de nossos atletas para seleções nacionais de base. E tudo isso feito sem ajuda financeira de quem quer que seja!

Para coroar esse trabalho, pode ter certeza que deixarei até o contrária – a Escola de Futebol de Marechal Hermes para nossas espaço começa na próxima semana.

7 – PATRIMÔNIO DO CLUBE

A questão patrimonial, então, é uma verdadeira piada ! Vejamos:

7.1- COMPLEXO MOURISCO MAR

O complexo Mourisco Mar sofria risco estrutural; hoje temos o mais moderno complexo aquático em funcionamento, onde são realizados desafios e provas internacionais, além dos principais eventos nacionais de natação e polo-aquático, no Rio de Janeiro.

Com relação a Churrascaria Fogo de Chão, Bebeto afirmou que há três anos já negociava com a Churrascaria Fogo de Chão e que, portanto, dava como certa a entrada da churrascaria no Mourisco Mar. Entretanto, não foi isso o que ouvimos do proprietário da churrascaria no primeiro contato que fizemos quando nos identificamos como representantes do Botafogo interessados a retomar as negociações. Não posso colocar aqui neste texto o que foi dito por ele, pois o palavrão é impublicável. Tivemos que contornar toda essa situação e com muita habilidade conseguimos retornar às negociações, que foram concluídas de modo satisfatório para o clube.

7.2 – SEDE DE GENERAL SEVERIANO

A sede de General Severiano estava completamente abandonada, Recuperamos a piscina semiolímpica e a piscina social que tinham vazamentos seríssimos no Casa & Gourmet Shopping o que nos causava inúmeros transtornos em função da reclamação dos lojistas.

A reforma no vestiário que ele afirma ter feito não teve a necessária impermeabilização o que causava outros tantos vazamentos no shopping, sendo necessário, portanto, que uma nova intervenção fosse feita; como resultado, fomos obrigados a refazer todo o trabalho. Na nossa gestão recuperamos e reformamos o piso do ginásio, vestiários dos atletas, os banheiros de utilização do ginásio, toda a parte de almoxarifado e lavanderia utilizada pelo basquete e pelo voleibol. Hoje, vários são os eventos que recebemos no ginásio, o que fez aumentar nossas receitas.

Ainda em General Severiano, fizemos a cobertura das duas quadras polivalentes externas, um parque infantil, uma nova sauna, um novo restaurante e agora caminhamos para a implantação de um complexo de grama sintética que permitirá tanto o uso do campo pelos jogadores profissionais com também pelos associados, mas, principalmente, para novas escolinhas de futebol do Botafogo.

Essas melhorias foram tão importantes que ao chegarmos aqui tínhamos 1.329 sócios proprietários ativos e hoje somamos mais de 3 mil.

Ressalto, ainda que as certidões de uso de piscinas, Bombeiros etc. inexistiam no clube.

7.3 – SEDE REMO

A nossa tradicional Sede de Remo da Lagoa – o Sacopã – era mais uma a apresentar um cenário de abandono patrimonial. Em seu salão, por exemplo, não havia uma lâmpada sequer funcionando; banheiros e vestiários estavam impróprios para o uso, além disso, apresentava um sistema de tratamento de esgoto completamente quebrado. Todas essas instalações foram devidamente recuperadas e reformadas e, além disso, adquirimos 36 novas embarcações para nossa flotilha, recuperamos nosso tanque de treinamento e o deque das embarcações que se encontrava com pregos expostos, trazendo risco de acidentes em nossos atletas, foi totalmente substituído por um novo. Não paramos por aí: instalamos uma academia de remo ergômetro climatizada, a maior da América Latina, e continuamos a realizar melhorias naquela sede (cozinha, dormitório, alojamentos dos atletas etc.) de tal forma a tornar aquele ambiente uma referência para o esporte nacional.

Como resultado de todas essas transformações, nos tornamos Campeões Estaduais de Remo após 48 anos, fomos Campeões Brasileiros por duas vezes e somos, atualmente, o maior fornecedor de atletas para Seleção Brasileira.

Este ano, já vencemos a Primeira Regata do Estadual com uma vantagem de 25 pontos para o segundo colocado.

7.4 – SEDE VENCESLAU BRÁS (casarão)

De fato, Bebeto iniciou o processo através da Lei Rouanet para reforma do casarão (e eu sempre ressaltei isso).

Entretanto, quando eu cheguei aqui, a empresa construtora reclamava de uma dívida de RS 300.000,00, problema que minha administração resolveu.

Além disso, fizemos uma loja, que se tornou uma referência para clubes esportivos no Brasil, no lugar em que se instalava um banco que rescindiu seu contrato antecipadamente, sem nenhuma penalidade, conforme previsto em nas cláusulas do contrato assinado por ele e ainda nos obrigou a ressarci-los dos anos restantes, visto que o Botafogo já havia recebido, na gestão anterior, todo o valor contratual.

Reconheço a grande dificuldade que é administrar um clube como o Botafogo. Entendo as dificuldades pelas quais o Bebeto passou tais e quais às que eu venho enfrentando nesses últimos seis anos, por isso pautei minha atuação durante minha gestão respeitando a figura e a imagem dos ex-presidentes. Exemplo disso, foi quando pressionado por alguns membros do Conselho Deliberativo do clube me recusei a ingressar na justiça com ação de ressarcimento contra o Bebeto, por achar que os assuntos do Botafogo devessem ficar dentro do Botafogo. É justo salientar o grande feito de sua administração: o retorno a elite do futebol brasileiro; entretanto, não devo e não vou mais me calar diante de atitudes, falas ou pronunciamentos que não correspondem à verdade dos fatos e que, estranhamente, somente ocorrem em ano eleitoral. Aliás, bem diferente de quando entrei no Botafogo em 2009, hoje são vários os candidatos que pleiteiam a Presidência desse glorioso e centenário clube.

Maurício Assumpção

Presidente do Botafogo Futebol e Regatas

Fonte: Blog do Renato Mauricio Prado - O Globo Online