Apenas 21 anos de idade, só dois jogos na equipe profissional, estádio cheio, partida decisiva, Libertadores. Algo estranho aconteceu com o zagueiro Marcelo antes de entrar em campo contra o Colo-Colo, há 20 dias: ele não sentiu qualquer pressão.

— Pressão para mim é matar ou roubar — afirmou.

Quem conhece a história de vida do zagueiro entende a declaração. Quando era adolescente, seu tio foi assassinado em Resende, por envolvimento com drogas. A proximidade entre os dois era tão grande que o jovem pensou em parar de jogar para seguir um só objetivo: vingança.

— Estávamos num bar tomando vinho. Nos despedimos e eu fui para casa. Mais tarde, minha mãe me acordou falando “atiraram no seu tio, atiraram no seu tio”. Eu nem acreditei.

Mas era verdade. E ele comprovou da pior forma possível: fazendo o reconhecimento do corpo.

— Quando eu vi, não aguentei. Minha vontade era de retribuir mesmo.

Felizmente, o impulso foi contido, e hoje o futebol é o único foco da vida dele. Agora, homenageia o tio de outra forma: com uma tatuagem no ombro direito.

Outro obstáculo quase fez com que ele abandonasse os campos: a altura — 1,80m, abaixo da média para zagueiros. Na passagem pelo Resende, antes de chegar ao Alvinegro, ele era pouco utilizado e quase desistiu de jogar. De novo.

— Eu quis parar, mas minha mãe me apoiou, falou para eu continuar me esforçando.

Em seguida, Botafogo o contratou, e ele aproveitou como ninguém a chance que perseguiu por tanto tempo: foi capitão da equipe sub-20 campeã Carioca e Brasileira. Hoje, com apenas cinco jogos, Marcelo renovou o contrato até 2020 e é o mais novo ídolo do Alvinegro. Um zagueiro que não desiste de nenhuma jogada. Na vida ou no campo.

PERSONALIDADE E APRENDIZADO

Além da categoria demonstrada dentro de campo, Marcelo também demonstra personalidade fora dele. Foi o que afirmou o atacante e companheiro Rodrigo Pimpão em entrevista coletiva:

— Quando alguém joga a primeira partida no profissional nós costumamos fazer um “trote legal”, em que a pessoa sobe na cadeira e faz um discurso. De todos que subiram da equipe de base, ele foi o único que não aceitou fazer. Nós nos surpreendemos, já vimos a personalidade dele.

A atitude firme do zagueiro, entretanto, foi respondida com uma “punição”.

— Depois que ele se recusou, tivemos que fazer um corredor polonês(em que os demais jogadores formam um corredor e a vítima passa por ele levando tapas). Isso ele teve que fazer .

Apesar dos tapas levados no começo, a relação de Marcelo com o grupo é das melhores. Carli, companheiro de posição, chegou a lhe dar alguns conselhos antes da partida contra o Colo-Colo:

— Ele me chama de “garoto”. Aí falou assim: “Garoto, procure vídeos do Esteban Paredes (jogador do Colo-Colo) na internet. É rápido e muito experiente.”

Foi o que o jovem fez. Na concentração, ele passava horas apenas estudando o adversário.

— Foi o atacante mais difícil que eu já marquei. As dicas do Carli me ajudaram demais no jogo. Este nosso grupo é uma família, todos se ajudam. Graças a Deus. Se fosse outro, talvez até tentasse me pegar no treino (risos).

Fonte: Extra Online