De alguns anos para cá, o Botafogo voltou a revelar talentos para o futebol com frequência. Após longo período de descaso das administrações anteriores com a base, Bebeto de Freitas voltou a tentar organizar o setor quando assumiu em 2003 e limitou a presença de empresários, que antes agiam com liberdade no clube. Desde então, a partir do mandato de Maurício Assumpção, começaram a surgir nomes como os atacantes Caio e Vitinho, o zagueiro Dória, os volantes Gabriel e Jadson, o meia Daniel e o lateral-direito Gilberto.

Bebeto limou a ação dos agentes, dispensando diversos atletas que não pertenciam ao Bota. Mas após sua saída tudo voltou a ser como era. Atual diretor das divisões de base, cargo que assumiu em janeiro, Manoel Renha encontrou o problema presente mais uma vez, com os direitos dos jovens fatiados entre agentes e grupos de investimento por Maurício Assumpção – gerando a situação peculiar de que o Alvinegro não possui atletas que sejam totalmente do clube. “Jogador 100% nosso só quem ainda não assinou contrato (profissional) ainda, e nessa situação não é nosso de verdade. Hoje é uma situação complicada, que a Lei da FIFA (proibindo que investidores e agentes sejam donos de porcentagem de atletas) pode melhorar. Mas é muito difícil essa relação com empresários. Por exemplo, tinha um garoto muito promissor que fez 16 anos agora e o agente dele disse que só assinava se a gente desse 40%. Eu disse que o Botafogo não ia dar, que ele podia pegar o atleta dele e procurar outro clube. Ele também, como empresário, está fora enquanto a gente estiver lá”, contou em entrevista exclusiva ao FutNet.

Renha ainda deu um exemplo relacionado ao Barcelona quando esteve em contato com dirigentes do clube catalão. Na Espanha, também há casos parecidos de pedidos absurdos de empresários na hora de assinar com os jovens, e os Blaugranas nunca abrem mão de sua política usual na hora de fazê-lo, preferindo que o atleta vá para outra equipe se não quiser assinar nos moldes impostos pela diretoria. “Vez ou outra vamos perder um jogador mais promissor, mas está cheio de garotos bons de bola por aí. Nessas condições não dá para assinar, pedindo 40%. O agente vem com a história de que está investindo no jogador, mas não dá. Faz um acordo com a família e só, investe muito pouco”, disse. Na gestão de Assumpção, o Glorioso fatiou os jogadores da base de diferentes formas, principalmente vendendo parte dos direitos como garantias para empréstimos.

A equipe sub-15 do Botafogo venceu o Carioca da categoria em 2014, e os atletas de destaque do time campeão estão agora fazendo 16 anos e em vias de assinar o primeiro contrato. “Estamos fazendo planejamento com alguns deles, mas dando prioridade pra alguns da sub-20 que estão estourando idade por conta dos nossos problemas de caixa. Já acertamos com alguns que a gente acredita que têm potencial, o Gorne (atacante dos juniores) foi um deles. Daqui a dois meses vamos começar a ver melhor a situação desses meninos que estão completando 16 anos”, afirmou Renha. O diretor também exaltou o talento da equipe sub-17 alvinegra, com a geração dos nascidos em 1998 sendo uma das melhores do clube em todas as categorias – o juvenil estreia no próximo dia 21 na Copa do Brasil Sub-17, recebendo o Atlético Paranaense no Estádio Nilton Santos.

Ainda assim, na gestão de Assumpção o Bota viu alguns de seus principais destaques da geração 98 saírem para o Corinthians em negociações da antiga diretoria com o time paulista: o lateral-esquerdo Alexandre Limão, o meia Matheus Moresche e o atacante Pablo Vinícius, todos com passagem por seleções de base. Hoje, os principais nomes da geração são o lateral-esquerdo Zyan, os volantes Matheus Fernandes (pré-convocado para a Seleção Sub-17 que está disputando o Sul-Americano da categoria) e Rickson, o meia Ion e os atacantes Mateus Jorge e Luís Henrique – todos titulares do juvenil em 2014 ainda com 16 anos.

Em caso que virou notícia no ano passado, o Alvinegro quase perdeu outra joia da base para o Timão. Wenderson, meia-atacante, sumiu antes de assinar o primeiro contrato quando completou 16 anos e apareceu no clube paulista. Maurício Assumpção trocou acusações com Mauro Azevedo, empresário do jovem, já que haveria um problema antigo entre o clube e o agente. “Eu já conhecia o agente dele da época em que trabalhei no profissional do Botafogo (na gestão Bebeto de Freitas) e quando ele soube que eu estava assumindo a base ele me ligou e disse que o Wenderson estava tendo problemas de adaptação em São Paulo, com saudades da família. Acabou que ele voltou e a gente acertou contrato com ele, que já está integrado de novo”, esclareceu, lembrando também que o Glorioso busca conseguir o certificado de clube formador para facilitar negociações.

Renha já chegou a General Severiano tendo trabalho. No começo do ano, o clube viu Lyanco, promissor zagueiro de 17 anos, entrar na Justiça pedindo rescisão de contrato. “Quando eu cheguei a primeira reunião foi com o procurador do Lyanco. A gente estava devendo três meses de salário, ele queria uma solução imediata e eu não tinha como fazer nada porque tinha acabado de assumir. Foi no meu primeiro dia. Hoje já pagamos outubro, novembro, dezembro e janeiro pros garotos. Estamos devendo dois meses: fevereiro e o décimo terceiro. A gente acredita que até maio conseguimos regularizar tudo. No caso do Lyanco teve outro clube por trás, o São Paulo, já não é a primeira vez que acontece, infelizmente. O Botafogo estava exposto e fraco na situação, ele teve outra proposta… vida que segue”, lamentou.

Com as dificuldades financeiras, pensar em reforços para a base ainda é sonho distante. O objetivo agora é observar os jovens do sub-20 para descobrir os que têm potencial para serem promovidos. “A gente vai ver quem pode jogar a Série B ou não, ou até mesmo realocá-los para outros times para ganhar experiência, amadurecimento. Já tem muita gente lá, já foram dispensados 77 atletas. É uma questão de filosofias diferentes, a gestão anterior queria participar de muitas competições, o que exigia mais atletas. Eu acho que quando você tem muito atleta não consegue trabalhar melhor a questão da qualidade. Até o final do ano a gente vai estudar isso, chegar a um número. No sub-20 cerca de 30, no sub-17 pode ter um pouco mais. Quanto mais baixa a categoria pode ter mais, até porque os meninos mais novos às vezes desistem de ser jogador. Mas quanto mais perto do sub-20, menos jogadores. Até pra comissão técnica profissional poder avaliar melhor. Os juniores estavam com 48 atletas. Assim fica impossível de dar atenção pra todo mundo. Se a gente conseguir subir seis por ano para o profissional, já ficamos muito satisfeitos”, comentou.

Ainda sendo avaliados, os treinadores continuam os mesmos por enquanto: Maurício de Souza no sub-20, o ex-atacante alvinegro Felipe ‘Tigrão’ no sub-17 e Phelipe Leal no sub-15. Apenas quatro funcionários da base saíram com a nova diretoria por serem muito ligados a Maurício Assumpção. Pelos juniores, o Bota volta a campo no domingo contra o Resende, no Engenhão, pelo Carioca da categoria. Já o juvenil só estreia no ano na Copa do Brasil Sub-17. O infantil, que já participou da Copa Votorantim em janeiro, aguarda o começo do Carioca Sub-15 em maio.

Fonte: Futnet