Assumir o cargo de diretor comercial de um clube que vive momento de grave crise financeira não é qualquer coisa. Mesmo fazendo parte de uma das chapas derrotadas (a de Vinícius Assumpção), nas eleições do Botafogo em novembro passado, Klay Salgado abraçou a tarefa de ser o homem forte do setor no começo do ano, após convite do presidente Carlos Eduardo Pereira, para substituir Ayrton Mandarino, último gestor da área no mandato de Maurício Assumpção.

E Klay já mostrou serviço, colocando o Glorioso nos holofotes no clássico com o Flamengo graças a um patrocínio inédito: a rede varejeira Casa&Vídeo estampou uma promoção de smartphone no uniforme da equipe. O que, a princípio atraiu gozações dos rivais, logo se mostrou golpe de mestre, gerando repercussão na mídia e elogios vindos também de outros anunciantes. A rede Supermercados Unidos, que ocupou o posto de patrocínio master na camisa, poderia ficar apagada por conta da superexposição do anúncio promocional, mas se mostrou bastante satisfeita com os resultados.

“Não houve problema algum com a Unidos. A gente já esperava maior repercussão com a Casa&Video. Eu costumo colocar a seguinte comparação. Na época do primeiro patrocínio de camisa do futebol, certamente foi uma quebra de paradigma que gerou críticas. Então são absolutamente normais as reações a favor e também contra com uma coisa tão inédita quanto essa que o Botafogo fez. Acredito que a gente larga na frente e em breve isso vai ser muito comum em camisas de clubes”, argumentou o dirigente em entrevista exclusiva ao FutNet.

No começo de 2015, o Bota chegou a anunciar a renovação da Guaraviton como patrocinadora principal até dezembro. O presidente da empresa, porém, desistiu do negócio em razão das contas bloqueadas do clube – mesmo já tendo aprovada a volta ao Ato Trabalhista, questões burocráticas fizeram com que ainda não tenham sido liberadas. Assim, Klay chegou à solução de procurar os varejistas para estampar promoções nos clássicos com Flamengo e Fluminense, este a ser realizado no próximo domingo.

“A camisa estava livre para esses dois jogos. Eu trabalho com representação comercial, vendo produtos para o grande varejo no Brasil. Então eu sei quanto o varejo gasta em publicidade. Hoje o varejo está tranquilamente entre os cinco maiores anunciantes de mídia impressa, mídia eletrônica e redes sociais. E eu sempre quis trazer para o futebol alguma parte dessa verba do varejo. E a maneira que nós encontramos foi justamente trazer para a camisa a mesma coisa que eles anunciam na mídia impressa e eletrônica, ou seja, produto e preço. Com isso, o varejo vai passar a destinar com certeza alguma parte da verba publicitária para as camisas de futebol”, contou.

A vitória sobre o Flamengo marcou também a primeira partida do Alvinegro transmitida em televisão aberta no ano, aumentando o valor da exposição. O clássico com o Flu, porém, será passado apenas em pay-per-view, o que não preocupa o diretor. “Não afeta em nada. É claro que a exposição em tevê aberta é muito maior do que na tevê fechada, como vai ser o jogo do próximo domingo. Mas hoje, com as redes sociais temos exposição muito forte. Vamos torcer, claro, para o Botafogo ganhar de novo e as capas de jornais possam ser, provavelmente, um jogador nosso comemorando gol. E aí o patrocínio aparece bastante”, garantiu, ainda revelando negociação da presidência para receber melhor tratamento da tevê aberta. “Sem dúvida se a gente pudesse ter exposição maior na tevê aberta isso ajudaria mais, aumentaria o valor do produto Botafogo. Mas isso o presidente está conversando, para ver se a gente recebe tratamento igual aos outros clubes”.

Como o jogo contra o Rubro-Negro foi realizado no Maracanã, os ganhos do Glorioso com os patrocínios foram menores do que seriam caso o confronto fosse no Engenhão. Para Klay, existem outras possibilidades a serem exploradas no assunto, já que as marcas que patrocinaram a camisa gostaram do resultado e já negociam extensões de contrato – além de outras empresas agora se mostrarem interessadas no Bota. “Esses patrocínios pontuais foram feitos só para os jogos Botafogo x Flamengo e Botafogo x Fluminense. A gente está negociando com eles e como contrapartida vai ter placar no Engenhão, vai ter participação percentual no backdrop (a placa que fica atrás dos jogadores nas entrevistas) e tudo mais. Isso está sempre no contrato de patrocínio. Diferente desse caso, que foi uma coisa pontual e não valeria a pena. Seria mais custoso fazer um backdrop só para esse jogo”, analisou.

O Engenhão é tema frequente de debate entre os alvinegros, já que a maioria ficou bastante incomodada com a forma com que o estádio foi fechado, sem muitas explicações ou cobranças da gestão anterior. O local, agora chamado de Estádio Nilton Santos, é fonte de renda fundamental para o clube, mas Klay explica que não poderá ser rentabilizado totalmente por enquanto.

