Os dedos tortos e as mãos deformadas são marcas deixadas por 27 anos de uma vitoriosa carreira. Ao contrário de quase todos os goleiros, Manga dispensava o uso das luvas. E quando quebrava um dedo, contrariava as orientações médicas retirando o gesso e voltando a jogar antes do tempo. Nascido Hailton Corrêa de Arruda no Recife, em 26 de abril de 1937, Manga foi o primeiro dos cinco filhos de José e dona Elder e ganhou o apelido de amigos, ainda na infância, por causa das “crateras do tamanho de mangas” que tinha no rosto, após ter contraído varíola. Assim como vários meninos da época, começou a jogar futebol nas peladas de rua e nos campos de várzea da capital pernambucana. Sua agilidade, coragem e elasticidade rapidamente ganharam fama, e em 1954 chegou ao juvenil do Sport.

Nesse ano, o jovem brilhou na divisão de base, chamando a atenção da diretoria rubro-negra, que levou o garoto ao time principal para partidas esporádicas em 1955 e 1956, tendo virado, definitivamente, titular na excursão do clube pernambucano à Europa, em 1957. Extremamente frio, seguro, ágil e com reflexos apurados, conquistou a todos e foi um dos destaques na campanha do título pernambucano de 1958. Em 1959, João Saldanha, então técnico do Botafogo, convidou o goleiro para jogar no alvinegro carioca, onde ele se revelaria como um dos principais goleiros do Brasil nos anos 60. Ao lado de craques como Nilton Santos, Didi, Zagallo, Quarentinha, Paulo Valentim, Amarildo e Garrincha, Manga fez parte de um dos maiores times da história do Botafogo, realizando contra o Santos de Pelé embates históricos.

Logo no início da sua trajetória no Glorioso, Manga conquistou um bicampeonato carioca (1961 e 1962) e dois Torneios Rio-São Paulo (1962 e 1964), sua presença garantia ao Botafogo baixa média de gols sofridos, qualidade na reposição de bola e tranquilidade em momentos decisivos. No primeiro bicampeonato vencido por Manga (o outro seria em 1967-1968), o goleiro iniciaria um duelo particular contra o Flamengo, seu adversário preferido. De fato, Manga conquistou seu primeiro bicampeonato no alvinegro (1961-1962) após incontestáveis vitórias. Em 1961 o Botafogo derrotou o Flamengo por 3 a 0 e, em 1962, repetiu o placar. Manga passou a dizer, antes das partidas contra os rubro-negros, que “o leite das crianças estava garantido”, para a alegria da torcida alvinegra.

O goleiro conquistaria, ainda pelo Botafogo, o Rio-São Paulo de 1966, a Taça Brasil de 1968 e inúmeros torneios internacionais nas excursões que o time de General Severiano fez pelo mundo. As atuações de Manga pelo Botafogo o levaram à Copa de 1966 e a uma seleção em que Gilmar, já veterano, era titular absoluto. Depois de vencer a Bulgária por 2 a 0 e perder para a Hungria por 3 a 1, o Brasil precisava vencer a qualquer custo a seleção de Portugal, de Eusébio e Coluna, para seguir na competição. Manga teve a sua grande chance, escalado no lugar de Gilmar,contundido. No entanto, a chance de ouro transformou-se no maior pesadelo da carreira do craque. Após uma saída insegura e uma inexplicável imobilidade, que tiveram como consequência os dois primeiros gols da equipe adversária, o Brasil ainda marcaria um gol, mas perderia Pelé, machucado, e a chance de seguir na competição. Portugal 3 a 1.

