Responsável por projetar o Engenhão e realizar a maior parte da obra do estádio do Rio, a Racional Engenharia afirmou que a arena não deveria ter sido fechada por quase dois anos, como ocorreu.

Disse ainda que a intervenção para reforçar a cobertura não era necessária. A Racional é uma das construtoras do consórcio RDR (Recoma, Delta e Racional), que se encarregou da primeira -e mais longa- etapa da construção.

É a primeira vez que uma das empresas do RDR se manifesta sobre o fechamento da arena levantada para receber o Pan de 2007 e que será sede do futebol e do atletismo na Rio-2016.

O estádio permaneceu de portas cerradas entre março de 2013 e fevereiro de 2015.

A Prefeitura do Rio e o consórcio Engenhão (Odebrecht e OAS), que finalizou a obra, reafirmaram a necessidade do fechamento e da reforma.

DISPUTA JUDICIAL

A Racional encomendou um laudo a cinco especialistas brasileiros, entre engenheiros e arquitetos. Esse parecer concluiu que a cobertura do estádio não corria risco de desabar, um dos principais argumentos para o fechamento em 2013. Esse laudo é usado em disputa judicial em que o consórcio Engenhão cobra o RDR pelos custos de reforço da cobertura.

“Nunca houve qualquer risco de colapso ou de insegurança na cobertura do estádio. Em outras palavras, a interdição foi totalmente desnecessária”, afirmou Marcos Santoro, vice-presidente de operações da construtora.

“A Racional afirma com absoluta segurança que o projeto foi desenvolvido de acordo com as normas técnicas e melhores práticas de engenharia. A empresa esclarece ainda que as conclusões divulgadas pela comissão especial e pelo Consórcio 2 [Odebrecht e OAS] partiram de premissas distorcidas”, disse Santoro à Folha.

A comissão a que ele se refere foi criada pela Prefeitura do Rio para avaliar o laudo de uma empresa alemã, a Schlaich, Bergermann und Partner (SBP). O documento dessa companhia detectou, em 2013, problemas estruturais no estádio, levando a comissão a optar pela interdição e, posteriormente, pelo reforço na cobertura. Não houve dinheiro público nessa reforma. O consórcio Engenhão bancou integralmente o custo e, por isso, cobra o RDR na Justiça —não se sabe o valor.

No laudo da SBP, há três pontos principais que colocariam a segurança do estádio em xeque: probabilidade de ventos fortes deixarem a estrutura em risco; peças amassadas e desalinhadas que poderiam significar problemas estruturais nos arcos que sustentam a cobertura; e a utilização de norma técnica americana, e não europeia, no projeto. O laudo elaborado pela Racional rebate esses pontos (veja quadro abaixo).

infoengenhao

Ao anunciar as obras de reforço, a prefeitura afirmou que houve erro de cálculo para a construção dos arcos e o deslocamento foi maior do que o esperado. O engenheiro Gilberto Couri, um dos autores do laudo do RDR, afirma que o deslocamento dos arcos foi maior por falhas na montagem. “Mesmo existindo o desalinhamento, a estrutura funcionava bem”, disse.

PRÊMIO

O laudo encomendado pela Racional, que contraria o do consórcio Engenhão, foi premiado pelo Cobreap (Congresso Brasileiro de Engenharia de Avaliações e Perícias), um dos principais do setor.

“Quem fez a crítica [ao projeto do Engenhão] se enganou redondamente. Eles adotaram determinadas premissas que são incompatíveis”, disse Gilberto Couri.

Interditado em março de 2013, o Engenhão voltou a receber jogos em fevereiro de 2015, com parte do estádio fechado. A reabertura total ocorreu em julho.

A longa interdição beneficiou a concessionária do Maracanã, também liderada pela Odebrecht. À época do fechamento do Engenhão, a empresa negociava com os clubes do Rio para uso da outra arena e o Maracanã se tornou o único grande estádio disponível no período.

O Botafogo, por sua vez, foi o maior prejudicado. O clube amargou prejuízos por não poder contar com a receita esperada com a exploração do estádio, do qual é concessionário desde agosto de 2007.

OUTRO LADO

Por meio de nota, a Odebrecht informou que pautou as ações tendo como premissa a segurança das pessoas, com firme amparo no laudo elaborado pela SBP, segundo a empresa a maior especialista do mundo no assunto.

“O trabalho técnico [da SBP] foi integralmente corroborado por comissão oficial formada pela Prefeitura do Rio de Janeiro. O Consórcio Engenhão ressalta, ainda, que o tema está ‘sub judice’ e qualquer manifestação técnica se dará exclusivamente no âmbito da respectiva demanda judicial”, diz a nota.

A prefeitura afirmou, por meio da assessoria de imprensa, que o prefeito do Rio, Eduardo Paes, determinou a interdição do estádio no início de 2013 após receber do consórcio Engenhão um laudo detectando problemas estruturais em sua cobertura.

“Um monitoramento de rotina realizado pelo Consórcio constatou risco à segurança dos freqüentadores em determinadas condições, como baixa temperatura e alta velocidade de vento, por exemplo”, diz a nota.

O argumento segue ressaltando que o procedimento de reforço da cobertura não teve a necessidade de gastos públicos – o valor gasto pelo consórcio Engenhão não foi divulgado pela empresa.

“Para priorizar a segurança da população optou-se pelo fechamento do estádio. Os custos da reforma foram integralmente assumidos pelo Consórcio Engenhão, sem ônus aos cofres públicos”, informou a nota”.

Fonte: Folha de S. Paulo