“Temos grandes planos para o Engenhão, mas só vamos poder colocá-los em prática a partir do final de 2016. Agora em dezembro, depois do último jogo nosso em casa na Série B do Campeonato Brasileiro, o Engenhão volta para a Prefeitura para obras dos Jogos Olímpicos do Rio. E só volta para o Botafogo depois das Olimpíadas e Paralimpíadas, ou seja, por volta de setembro ou outubro de 2016. Só a partir daí vamos poder explorar 100% do potencial que o Estádio Nilton Santos oferece. Este ano não adianta eu fechar com uma loja ou um quiosque, ou seja lá o que for, para ter que acabar tudo em dezembro”, revelou, explicando as negociações possíveis para o estádio. “A gente está negociando parceiros que vão colocar placas internas e externas no estádio e continuamos negociando com outros parceiros para exibir suas marcas dentro e fora. Estamos também fazendo essas negociações para até o fim deste ano. Essas propriedades a gente pode explorar ainda esse ano, as coisas maiores só no fim de 2016”.

O Engenhão, no entanto, não é o único espaço alvinegro que pode gerar receita para o clube. Entre as outras sedes – General Severiano, Sacopã, Mourisco, Marechal Hermes e Caio Martins, o diretor contou quais estão em processo de negociação de parcerias. “Na sede do remo (Sacopã) estamos conseguindo alguma coisa e também temos propriedade para negociar em General Severiano. O Mourisco é um caso a parte porque ali tem espelho d’água, então há uma série de restrições para propagandas lá. Algumas coisas estão sendo negociadas também para o campo anexo do Nilton Santos, onde fazemos nossos treinamentos”, comentou.

Entre algumas das ações que o torcedor sente falta, se destacam as poucas opções de produtos do clube para venda. E Klay garante que não é problema só do Alvinegro, mas de todos os clubes brasileiros – e não por culpa deles. “Essa questão do licenciamento de produtos não é problema só do Botafogo. Licenciamento para clubes de futebol no Brasil em geral é uma coisa muito complicada. Principalmente porque as empresas que licenciam são empresas de pequeno e médio porte. Isso cria uma dificuldade de venda de produtos nas grandes redes de varejo. Eles não têm logística para atender as grandes redes. Então as vendas se restringem às lojas de cada clube e a um ou outro varejo que aceita receber produtos sem a logística de grandes redes. O problema do licenciamento no Brasil não está no licenciamento em si, e sim na distribuição, na capacidade do licenciado em distribuir os produtos no maior número de pontos de venda possível”, explicou.

O ídolo Jefferson poderia ser o mais beneficiado com o uso de imagem para vender produtos. “Já existe no site a campanha #nossojefferson para ajudar nos esforços que a diretoria fez para manter nosso grande ídolo no clube e outras ações estão sendo preparadas para serem apresentadas a partir da estreia do Botafogo na Série B”, disse.

Outra questão destrinchada por Klay foi o contrato de fornecimento de material esportivo. No começo de 2015, a Puma renovou com o clube, mas não até o ano todo. Antes, a empresa havia chegado a anunciar que não ia mais continuar patrocinando o uniforme alvinegro, mas voltou atrás com a eleição de Carlos Eduardo Pereira. E em breve devem surgir novidades sobre o assunto. “O contrato da Puma foi estendido até meados de maio. Estamos negociando com outros fornecedores e até o final da semana que vem a gente tem a decisão de qual fornecedor vai ganhar a concorrência. Sendo que por contrato a Puma tem a preferência, ou seja, após os outros apresentarem propostas a Puma tem o direito de cobrir caso interessar a ela. Caso não interesse, quem apresentar a melhor proposta vai ser o novo fornecedor de material esportivo do Botafogo”, contou.

Se o futebol alvinegro já sofre com os problemas financeiros deixados por Maurício Assumpção, os outros esportes do clube poderiam estar ainda mais abandonados. Para se manterem, o Bota busca patrocínios específicos que permitam a formação de atletas em outras modalidades, mas não pretende disputar campeonatos profissionais no momento. E tem grande projeto para as divisões de base do futebol.

“Estamos buscando patrocínios para os esportes olímpicos sempre na formação do atleta. O Botafogo não vai disputar campeonato de basquete ou de vôlei profissional. Sempre investimentos na base, na formação, para que a partir daí eles tenham condição de seguir carreira no esporte escolhido. Existe um projeto também para a base do futebol, do sub-20 até o infantil (sub-15), que seria para remodelar e adaptar o Caio Martins para que ele seja nosso local de treinamento de toda a base. Será feito através de alguns incentivos fiscais, mas estamos ainda em fase de planejamento para poder realmente apresentar o projeto”, finalizou.

Fonte: FutNet