A Copa da Inglaterra seria a primeira e a última de Manga, que jamais conseguiria repetir na seleção o sucesso alcançado em todos os clubes pelos quais passou. A relação de Manga com o Botafogo começaria a azedar em 1967, após um desentendimento entre ele e João Saldanha, que o acusou de ter se vendido aos dirigentes do Bangu para entregar um jogo no Campeonato Carioca de 1967. Revoltado, o goleiro desafiou o comentarista a provar a acusação e marcou um encontro com o técnico na sede do Botafogo. Saldanha, temeroso por ser bem menor e mais velho do que Manga, sacou um revólver e atirou para o chão, próximo ao local em que o goleiro estava. Manga teve que fugir pulando o muro do clube.

A briga fez com que Manga aceitasse um convite do técnico Zezé Moreira para jogar no Nacional, de Montevidéu, com a missão de acabar com a hegemonia do rival Peñarol, que vinha de títulos importantes na década de 60 – dois Mundiais e três Libertadores. Missão cumprida: em 1969, o primeiro campeonato invicto, com 16 vitórias e quatro empates em 20 jogos. Em 1974, Manga deixou o Nacional com um Mundial Interclubes (1971), uma Copa Libertadores da América (1971), uma Copa Interamericana (1972) e quatro campeonatos uruguaios, indo para o Internacional.

As atuações do goleiro ao lado de craques como Anchieta, Masnik, Ubina e Luís Artime transformaram o brasileiro em uma lenda no Uruguai, onde passou a ser conhecido como El Fenômeno. A chegada de Manga ao clube gaúcho foi bem diferente de sua saída do Botafogo, afinal, Manga chegava internacionalmente reconhecido, detentor de títulos que poucos craques do país possuíam e jogaria na equipe de Falcão, Figueroa, Carpegiani, Valdomiro e Flávio, que conquistara cinco títulos estaduais consecutivos.

A contratação de Manga, transformou o Colorado no maior time do Brasil entre 1975 e 1976. Mantendo a tradição de ser campeão em todos os clubes pelos quais passou, Manga conquistaria pelo Inter dois Campeonatos Brasileiros, vencendo grandes times, como o Fluminense de Rivelino – a Máquina Tricolor, em 1975 -, por 2 a 0, em pleno Maracanã, e o Cruzeiro de Nelinho, Raul, Piazza, Zé Carlos, Palhinha e Joãozinho. Na campanha de 1975, o Internacional levou apenas 12 gols em 30 jogos. Em 1976, Manga repetiria o feito e seria bicampeão nacional, com o Colorado marcando 2 a 0 contra o Corinthians, e novamente sofrend poucos gols: 13 em 23 jogos. Pelo Internaconal, Manga foi ainda tricampeão estadual: consquistou os campeonatos gaúchos de 1974, 1975 e 1976.

No ano seguinte, após desentendimento com a direção do Internacional, o goleiro deixaria o clube e assinaria contrato com o Operário do Mato Grosso, onde sagrou-se novamente campeão estadual de 1977 e participou da surpreendente campanha da equipe no Brasileiro no mesmo ano. Alcançou as semifinais e foi eliminado pelo São Paulo, campeão daquele ano. Com Manga, o Operário venceu dez partidas, empatou seis e perdeu apenas quatro dos 20 jogos disputados, com 28 gols marcados e 16 sofridos. O recifense teve ainda passagens pelo Coritiba, Campeão Paranaense de 1979, e pelo Grêmio, Campeão Gaúcho de 1979. Em 1981, com mais de 40 anos, Manga se despediu do futebol jogando pelo equatoriano Barcelona de Guayaquil, pelo qual também foi Campeão Nacional. Após deixar os campos, Manga foi treinador de goleiros em equipes como o Internacional e o próprio Barcelona de Guayaquil, tendo resolvido se fixar no Equador.

Em 1975, o tenente e treinador de goleiros Raul Carlesso e o capitão Reginaldo Pontes Bielinski, professores de educação física do Exército, decidiram criar um dia para homenagear os goleiros do Brasil e optaram por 14 de abril. No ano seguinte, a data foi alterada para 26 de abril, dia do aniversário de Manga, considerado um dos maiores goleiros do mundo em todos os tempos.

Fonte: O Globo Online