O presidente do Botafogo Carlos Eduardo Pereira e o técnico René Simões deram diferentes versões para a demissão do treinador, que comandava o time líder na Série B. Na Rádio Globo, os dois trocaram farpas e expuseram pontos de vista distintos.

Leia a transcrição do áudio disponibilizado no site da Rádio:

Carlos Eduardo Pereira: “Acompanhando a programação da Rádio Globo, fiz um whatsapp para o André e coloquei observações, discordei do que estava sendo colocado pelo René Simões e procurei transmitir a ele a minha visão dos acontecimentos. Ele teve a gentileza, entrou em contato comigo e eu não podia me furtar a trazer estes esclarecimentos à torcida do Botafogo.

A prerrogativa do cargo de treinador pertence não só ao presidente, mas ao Conselho Diretor do Botafogo. Quando nós optamos por afastar o René, até de forma mais reservada possível, de modo a não trazer aspectos internos para a imprensa, vimos como uma coisa normal, um evento que pudesse passar dentro de uma tranquilidade, sem ganhar tanto debate. Infelizmente, as coisas cresceram e ganharam dimensão maior. Procurou-se criar uma impressão de que foi um absurdo, uma decisão em que a diretoria procurava escalar jovens da base. Em momento nenhum isso foi solicitado. Eu friso isso com todas as letras e diante dele. Nunca alguém da diretoria chegou e falou escale fulano, beltrando ou ciclano. O que sempre se pediu a ele foi que observasse os atletas da base e, alguns, em que o Botafogo tem sociedade ou parcerias, desse atenção especial, no sentido de sempre serem corretamente avaliados.

Isso aconteceu em algumas reuniões. A primeira no dia 27 de março, onde foram analisados todos os jogadores do elenco e os percentuais que o Botafogo possui, além do grupo 1 e do grupo 2. O grupo 2 foi um grupo de descarte criado pelo ex-técnico René Simões, em que ele afastava esses jogadores que não lhe interessavam no dia a dia. Posteriormente, houve nova reunião, adiante, no mês de maio, em que foi feita avaliação do elenco para o segundo semestre. Voltamos a pedir que desse ênfase aos jogadores Andre Luis centroavante, Fabiano volante, Sindey volante e Jeferson Paulista, meia que retornava ao clube. Dê uma atenção porque precisamos saber o real potencial dos atletas. Em nenhum momento foi pedido para escalar esses jogadores. Não recebi qualquer relatório sobre esses jogadores.

Três semanas depois fiz um questionamento de onde estavam esses jogadores. “Ah, foram mandados para o grupo 2″. Grupo 2 é aquele que treina à parte, sem nenhuma condição de ser observado. São jogadores de descarte, não interessam ao trabalho. Posteriomente, veio o pedido de integração da base, a pedido do Manoel Renha, para que houvesse início de preparação do sub-20 e sub-17 para no futuro poderem se integrar com mais tranquilidade. O que eu pedi ao ex-treinador René Simões especificamente nesse jogo com o Macaé? René, eu preciso de 3 jogadores da nossa base, Vinicius Tanque, Fernandes e Emerson. Você monta seu grupo, seu time e seu banco. Se os 3 não estiverem na previsão, leve no grupo e coloque como exercício de convivência e adaptação. Na hora de ir para o banco, coloque a sua equipe prevista, mas os garotos precisam participar da rotina de hotel e concentração. Foi exatamente esse o pedido. Não há nenhuma interferência, nenhum absurdo. A prerrogativa é do Botafogo, o clube sabe o que quer e onde precisa chegar na preparação dos seus jovens. Esse planejamento foi apresentado a ele. No dia 27 de março foi uma revisão. Posteriormente, voltamos a apresentar. E eu pessoalmente atualizei a relação dos jovens e como o clube gostaria que fossem tratados pelo treinador. Apenas isso.”

René Simões

“É muito estranho que o grupo 2 tenha ido criado por mim. Não criei grupo 2 nenhum, isso quem fez foi o gerente de futebol (Antônio Lopes), é o trabalho dele e tem que fazer mesmo. Não dá para ficar com 40, 50 jogadores. Para quem não entende de futebol, eu gostaria de trabalhar sempre com o número de 26 a 28 jogadores. Tem o objetivo principal de classificar para a Série A, pois os outros não valem nada para o ano que vem. O que estranho foi receber as mensagens após o jogo com o Sampaio Corrêa pela ousadia de colocar o menino (Luis Henrique) e depois dizerem que eu não cuido dos garotos. Trabalhar com garoto é muito bonito no discurso, mas todos eles jogaram comigo. O Emerson jogou comigo, o Fernandes foi titular depois teve queda normal, Gegê idem, Sassá chegou a ser titular, machucou em um jogo brilhante e demorou muito tempo. O Emerson eu falo que vai ser um dos grandes. Comparo com o Jemerson, do Atlético-MG. Jeferson Paulista chegou, foi olhado e aí conversamos com ele, estava sendo feito trabalho superespecial com o nosso coaching Paulo Serrano, porque o problema dele não era de bola. Jogar ele joga muito. Ele tinha um problema com ele que estava sendo resolvido. Os outros todos foram olhados. Não posso trabalhar com 40 jogadores. Quem determinou a criação do grupo 2, acertamente, foi o professor Antônio Lopes. É muito fácil falar para olhar todo mundo quando eu que tenho que levar time para a Série A. Sempre trabalhei junto, conversei muito com o técnico do júnior e o Eduardo Freeland, que faz trabalho excepcional na base, dizendo que só posso ajudar vocês classificando esse time. Gosto de ir lá, fazer palestras, fazer treinos com equipe júnior, mas tudo poderia perder o foco de voltar à Série A. Aí revelo 2 ou 3 jogadores e não subo, não adianta nada. Isso tudo é o conhecimento e a prática por já ter passado por isso. A prerrogativa é do clube, é dono do meu cargo, mas da função não. Vai ser feito por mim. Se o clube não gostar, é isso mesmo, me demite. Mas diz que demitiu, assume e acabou. Eu ficaria quieto como foi em todos os clubes. Quando escuto histórias como essa, tenho que falar. Recebo um e-mail do presidente falando o que falou depois do jogo com o Sampaio e três jogos depois saio porque não estou fazendo nada que o clube quer, há alguma incoerência aí.”

Carlos Eduardo Pereira

“Essas últimas declarações mostram bem as razões do afastamento. Fez de acordo com a cabeça dele, sem cumprir as orientações do clube, inclusive na relação com a base. É uma falta de respeito com a privacidade das pessoas você revelar mensagens de incentivo passadas após as vitórias. Quando houve o jogo com o Sampaio Corrêa, já vínhamos de resultados ruins. Tivemos a goleada patética para o Macaé. É normal incentivar treinadores. Em relação ao Luis Henrique, o nome preferido do treinador era o Rafael Oliveira, cansou de me pedir. Infelizmente, por problemas com o clube de Alagoas ele não ficou. O Bill saiu, havia o Vinicius Tanque e a opção dele foi o Luis Henrique. A decisão da diretoria, e não só minha, sempre atuo de forma colegiada, foi da diretoria. Da parte do Botafogo, os esclarecimentos estão dados. O Botafogo nunca passou e-mail a René Simões.”

Fonte: Redação FogãoNET e Rádio Globo