Há quem espere com ansiedade a volta de Maurício Assumpção ao consultório em janeiro de 2015. Não que o dentista seja tão superior a seus colegas cariocas, um craque acima da média das obturações. Mas o dirigente de 51 anos se encaminha ao final de mandato no Botafogo como uma unanimidade dentro e fora do clube. Em evidência, é o cartola mais criticado da elite do futebol nacional na atualidade.

Assumpção se orgulha de ter ascendido na política do Botafogo sem padrinhos poderosos. Como dentista e professor universitário de odontopediatria, se ofereceu para tratar da boca de jogadores de base do clube. Depois usou sua expertise de futebol na areia para assumir a direção de esportes de praia. Aos poucos foi subindo na hierarquia até a oportunidade de concorrer à presidência em 2009, sucedendo Bebeto de Freitas.

Uma das grandes paixões de Assumpção é o futebol de praia. Nas areias de Copacabana foi um zagueiro de qualidade do Xavier, célebre time dos anos 80 e 90. Também atuou como treinador nas horas vagas. Ali não era Maurício, o cartola ou o dentista, mas sim Nininho.

O passado na praia não foi esquecido quando Assumpção assumiu o comando do Botafogo. O dirigente se cercou de botafoguenses amigos feitos em Copacabana na infância e na adolescência. Ayrton Mandarino assumiu o cargo de diretor comercial. Sidnei Loureiro passou pelas categorias de base e foi promovido a diretor de futebol em 2012 – até deixar o clube neste ano por mau ambiente com os jogadores. Ney Souto comanda as divisões de base do clube. Já Bernard Shaw é coordenador administrativo do estádio Caio Martins.

Diante da situação financeira trágica do clube, os torcedores agora esperam ver Nininho de volta às areias. Ou melhor, aguardam que o dentista volte a atender seus pacientes. No Facebook, uma página de torcedores botafoguenses criou recentemente o evento fictício “Reabertura do consultório odontológico de Maurício Assumpção”.

Representante da ala crítica da torcida, o criador da página virtual ressalta a iniciativa cercada de humor para protestar. No entanto, o alvinegro, que não quis se identificar, fala sério e reclama da perda do Engenhão, do fraco desempenho na Copa Libertadores e no Campeonato Brasileiro e das insinuações de Assumpção de que poderia tirar o clube da Série A por causa da crise financeira.

“Este evento do Maurício é uma crítica direta ao trabalho dele. A descrição do evento brinca com isso. O objetivo é fazer com que o torcedor comum, aquele que não acompanha tanto a vida do clube, saiba um pouco mais”, detalha o torcedor.

Alvo da torcida, o presidente também está isolado politicamente dentro do clube e não conta com a confiança do elenco. Com salários atrasados, jogadores criticam sem constrangimento a gestão atual pela imprensa. Em entrevista ao jornal Extra, Emerson Sheik cobrou o Botafogo de maneira firme e chamou a diretoria de “incompetente”. A repercussão das declarações não amenizou o tom das cobranças do camisa 7. “Ninguém mandou me contratar”, disse o atacante.

A visão de Wilson Gottardo, atual diretor técnico do Botafogo, sobre o momento conturbado do clube demonstra o quanto Assumpção está ilhado. Por isso, o cartola boleiro se distancia cada vez mais do futebol. “Trabalho com o grupo de jogadores e com a comissão técnica. Não tenho nada a dizer para a diretoria. Não faço trabalho de reaproximação, nem tem clima para isso no momento”, afirmou o ex-zagueiro.

Antes presente no dia a dia do elenco, com idas a treinos no Engenhão e viagens com a delegação, a prioridade de Maurício mudou. As promessas aos jogadores sobre pagamento de dívidas também cessaram. Após parar de pagar dívidas, o dirigente aparece em evidência no pelotão de frente da cartolagem nacional na batalha por uma anistia fiscal do governo.

Na última semana o botafoguense foi atendido pela presidente Dilma Rousseff em Brasília, ao lado de outros cartolas da elite, e disse que poderia tirar o Botafogo do Brasileiro em razão de receitas bloqueadas. O clube tem uma dívida de R$ 700 milhões e ainda amarga penhoras que impedem o recebimento de receitas como a venda de jogadores.

NEGÓCIO COM EMPRESA DA FAMÍLIA, TELEXFREE E ENGENHÃO

O atual mandatário botafoguense ainda é criticado por permitir que uma empresa de propriedade de familiares (a Romar Representações LTDA) ganhe 5% por intermediar uma relação de patrocínio de camisa, segundo reportagem do Globoesporte.com.

No primeiro semestre Assumpção arriscou a imagem numa parceria que pouca gente acreditava que poderia vingar. Aceitou o contrato com a TelexFree mesmo ciente das investigações sobre a empresa nos EUA. O presidente fechou patrocínio, recebendo R$ 4 milhões à vista. Mas o acordo foi rompido já em maio após a prisão de um dos sócios da companhia no exterior.

Para completar o inferno astral alvinegro, o presidente é acusado de aceitar resignado a interdição do Engenhão, em março de 2013, supostamente por não querer se indispor com o PMDB, partido do qual é filiado.  O estádio era importante fonte de renda para o clube, e a negociação pelos naming rights foi paralisada.

Com o clube à beira do precipício financeiro, os adversários do atual presidente têm um caminho óbvio para trabalhar. Diretor de marketing demitido pela gestão Assumpção em 2012, Marcelo Guimarães desponta como nome para as eleições de novembro.

“Neste momento nosso movimento entende que não devemos falar. Mas tudo o que pensamos está explicado na nota que divulgamos”, afirmou Guimarães em contato com o UOL Esporte.

A nota em questão foi divulgada nesta semana para rebater Assumpção nas acusações de que Guimarães teria se oferecido para ser um “laranja” no acordo de patrocínio com a Viton 44. O texto fala no presidente “no fundo do poço”, criticando o dirigente por trocar executivos por familiares e amigos. O ex-diretor de marketing diz ainda que Maurício está assustado com o crescimento político da oposição.

“Para ser sincero, talvez tenha a lamentar um único fato. Que a força do meu trabalho, reconhecido pelo mercado, pela imprensa e pela torcida, somado a minha dedicação incansável, tenha involuntariamente ajudado a construir em favor do senhor Mauricio Assumpção, no passado que se distancia, uma imagem de bom gestor, mascarando seu profundo despreparo e incompetência para a missão, revelado no estado atual de sua administração”, discorre Guimarães, na nota.

Uma reunião extraordinária do conselho deliberativo nesta quinta-feira debaterá a situação do clube. A tendência é de que a oposição peça a renúncia de Assumpção. O dia também será importante por uma batalha jurídica. O Botafogo tem recurso julgado no TRT (Tribunal Regional do Trabalho) para voltar ao Ato Trabalhista e se livrar das penhoras. Isso desde que 20% de suas fontes de renda sejam destinadas ao pagamento de débitos empregatícios.

Já em campo, o time está na 15ª posição e flerta com a zona de rebaixamento do Brasileiro. Fora dele, o cenário é ainda pior. O homem que trouxe Seedorf ao Botafogo, que comemora dois títulos estaduais no currículo e a retomada da revelação de jovens, agora está na mira dos adversários. As próximas semanas prometem ser decisivas para a gestão Maurício Assumpção.

Fonte: UOL